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Cultura

Do jornal à rolagem infinita: o que mudou na forma de consumir notícias?

Observatório da Imprensa · Por Suzy Azevedo

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Phil Desforges/Unsplash)

Durante muito tempo, o jornal impresso ofereceu ao leitor uma experiência particular de contato com os acontecimentos. Ao abrir suas páginas, era possível encontrar notícias sobre política, economia, ciência, cultura e outros assuntos, organizadas segundo critérios editoriais. Mesmo quando procurava uma informação específica, o leitor podia se deparar com temas que não estavam entre seus interesses imediatos. A leitura de uma notícia conduzia, muitas vezes, a outra, ampliando o contato com diferentes aspectos da realidade.

A experiência digital modificou essa relação. Hoje, as notícias chegam por notificações, redes sociais, aplicativos de mensagens, vídeos curtos e mecanismos de busca. O leitor pode acompanhar acontecimentos em tempo real, consultar diferentes veículos e acessar documentos que antes exigiriam muito mais tempo e esforço. A ampliação das possibilidades de acesso é inegável. A questão é saber o que acontece com a experiência jornalística quando o contato com as notícias passa a depender, cada vez mais, de fluxos contínuos de conteúdo.

No ambiente digital, a notícia nem sempre chega acompanhada de outras informações que ajudam a situá-la. Um acontecimento pode aparecer isolado em uma publicação, resumido em um vídeo ou apresentado por meio de uma manchete compartilhada. O leitor recebe uma parte da história, passa para a seguinte e, em poucos minutos, percorre assuntos diferentes sem necessariamente acompanhar o desenvolvimento de nenhum deles.

No Brasil, essa transformação pode ser observada em uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto de Pesquisa DataSenado entre fevereiro e março de 2025, com 5.039 pessoas com 16 anos ou mais. O levantamento identificou os meios digitais como principal fonte de notícias e atualidades para 54% dos entrevistados, enquanto a televisão foi mencionada por 37%. Entre aqueles que recorrem principalmente à internet, o Instagram apareceu em primeiro lugar, citado por 32%, seguido pelos portais de notícias, com 17%, e pelo YouTube, com 11%. Os dados mostram que uma parcela expressiva da população encontra notícias em plataformas que também distribuem entretenimento, opiniões e conteúdos pessoais. Isso não significa que o público tenha deixado de acessar o jornalismo profissional, mas evidencia que as notícias circulam em ambientes em que disputam espaço com diferentes tipos de conteúdo.

A mudança não é apenas tecnológica. Ela envolve os critérios que determinam quais assuntos chegam ao público, em que sequência aparecem e por quanto tempo permanecem em evidência. Na edição de um jornal, a seleção e a hierarquia das notícias eram decisões editoriais visíveis na organização das páginas. No ambiente digital, essa organização convive com sistemas de recomendação, métricas de engajamento e escolhas individuais, que influenciam o percurso de cada leitor.

O Digital News Report 2025, do Reuters Institute for the Study of Journalism, também acompanha as transformações no consumo de notícias e a crescente importância das plataformas digitais na distribuição de conteúdo jornalístico. A circulação das notícias já não depende apenas dos sites e aplicativos das próprias organizações de imprensa. Redes sociais e plataformas de vídeo passaram a ocupar um espaço relevante na relação entre os veículos e o público. Nesse cenário, a notícia pode chegar ao leitor sem que ele tenha visitado o site do veículo que a produziu.

Essa transformação também levanta questões sobre a formação do conhecimento político. Em estudo publicado em 2014, Marta Fraile e Shanto Iyengar analisaram a relação entre a exposição a diferentes fontes de informação e o conhecimento político em 27 países europeus. Os pesquisadores identificaram uma associação positiva entre a leitura de jornais de referência e o conhecimento factual sobre política, mesmo após considerar diferenças relacionadas à escolha das fontes. O resultado não permite concluir que o jornal impresso seja, por si só, superior a qualquer formato digital. Mostra, porém, que as características das fontes e o tipo de informação consumida importam para além da quantidade de notícias recebidas.

Outra pesquisa, de Homero Gil de Zúñiga, Brian Weeks e Alberto Ardèvol-Abreu, publicada em 2017, investigou a percepção de que as notícias chegam às pessoas espontaneamente pelas redes sociais e pelos contatos pessoais, sem que seja necessário procurá-las ativamente. Os autores observaram que essa percepção estava associada a uma menor busca por fontes tradicionais e a níveis mais baixos de conhecimento político ao longo do tempo. O estudo não afirma que as redes sociais necessariamente desinformam, mas chama a atenção para o risco de confundir a exposição incidental a notícias com o acompanhamento efetivo dos acontecimentos.

Esses resultados ajudam a compreender por que a discussão sobre o consumo de notícias não deve se limitar à comparação entre meios antigos e novos. A questão envolve os hábitos de leitura, a diversidade das fontes e a disposição para acompanhar os fatos além do primeiro contato. Uma pessoa pode receber dezenas de informações ao longo do dia e ainda assim ter dificuldade para identificar as relações entre elas, reconhecer o que mudou ou distinguir uma atualização relevante de uma repetição do mesmo conteúdo.

Nesse cenário, o jornalismo enfrenta um desafio editorial. Não basta adaptar manchetes para diferentes plataformas ou publicar o mesmo conteúdo em formatos cada vez mais curtos. É preciso considerar como a notícia será encontrada, em que contexto será recebida e se o público terá condições de acompanhar seus desdobramentos. Explicar antecedentes, recuperar decisões anteriores e mostrar o que aconteceu depois de um anúncio são práticas que ajudam a dar continuidade à cobertura, mesmo quando a circulação das informações é fragmentada.

Isso exige também reconhecer que o leitor não é apenas responsável por escolher o que consome. Suas decisões importam, mas são tomadas em um ambiente organizado por empresas, plataformas e veículos que disputam atenção. A facilidade de acesso não elimina a importância da mediação jornalística; torna ainda mais relevantes a qualidade das escolhas editoriais e a capacidade de oferecer contexto em meio à abundância de conteúdos.

A comparação entre o jornal impresso e o consumo digital, portanto, não deve servir para idealizar o passado. O formato impresso tinha limites de espaço, horários de fechamento e barreiras de distribuição. O digital ampliou o acesso, acelerou a circulação e abriu novas possibilidades de investigação e participação. Ao mesmo tempo, modificou a maneira como as notícias são encontradas, ordenadas e acompanhadas.

O desafio do jornalismo na atualidade é compreender essas mudanças sem confundir alcance com qualidade da experiência informativa. Em uma realidade na qual o leitor pode passar de uma notícia a outra sem sair da mesma tela, oferecer informação relevante também significa construir relações entre os acontecimentos, recuperar o contexto necessário e acompanhar as consequências dos fatos. A tecnologia mudou o caminho até a notícia. A responsabilidade de torná-la socialmente significativa, porém, continua sendo uma questão central para o jornalismo.

Referências

FRAILE, Marta; IYENGAR, Shanto. Not All News Sources Are Equally Informative: A Cross-National Analysis of Political Knowledge in Europe. The International Journal of Press/Politics, v. 19, n. 3, p. 275–294, 2014. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1940161214528993

GIL DE ZÚÑIGA, Homero; WEEKS, Brian; ARDÈVOL-ABREU, Alberto. Effects of the News-Finds-Me Perception in Communication: Social Media Use Implications for News Seeking and Learning About Politics. Journal of Computer-Mediated Communication, v. 22, n. 3, p. 105–123, 2017. https://academic.oup.com/jcmc/article/22/3/105/4161793

INSTITUTO DE PESQUISA DATASENADO. Fontes de informações e uso de meios digitais dos brasileiros. 2025. https://www.senado.leg.br/institucional/datasenado/relatorio_online/pesquisa_fontes_de_informacao/2026/interativo.html

NEWMAN, Nic et al. Digital News Report 2025. Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford, 2025. https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report/2025

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Suzy Azevedo é jornalista, pós-graduada em Comunicação Informacional pela FAAP e autora de textos reflexivos sobre mídia, comportamento humano e questões sociais. Escreve sobre temas que impactam a forma como as pessoas pensam, se informam e se relacionam com o mundo.

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