Carta de Flávio Bolsonaro tropeça no ChatGPT e vira constrangimento político também nos Estados Unidos
Observatório da Imprensa · Por Ronald Sanson Stresser Junior
(há 1 hora)
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(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
A pressão política parece ter produzido um tropeço tecnológico na família Bolsonaro. Depois da divulgação de uma carta em que Flávio Bolsonaro (PL) contestava o resultado das eleições presidenciais e se apresentava como o verdadeiro presidente eleito do Brasil, um aliado do senador nos Estados Unidos atribuiu os erros do documento ao ChatGPT.
A explicação foi apresentada na quinta-feira (29) por Paulo Figueiredo, jornalista e influenciador próximo de Flávio e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que a inteligência artificial teria inserido um brasão antigo da República e recuperado uma versão anterior do texto, justamente aquela em que o senador se autoproclamava presidente eleito.
O relato foi publicado pelo Diário do Poder e pelo Congresso em Foco. A questão, porém, vai muito além de um erro de formatação: o conteúdo da carta e as sucessivas mudanças no documento levantam dúvidas sobre a estratégia política adotada após a derrota eleitoral.
E, nos últimos dias, a história ganhou uma dimensão internacional. A imprensa dos Estados Unidos passou a acompanhar não apenas a carta, mas também as circunstâncias da saída de Flávio do Brasil, sua chegada a Miami e a relação de seus aliados com integrantes do governo Donald Trump.
O brasão que veio do passado
Uma das primeiras versões da carta trazia um brasão com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com Z. Trata-se de uma representação histórica, associada ao início do período republicano, e não do brasão oficial contemporâneo da República Federativa do Brasil.
Segundo Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro teria pedido ao ChatGPT que inserisse o símbolo nacional no documento. A ferramenta, de acordo com a explicação do aliado, escolheu uma versão antiga.
“Por que o ChatGPT escolheu um brasão antigo da época em que Brasil se escrevia com Z, eu não sei”, escreveu Figueiredo, segundo o Correio Braziliense.
O problema não ficou restrito ao símbolo. A carta passou por diferentes versões, com alterações tanto no brasão quanto no próprio texto. O levantamento publicado pela Folha de S.Paulo identificou pelo menos quatro versões do documento.
A repercussão chegou também à imprensa americana. Em reportagem publicada em 31 de outubro, o The Washington Post mostrou como a viagem de Flávio e sua carta provocaram uma onda de memes no Brasil.
O jornal destacou justamente o brasão com a inscrição histórica “United States of Brazil”, em vez da denominação oficial atual, além da utilização da letra Z na grafia de Brasil. A publicação também registrou a circulação de montagens satíricas envolvendo uma suposta posse do senador como presidente dos “Estados Unidos do Brazil”.
De presidente eleito a líder da oposição
O episódio mais grave foi a apresentação de Flávio como “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de sua derrota no segundo turno, realizado em 25 de outubro.
Na carta, o senador contestou a legitimidade do resultado eleitoral, acusou instituições brasileiras de perseguição política e levantou suspeitas sobre a votação. Entretanto, as acusações de fraude apresentadas no documento não vieram acompanhadas de provas capazes de sustentar a contestação do resultado.
Depois da repercussão, o texto foi alterado. Flávio deixou de se apresentar como presidente eleito e passou a se definir como líder do Brasil. A mudança foi registrada nas diferentes versões examinadas pela imprensa.
Em sua explicação, Figueiredo afirmou que o ChatGPT teria recuperado um texto anterior, no qual aparecia a expressão “presidente eleito”. Segundo ele, a versão final deveria utilizar a expressão “verdadeiro líder”, considerada mais adequada à situação jurídica e ao sentido político pretendido.
O aliado também afirmou que o documento passou por várias etapas de elaboração, com contribuições de mais de uma pessoa. Ou seja, a própria explicação apresentada por ele indica que houve participação humana na preparação e na circulação do material.
O The Washington Post, em reportagem publicada diretamente de Miami, também acompanhou as mudanças na declaração de Flávio. O jornal observou que o senador inicialmente se apresentou como vencedor legítimo da eleição, mas posteriormente adotou a expressão “líder”.
A publicação destacou ainda que as acusações de fraude foram feitas sem apresentação de provas e que até integrantes de seu próprio campo político demonstravam preocupação com a estratégia de contestação eleitoral.
O que a inteligência artificial realmente fez?
Há uma diferença importante entre confirmar o uso de uma ferramenta de inteligência artificial e provar que ela foi responsável por cada erro identificado no documento.
Uma análise das credenciais digitais do PDF, divulgada pelo Metrópoles, indicou o uso do ChatGPT na produção do arquivo. Isso, porém, não demonstra que a ferramenta tenha escrito integralmente o texto nem que tenha sido a responsável por todas as alterações.
O registro técnico do arquivo é um elemento verificável. Já a afirmação de que o sistema recuperou uma versão antiga e inseriu o brasão equivocado é a explicação de Paulo Figueiredo. Não foi apresentada uma comprovação técnica independente que permita atribuir à inteligência artificial toda a responsabilidade pelo ocorrido.
O próprio processo de elaboração descrito pelo aliado envolve versões sucessivas, participação de diferentes pessoas e autorização para distribuir o material à imprensa.
A responsabilidade pela revisão e pela publicação de um documento político não desaparece porque uma ferramenta digital foi utilizada em sua preparação.
Imprensa americana falou sobre a chegada de Flávio a Miami
Enquanto a discussão sobre o ChatGPT repercutia no Brasil, os principais veículos de comunicação dos Estados Unidos começaram a revelar detalhes da viagem de Flávio Bolsonaro e de sua família.
A Associated Press (AP) acompanhou a chegada do senador a Miami, na quarta-feira (28), depois de uma viagem que passou pela Argentina e pelo Equador.
Segundo a agência americana, Flávio chegou acompanhado da mulher e das duas filhas, depois que o governo Trump autorizou a entrada da família nos Estados Unidos.
A AP também registrou que o senador se recusou a reconhecer a derrota eleitoral, voltou a acusar o processo de fraude e pediu a anulação do resultado. A agência informou que a família recebeu autorização de entrada nos Estados Unidos e destacou que as autoridades brasileiras investigavam Flávio por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal. O senador nega irregularidades.
O CBS News também noticiou a chegada do parlamentar à Flórida, confirmando o desembarque em Miami e a autorização concedida pelo governo americano.
Mas a reportagem que trouxe uma das informações politicamente mais relevantes foi publicada pelo The New York Times, em 29 de outubro.
Segundo o jornal, Donald Trump e integrantes de sua administração tiveram participação na viabilização da entrada de Flávio nos Estados Unidos. A reportagem informou que o senador e sua família receberam uma autorização migratória temporária, conhecida como parole, por decisão relacionada ao presidente americano.
O NYT também relatou que o senador poderia buscar residência permanente nos Estados Unidos.
Outro detalhe importante da investigação jornalística diz respeito ao avião particular utilizado no deslocamento da Argentina até Miami. Segundo a publicação, Jason Miller, estrategista político e aliado de Trump, teria ajudado a organizar a aeronave, mantendo contato com Eduardo Bolsonaro.
Não se trata, portanto, apenas de uma viagem familiar de um político derrotado nas urnas. A reportagem aponta para uma articulação envolvendo personagens próximos ao núcleo político do presidente americano.
O governo Trump entra na discussão
A repercussão da chegada de Flávio também provocou questionamentos dentro dos Estados Unidos.
O The Washington Post relatou que Trump procurou manter distância formal da contestação eleitoral apresentada pelo senador, embora tenha questionado publicamente o resultado da eleição brasileira.
Ao ser questionado sobre a chegada de Flávio, Trump afirmou que havia autorizado sua entrada no país, mas declarou que não pretendia se envolver na disputa. Também voltou a classificar a eleição brasileira como estranha.
A posição do presidente americano merece atenção porque contrasta com o apoio político manifestado anteriormente à família Bolsonaro.
Outro desdobramento foi a mobilização de parlamentares democratas no Congresso americano. Segundo reportagem da VEJA, 25 deputados democratas assinaram uma carta dirigida ao secretário de Estado Marco Rubio, pedindo esclarecimentos sobre o papel do governo americano na saída de Flávio do Brasil e na concessão dos vistos.
A controvérsia ganhou mais um capítulo com a manifestação pública de Rubio. Segundo informações divulgadas pela imprensa brasileira a partir de declarações do secretário, ele negou que o governo americano tivesse participado dos preparativos da viagem. A negativa, entretanto, não elimina as informações publicadas pelo New York Times sobre a participação de Jason Miller na organização do voo, nem a autorização concedida para a entrada da família nos Estados Unidos.
É importante separar as duas questões: uma coisa é a autorização migratória concedida pela administração Trump; outra é a eventual participação de integrantes do governo e de aliados políticos na organização da saída do Brasil.
Uma contestação eleitoral sem provas
O constrangimento com o documento não apaga o conteúdo político da carta. Flávio Bolsonaro continuou contestando a legitimidade da eleição mesmo depois de substituir a expressão “presidente eleito” por “líder do Brasil”.
O resultado oficial do segundo turno confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. A diferença foi de aproximadamente 4,4 milhões de votos, conforme os dados divulgados pela Associated Press.
A carta não apresentou provas que demonstrassem fraude capaz de invalidar o resultado.
O senador também anunciou que pretende comandar a oposição a partir dos Estados Unidos, de onde promete continuar se dirigindo aos brasileiros e mobilizando seus apoiadores.
A iniciativa abre uma nova etapa de sua atuação política, agora marcada pela tentativa de manter a contestação eleitoral mesmo fora do país.
O próprio Washington Post observou que Flávio se encontra distante de sua principal base política e sem um caminho claramente definido para seu retorno à atividade política no Brasil.
O erro foi da máquina. E a responsabilidade?
O episódio oferece uma lição que vai além da disputa entre bolsonaristas e seus adversários. Ferramentas de inteligência artificial podem ajudar a produzir documentos, organizar informações e revisar textos. Também podem apresentar resultados inadequados, recuperar conteúdos incorretos ou falhar quando recebem instruções imprecisas.
Por isso, documentos políticos, jurídicos e institucionais precisam passar por revisão humana antes de serem publicados. Conferir o brasão, verificar a versão definitiva e checar a legitimidade das afirmações são tarefas básicas de quem assina e divulga um documento público.
No caso de Flávio Bolsonaro, a justificativa tecnológica não resolve a questão central. O problema não foi apenas um brasão antigo ou uma frase que desapareceu na versão seguinte. Foi a divulgação de uma carta que contestava o resultado das urnas e apresentava o senador derrotado como presidente eleito, sem provas que sustentassem essa pretensão.
Se o ChatGPT realmente recuperou uma versão anterior, como afirma Paulo Figueiredo, houve uma falha no processo de elaboração e revisão. Mas atribuir o episódio à inteligência artificial não transforma uma alegação sem provas em fato, nem transfere para uma ferramenta a responsabilidade política de quem decide o que publicar.
A chave está nos comandos digitados, nas versões produzidas e, principalmente, na indispensável revisão humana.
Há, entretanto, uma questão que merece atenção adicional: a carta não foi apenas um documento com problemas técnicos. Ela se tornou parte de uma estratégia de contestação eleitoral que ultrapassou as fronteiras brasileiras e passou a envolver aliados políticos de Donald Trump, autoridades americanas e parlamentares democratas.
Na política, assim como no jornalismo, tecnologia nenhuma substitui a obrigação de conferir os fatos. E nenhuma inteligência artificial pode conferir legitimidade eleitoral a quem perdeu nas urnas.
Ronald Sanson Stresser Junior é escritor, jornalista, radialista, ativista digital e arquiteto da informação. É editor do blog Sulpost.
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