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Cultura

Como governará Trump depois da derrota?

Observatório da Imprensa · Por Rui Martins

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Polina Zimmerman/Pexels)

Será que o presidente norte-americano Donald Trump perderá as rédeas do governo, a partir de janeiro, depois da dura derrota na qual perdeu o controle do Senado e da Câmara dos Deputados? Essa é a pergunta que todos fazem, surpresos com a decisão pacífica do presidente Trump de aceitar os resultados das apurações. O autoritário Trump se resignará com um papel secundário, durante seus dois anos restantes de mandato?

Na verdade, os democratas, dispondo da maioria de senadores e deputados, poderão tentar travar a sequência autoritária do governo Trump, mas alguns jornais como o francês Courrier International, se reportando ao experimentado jornalista Gerard Baker, que foi redator-chefe do Wall Street Journal, expressam suas dúvidas. Trump não ficará de mãos atadas e nem será obrigado a governar só por meio de vetos, não será apenas o Presidente Veto, como se expressou.

Para governar como tem governado, Trump não precisa de autorização do Congresso. Tudo o que tem feito até aqui é na base decretos, desde os direitos de alfândega ou tarifaços aos atos violentos do ICE para expulsar imigrantes. Trump nestes dois primeiros anos de seu governo tem agido sem comunicar e sem pedir aprovação do Congresso, valendo-se de um reforço do Poder Executivo sobre o Legislativo, apoiando se na Suprema Corte, onde desfruta de confortável maioria. Pode-se imaginar uma adaptação de Trump à nova realidade, continuando a contar com o apoio da Suprema Corte, equivalente ao nosso STF, para derrubar qualquer iniciativa majoritária de senadores e deputados. A Suprema Corte, embora tendo ministros não eleitos pelo povo, mas indicados pelo próprio Trump no seu primeiro governo, poderá declarar inconstitucional qualquer pedido de impeachment contra Trump. Situação parecida com a do Brasil, onde o Senado com maioria bolsonarista não poderá anistiar os golpistas presos e nem impichar o presidente Lula e ministros do STF, sem aprovação do Supremo, onde o governo tem maioria.

Diante da nova realidade, Trump provavelmente continuará a baixar seus decretos, enquanto os deputados farão pressão por inquéritos, inclusive o de Epstein, e investigações sobre custos e utilização de armamentos na guerra contra o Irã. Por seu lado, o Senado poderá travar nomeações na alta administração, complicando a indicação de embaixadores e de juízes federais, inclusive na Suprema Corte. Limitado pelo Senado e pela Câmara quanto a ações e decretos dentro do país, Trump poderá se concentrar na política externa, prosseguindo a guerra contra o Irã, assumindo o controle de Cuba e tentando favorecer um acordo de paz com a Rússia às custas de um esfacelamento da Ucrânia. Um acordo paradoxal, no qual a derrota da Ucrânia, invadida, terá o apoio de uma parte da esquerda europeia e mesmo brasileira.

A vitória dos democratas nos EUA pode ser funesta para os brasileiros envolvidos na tentativa de Golpe, atos antidemocráticos e contra nossa soberania nacional como Allan dos Santos, Paulo Figueiredo Filho, Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem e Flávio Bolsonaro, refugiados nos EUA. Numerosos deputados norte-americanos já declararam sua intenção de aprovar decretos pela anulação dos seus vistos de permanência e sua extradição para o Brasil. Nesta hipótese, tais pessoas seriam entregues diretamente à Justiça brasileira, onde alguns já têm prisões decretadas.

Referências:

Courrier International
https://www.facebook.com/courrierinternational.com/posts/beaucoup-lesp%C3%A8rent-le-3-novembre-les-d%C3%A9mocrates-reprendront-le-contr%C3%B4le-du-congr/1547252860770171/

https://www.courrierinternational.com/depeche/apres-la-defaite-une-fin-de-mandat-volatile-s-annonce-pour-trump.afp.com.20261104.doc.d6d44zq.xml

Jornal suíço Le Temps

https://www.letemps.ch/monde/ameriques/donald-trump-se-prepare-a-gouverner-sans-le-congres-apres-les-midterms-a-coups-de-decrets-et-de-veto

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

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