Seria o lucro mais importante que a liberdade?
Observatório da Imprensa · Por Ramsés Albertoni
(há 57 min)
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(Foto: AlphaTradeZone/Pexels)
Três semanas bastaram para que o jornalismo econômico brasileiro narrasse dois movimentos de sinais opostos com o mesmo repertório de explicações com relação à campanha presidencial no Brasil em 2026. Depois do primeiro turno, em 4 de outubro, o InfoMoney registrou alta de 7,7% do Ibovespa no pregão seguinte, e a Reuters observou que as ações encerraram a sexta-feira anterior ao segundo turno quase 7% acima do patamar pré-eleitoral. A dianteira de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), qualificada pela agência como inesperada, havia sido recebida como boa notícia. Porém, no primeiro pregão após o segundo turno, em 26 de outubro, depois que o TSE confirmou a reeleição de Lula (PT-SP), o Ibovespa fechou em queda de 13,88% e o dólar subiu 8,21%, a R$ 5,403. O que era valorização, confiança e alívio apareceu como futuro que “derrete”, desmonte de posições e reavaliação de ativos.
De acordo com a Reuters, os agentes do mercado financeiro preferiam a vitória de Flávio Bolsonaro, pois ele oferecia chance de maior controle das contas públicas, embora o candidato não tivesse apresentado, durante a campanha, detalhes concretos de um ajuste. O preço de outubro incorporava, portanto, uma promessa sem especificação, e o noticiário a converteu em credencial de racionalidade. A reeleição foi recebida com outro critério. Espera-se do governo que desacelere o crescimento da dívida enquanto protege programas sociais, e a dúvida atribuída aos investidores consiste em saber se uma abordagem gradual reduzirá o custo dos empréstimos. Analistas citam ainda a cautela com medidas de gasto anunciadas no fim da campanha, desconfiança que dispõe de um referente concreto. O ônus da prova circulou de maneira assimétrica: a hipótese Flávio Bolsonaro recebeu crédito antecipado, e a hipótese Lula, cobrança sobre cada etapa.
Pedroso Neto e Undurraga (2018) identificaram uma afinidade eletiva entre jornalistas econômicos e economistas da corrente dominante. Quem compartilhava a doxa desses economistas alcançava as posições de maior prestígio, e trajetórias que passavam pelo Banco Central, ministérios econômicos ou bancos privados favoreciam a carreira desses jornalistas. Quando as fontes de maior acesso às redações pertencem a esse universo, suas interpretações chegam ao público como descrição da situação. O JP Morgan rebaixou o real e os títulos públicos, e uma pesquisa do Citi informava que 79,5% dos entrevistados esperavam queda superior a 5% do Ibovespa diante de uma vitória de Lula. Cada voz fala de uma posição que ocupa, e a sucessão de prognósticos convergentes confere ao conjunto a aparência de evidência independente.
A etnografia de Undurraga (2017) mostrou que o serviço de notícias em tempo real para o mercado financeiro intensificou o trabalho dos jornalistas e deslocou a produção de notícias para o público em direção à produção de notícias para o mercado. A gramática das manchetes completa o efeito. O Money Times informou que a reeleição “derruba” ativos brasileiros no exterior, e a cotação de recibos negociados em Nova York é tomada pela totalidade do país. “Ativos despencam”, “o real cai”, “os juros disparam”, verbos intransitivos descrevem movimentos que resultam de ordens de venda, e quem vendeu desaparece da frase.
O JP Morgan previu queda forte dos setores voltados ao consumo interno e desempenho superior das exportadoras, favorecidas pela desvalorização da moeda, e o fechamento confirmou a dispersão, visto que varejistas e empresas de saúde perderam mais da metade do valor em um dia, enquanto exportadoras de celulose e minério subiram. Um índice que perde 13,88% contém, portanto, papéis que sobem 10%. A Gavekal sugere que a correção pode ser oportunidade de compra, e os juros excepcionalmente elevados, que oneram o Tesouro, as empresas e as famílias endividadas, aparecem nessa leitura como atrativo de rendimento. Hardie (2006) mostrou, a respeito das eleições de 2002, que os investidores internacionais em títulos brasileiros formavam um conjunto heterogêneo, que não deixou o país antes da votação e que ampliou suas aplicações depois da vitória de Lula.
MacKenzie (2006) sustentou que teorias e modelos econômicos participam da produção dos mercados que descrevem. Estendida aos prognósticos e às narrativas que a imprensa publica, a tese sugere que a expectativa compartilhada contribui para o movimento que anuncia. As pesquisas da véspera da eleição colocavam Flávio Bolsonaro numericamente à frente, em empate técnico com Lula, e as urnas entregaram outro desenho. Logo após o segundo turno das eleições presidenciais, o CEO do instituto de pesquisas AtlasIntel, Andrei Roman, afirmou que o receio de retaliações políticas e judiciais levou grandes institutos de pesquisa a superestimar o desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro. O noticiário chamou de inesperado esse desfecho, atributo que o texto confere ao resultado, e a expectativa que o precedeu permanece fora da cena. Dardot e Laval (2016) mostraram como a lógica da concorrência se converte em racionalidade que organiza condutas e instituições segundo o modelo da empresa, e sob essa racionalidade o mercado passa a avaliar as práticas de governo em termos de êxito e erro. Confiança, credibilidade e risco fiscal atuam como categorias aparentemente universais, e a decisão de 64 milhões de eleitores é recebida como evento a ser precificado. Saber como os investidores reagirão a uma medida nada informa sobre sua desejabilidade social, que depende de escolhas sobre quem recebe, quem paga e em que prazo, próprias da deliberação democrática.
A preferência política do mercado, registrada pela Reuters e pela Gavekal, que observa preços refletindo a expectativa da vitória de Flávio Bolsonaro, merece tratamento à parte, porquanto se trata de uma posição eleitoral com consequências distributivas, pois o desenho do ajuste, o patamar dos juros e o espaço dos programas sociais dependem de quem governa. Nas páginas consultadas, essa posição foi organizada sob rótulos como confiança, risco e expectativa, vocabulário que traduz o interesse de investidores com carteiras e horizontes específicos na linguagem de uma condição objetiva do país. A alta de outubro foi lida como confiança, a queda da segunda-feira, pós segundo turno, como choque que atinge o país, e as duas leituras partem da mesma aposta eleitoral. As páginas não identificam quem a sustentava, com que posições montadas e que parcela da queda corresponde à perda dessa aposta.
A cobertura político-econômica tratou como comparáveis e equivalentes duas candidaturas que se relacionam de maneira radicalmente distinta com as regras que autorizam a própria disputa. Argumentei, em artigo publicado no Substack, que a candidatura de Flávio Bolsonaro representa um projeto de poder com pretensões totalitárias, que corrói a democracia por dentro, e em texto anterior neste Observatório, adverti contra a expansão da categoria bolsonarismo a todo comportamento retrógrado. Dessa maneira, o critério aqui adotado é a relação da candidatura com as regras da disputa, verificável em condutas. Na noite de domingo, após o término da apuração, o candidato derrotado declarou não reconhecer o resultado e anunciou que pediria a anulação do pleito. Na segunda-feira (26), o ministro Alexandre de Moraes determinou que o senador entregasse os passaportes e ficasse proibido de deixar o país, em investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, e o senador chamou a medida de intimidação. Na quarta-feira (28), o senador deixou o Brasil pela fronteira com a Argentina, seguiu em avião particular até Miami e divulgou uma carta em que se apresentava como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”, expressão que retirou da versão republicada horas depois, na qual passou a se apresentar como líder do país. A imprensa tratou a viagem como fuga, e ele negou, afirmando que não existe mandado de prisão contra ele.
As páginas de economia noticiaram a recusa do resultado como a postura da oposição e deram à reeleição a manchete de uma queda de 13,88%. A hierarquia fala por si, o risco fiscal atribuído ao governo recebeu cotações minuto a minuto e rebaixamentos. Todavia, a contestação do resultado por um candidato derrotado, que fugiu do país, que se apresenta como alternativa de poder recebeu o estatuto de lembrete. A gravidade do episódio excede o enquadramento de variável de risco. A previsibilidade invocada nas colunas sobre responsabilidade fiscal depende de instituições que se desfazem quando a derrota deixa de ser reconhecida. A equivalência não foi uniforme. Boykoff e Boykoff (2004) mostraram que o equilíbrio jornalístico gera viés ao equiparar posições de peso empírico desigual, e reconhecer o resultado das urnas integra o consenso democrático, de modo que ignorar essa distinção normaliza a ameaça.
O fechamento da semana e de outubro permite medir o tamanho da aposta e a maneira como ela foi narrada. Na sexta-feira (30), o Ibovespa encerrou o mês em 167.921,80 pontos, com queda de 9,88% em outubro, o pior mês desde junho de 2022, e de 18,12% na semana, a pior desde março de 2020, enquanto o dólar fechou a R$ 5,446, o maior valor do ano, com alta de 9,15% na semana, a maior desde 2008. Até a véspera do segundo turno o índice acumulava cerca de 10% de valorização no mês, de modo que a queda desfez o ganho e foi além dele. O InfoMoney descreveu Flávio Bolsonaro como o favorito da Faria Lima, e a preferência parece ter sido instrumental, pois em dezembro de 2025 o Ibovespa caíra 4,31% quando a candidatura do senador se confirmou, já que os investidores preferiam outro nome da direita, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Os balanços dos dias seguintes misturaram eleição, dúvidas sobre a equipe econômica, decisão de juros do Fed e resultados de empresas, e um gestor chamou a queda de recado duro do mercado ao governo, de modo que o preço passou a funcionar como sinal disciplinar. A fuga do senador apareceu nos balanços consultados como possível fonte de atrito entre Brasil e Estados Unidos, isto é, como risco comercial e diplomático, e o dólar recuou nesse dia. Os preços não permitem isolar o peso de cada fator, e a erosão das regras eleitorais como risco democrático ficou fora do enquadramento.
As restrições fiscais possuem fundamentos materiais, Blanco e Herrera (2006) mostraram que a composição do gasto afeta o crescimento, o que dá relevância à composição do ajuste. Bin (2015) apontou o insulamento seletivo das decisões macroeconômicas, aberto às finanças e fechado à participação popular, e na segunda-feira (26) o Tesouro recomprou títulos para acalmar o mercado, o governo recém-reeleito, julgado pelos preços, interveio neles. Saad-Filho (2020) descreve os governos do PT entre 2003 e 2013 como continuidade do neoliberalismo, o que enfraquece a leitura do pregão como ruptura e a celebração da queda como derrota do capital financeiro.
A queda da bolsa de valores reativou uma preocupação com o gasto público que varia conforme o destinatário. A dívida bruta do Brasil, projetada pelo FMI em 96,5% do PIB em 2026 e medida em cerca de 81% pelo critério do Banco Central, é inferior à do Japão (204,4%), da Itália (138,4%) e dos Estados Unidos (125,8%), e a comparação é contestada por quem lembra que essas economias financiam suas dívidas a juros menores, enquanto o Brasil destina cerca de 8,3% do PIB ao serviço da sua. O Bolsa Família tem orçamento de R$ 158 bilhões em 2026, e os gastos tributários da União chegam a R$ 612,8 bilhões, ou 4,43% do PIB, segundo a Receita Federal, quase quatro vezes mais. A Unafisco classifica R$ 618,4 bilhões das renúncias fiscais, em sua metodologia mais ampla, como privilégios sem contrapartida comprovada, delimitação que constitui matéria de disputa técnica e política. O economista André Lara Resende sustenta que o resultado primário brasileiro é pequeno e que o problema fiscal reside no serviço da dívida, cujo custo médio chegou a 12,68% ao ano em junho e equivale a 8,7% do PIB sobre a dívida líquida e a 10,5% sobre a bruta, valores que variam conforme o critério de cálculo. O economista acusa a grande imprensa de repetir sem exame que o problema está no gasto primário e propõe uma redução gradual da Selic, proposta contestada por quem teme efeitos sobre o câmbio e a inflação.
Conforme noticiou a Folha de S.Paulo (1/11), a proposta de Lara Resende entrou no radar de Lula, que deve receber o economista nesta semana, provocando apreensão entre gestores de grandes instituições financeiras que temem intervenção política nos juros. A apreensão se manifestou antes de qualquer decisão do governo, e ilustra o insulamento das decisões macroeconômicas que Bin descreveu, no qual a mera audiência de um presidente reeleito com um economista crítico da política monetária é recebida como risco. Para seus defensores, a proposta funciona como contrapeso ao ajuste de cerca de 2% do PIB que, segundo a Folha, a equipe econômica do candidato perdedor apresentara a empresários e investidores, com a desvinculação dos reajustes de benefícios do salário-mínimo e o fim dos pisos constitucionais de saúde e educação. Ou seja, a preocupação fiscal, quando se manifesta, escolhe com critério variável a conta que merece manchete.
O jornalismo econômico dispõe de procedimentos para tratar o resultado de uma eleição de outra maneira, e nenhum deles exige abandonar os números; dispõe também de vocabulário para registrar, sem eufemismo, a gravidade de uma candidatura com caráter golpista e autoritário. Contudo, a estrutura das redações dificulta esses gestos. Undurraga (2018) incluiu a falta de pluralidade na grande imprensa entre os obstáculos que tornam os jornalistas hesitantes quanto à própria contribuição para o conhecimento. A gramática que narrou a euforia narrou a queda com os mesmos termos.
Investidores avaliam retornos, e esse é o seu ofício, e o jornalismo econômico responde por aquilo que decide tornar relevante. Ao registrar a preferência como análise técnica, as páginas transmitiram a imagem de uma democracia tratada como externalidade do cálculo. A previsibilidade invocada nas colunas depende de eleições reconhecidas, de tribunais acatados e de derrotas aceitas, e cada alta de preço construída sobre a promessa de uma candidatura que veio a contestá-las empresta valor de mercado ao que ameaça essa base. Resta uma pergunta que as cotações não respondem e que os leitores podem dirigir às redações e às mesas de operações: é mais importante o lucro do que a liberdade?
Referências
BIN, D. Políticas macroeconômicas e democracia econômica no Brasil neoliberal. Economia e Sociedade, 24(3), p. 513-539, 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/1982-3533.2015v24n3art1.
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BOYKOFF, M. T.; BOYKOFF, J. M. Balance as bias. Global Environmental Change, 14(2), p. 125-136, 2004. DOI: https://dx.doi.org/10.1016/j.gloenvcha.2003.10.001.
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Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).
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