Javier Milei e os paradoxos migratórios de um nacional-liberalista
Observatório da Imprensa · Por Jean-Jacques Kourliandsky
(há 1 hora)
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(Foto: Pedro Lucca/Pexels)
O presidente argentino, Javier Milei, decidiu receber de braços abertos todos os migrantes que baterem à sua porta. Com uma condição: que paguem uma taxa de entrada de 312 mil euros. A decisão não se encaixa bem no manual de eventos internacionais da extrema direita, dos quais participa o líder do partido “La Libertad Avanza” que, aliás, é o chefe do Executivo argentino, sejam eles organizados pela Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) norte-americana ou pelo Fórum de Madri do partido espanhol Vox.
A pátria, segundo o que se ouviu por lá, deve zelar pela proteção de seus cidadãos contra qualquer afluxo estrangeiro. A soberania nacional, por outro lado, não está à venda. O Decreto de Urgência Necessária (DNU) de 30 de julho de 2026, aprovado pelas autoridades argentinas, não poderia ser mais claro. Qualquer cidadão estrangeiro que tente entrar na Argentina, qualquer estrangeiro que faça declarações hostis, sejam elas escritas ou orais, terá sua permanência proibida ou será expulso. O presidente Milei lembrou, na sede da OCDE, no último dia 30 de setembro, “o curto-circuito criado pelo (…) modelo socialista (…) (um) Estado cada vez maior, acompanhado por uma imigração descontrolada incentivada pelos Estados e pelas organizações supranacionais, responsável pela anomia generalizada em todo o continente”[1].
O morador da Casa Rosada tem, no entanto, uma concepção flexível do interesse nacional. Depois de revogar as leis que regulamentavam a posse de terras argentinas por estrangeiros, ele anunciou, em 30 de setembro, em Paris, a implantação de uma cidadania venal. Qualquer pessoa que disponha da quantia exigida, 350.000 dólares, pode agora se tornar argentino sem mais delongas. Não é exigido cadastro criminal limpo, nem análise de incompatibilidade com o interesse do país, nem o filtro previsto pelo DNU de julho. Há apenas uma exigência: o pagamento de uma taxa. Uma vez paga essa taxa, todas as barreiras impostas pela Lei de Imigração e pelo DNU aos demais candidatos são removidas. Essa taxa, conforme indicado, é de 350.000 dólares, o que equivale, à cotação atual, a 312.000 euros. Uma alternativa aceita é a subscrição de 800.000 dólares em títulos públicos argentinos. Há também uma oferta especial para famílias no valor de 500.000 dólares, destinada a um casal e dois filhos, desde que menores de idade.
O nacionalismo exibido tanto na América Latina quanto na Europa pelos partidos de extrema direita está sendo duramente criticado. A pátria continua sendo um valor supremo, mas num sentido que perverte sua essência: o de seu valor de mercado. Os candidatos mais modestos são excluídos; apenas os super-ricos são admitidos com distinção. Os discursos chauvinistas de Milei, conclui Pablo Juliano, deputado radical argentino, são exemplos de “patriotismo de fachada”. Essa reviravolta ideológica estava, é verdade, em sintonia com o clima que se respirava em Buenos Aires. A Argentina é, como reivindicam seus líderes, um produto à venda para o melhor comprador. A “argentinidade” oferecida aos abastados por Javier Milei não é fruto do acaso. Ela surgiu de uma semana promocional organizada em Paris, a “Argentina Week”, expressão tirada do jargão das finanças internacionais. Será que devemos deduzir que nada mais funciona no país dos gaúchos, conquistado com grande esforço eleitoral por Javier Milei em 2023?
O presidente argentino, ao retornar de Paris, declarou-se satisfeito. Ele teria promovido bem o potencial da Argentina, como se costuma dizer nessas circunstâncias, conseguindo grandes investimentos. A empresa de mineração anglo-suíça Glencore confirmou, de fato, um acordo para desenvolver, na localidade de Água Rica, um jazigo de cobre com potencial produtivo de 200 mil toneladas, capaz de gerar um faturamento de exportação superior a dois bilhões de dólares por ano. O grupo francês Total assinou um contrato com a YPF e a Essential Energy, prevendo a compra de combustíveis “limpos” para a aviação, produzidos em uma biorrefinaria a ser construída. A Total também manifestou interesse em dois outros projetos de gás e petróleo, um na Terra do Fogo e outro na província de Neuquén. Além disso, foi anunciada em Paris a próxima ratificação de uma decisão final de investimento no setor de gás com as petrolíferas italiana ENI e dos Emirados Árabes Unidos XRG. A norte-americana Pan American Energy, por sua vez, divulgou seus projetos petrolíferos em Chubut, e a francesa ERAMET, sua intenção de aumentar a capacidade de exploração de seu jazigo de lítio no norte da Argentina.
É preciso fazer algumas ressalvas a essas concessões que soam tão atraentes. Primeiro, todas elas se enquadram em uma legislação excepcional, em um regime tributário favorável destinado a atrair investidores estrangeiros: o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI). Segundo, esses projetos dizem respeito a um único setor da economia argentina: a extração de minerais, gás e petróleo. Terceiro, esse foco exclusivo mascara a fraqueza quase estrutural do modelo econômico privilegiado pelas autoridades argentinas. Com exceção do gás, do petróleo, dos minerais e de algumas produções agrícolas, tudo o que poderia gerar valor agregado — as indústrias de transformação — está em declínio.
De 2024 a 2026, segundo o escritório de estudos local Politikon Chaco, Buenos Aires e seus subúrbios, o tradicional centro industrial da Argentina, perderam 25 mil empregos. O quadro é o mesmo no interior do país, especialmente nas províncias de Córdoba e Santa Fé, com forte vocação para a indústria de transformação [2]. De acordo com o Centro de Economia Política da Argentina (CEPA), entre dezembro de 2023 e junho de 2026, 31.342 empresas — pequenas, médias e grandes — encerraram suas atividades, o que representa 6% do total. Essa realidade, que gera desemprego e pobreza, alimenta um mal-estar social crônico e as dúvidas dos potenciais investidores. Eles limitam seus investimentos aos setores mais lucrativos, que, além disso, se beneficiam das vantagens fiscais e aduaneiras conhecidas como RIGI. Em 2025, segundo a OCDE, o Brasil atraiu mais de 76 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros, o México, 40… e a Argentina… 3.
Apesar dos louros que Javier Milei atribui a si mesmo, apesar de suas críticas virulentas aos países “socialistas” e aos europeus, a Argentina está ficando para trás, longe do Brasil “petista” e do México “morenista”. A ponto de suscitar dúvidas nos círculos empresariais. O grande banco suíço UBS elogiou o sucesso da luta argentina “contra a hiperinflação, por meio de um ajuste fiscal e de uma desregulamentação”. Mas o UBS se preocupa com as consequências para o emprego, o consumo interno e a situação social. A conclusão dirigida aos potenciais investidores é: “quanto mais o tempo passa, mais o custo político da austeridade aumenta”. Esse conselho foi claramente levado em conta, a julgar pela escassa atenção e pelo mínimo de atratividade que o fundamentalista libertário Javier Milei tem recebido por parte dos investidores estrangeiros.
Texto publicado originalmente em francês, em 13 de outubro de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Javier Milei, paradoxes migratoires d’un national-libéraliste”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/135342. Tradução de Ricardo José Liani Filho e revisão de Andrei Cezar da Silva.
Notas
[1] Discurso do presidente Javier Milei na Argentina Week de Paris 2026. Disponível em: https://www.casarosada.gob.ar/slider-principal/51388-discurso-del. Acesso em: 20 de out. 2026.
[2] No “Âmbito Financiero”, 9 de outubro de 2026.
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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
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