“A ética do estudante não é negociável”: laboratórios orientam uso crítico da IA
Observatório da Imprensa · Por Joao Neto
(há 58 min)
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Em artigo elaborado no contexto do Liaj e apresentado no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), a pesquisadora Jaíssa Moreno discute o impacto da utilização de IA nas rotinas de redações jornalísticas. (Créditos: Reprodução / Instagram)
O uso de inteligência artificial (IA) já é uma realidade no mercado de trabalho e nas universidades do Brasil. Mais de 80% dos universitários do país ouvidos pela Universidade de Stanford afirmam usar a IA para estudar. Mesmo assim, uma minoria de instituições tem regras claras sobre esse uso em produções acadêmicas: segundo o levantamento de Lynn Alves e William Santos, de 111 universidades públicas, somente 27 instituições definiram tais diretrizes.
No jornalismo, a IA também está bastante disseminada: no Sul Global, 82% dos jornalistas aderem à tecnologia, conforme relatório de 2025 da Fundação Thomson Reuters. Já nos laboratórios de experimentação vinculados às graduações de jornalismo, o uso é mais tímido e nem sempre guiado por políticas bem definidas.
É o que indica a apuração realizada pelo Farol e pelo Projor a partir do levantamento que mapeou 44 laboratórios de jornalismo em maio deste ano. Em uma nova rodada de entrevistas, dez coordenadores afirmaram à reportagem que a IA está presente nos processos de produção. Desse grupo ouvido em outubro, apenas quatro contam com orientações documentadas sobre a tecnologia, como manuais dos cursos de jornalismo ou dos próprios laboratórios com recomendações específicas sobre o uso da IA. Nos laboratórios onde não há documentação, as orientações acabam ocorrendo caso a caso, muitas vezes guiadas por manuais mais abrangentes, que tratam do uso da IA para diversas áreas do conhecimento.
Dentre as iniciativas que contam com diretrizes específicas estão: Agência Júnior de Jornalismo, do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp); Lab Notícias, da Universidade Federal de Goiás (UFG); Laboratório de Produção de Conteúdos Jornalísticos, da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP); e o Centro Experimental de Jornalismo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
De maneira geral, prevalece o entendimento de que a IA deve ser usada como apoio, e não substituta do repórter nos processos de apuração e escrita. “Procuramos reforçar essa mentalidade entre os alunos, incentivando uma utilização consciente da ferramenta e coibindo práticas que possam comprometer a apuração jornalística”, explica a assessoria do projeto do Unasp.
No caso do laboratório da ESPM, onde os alunos usam a IA para decupar entrevistas ou até animar ideias para peças visuais, as recomendações são as mesmas da política de uso elaborada pelo curso de jornalismo, e estão divididas em sete diretrizes:
1) Seja entrevista, texto, foto, vídeo, áudio, gráfico ou tabela, o conteúdo não pode ser gerado por máquinas.
2) Apuração, redação, edição, montagem e checagem devem ser feitas por humanos.
3) Quem assina a reportagem é responsável pela veracidade das informações.
4) IA pode ser usada para dar suporte em pesquisas iniciais, organizar lista de perguntas a entrevistados, transcrever e organizar entrevistas, debater sobre texto ou dado apurado como forma de checagem.
5) Caso alguma informação tenha origem em ferramenta de inteligência artificial, deve ser verificada em fonte confiável.
6) Se um docente identifica padrão de conteúdo incomum, pode solicitar avaliação complementar de um trabalho sem consulta e a não realização da atividade resulta em nota zero.
7) A ética de um estudante não é negociável.

(Membros do Centro Experimental de Jornalismo durante uma cobertura experimental da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. A iniciativa contou com ferramentas de IA para desenvolver o logotipo do programa Conecta COP-30, a partir de identidade visual formulada por alunos. (Créditos: Divulgação)
Por que é importante ter um manual?
A cautela com o avanço acelerado do uso da IA não é apenas pelo receio de que as máquinas substituam os repórteres, mas pelo risco de o profissional deixar de exercer competências fundamentais da prática jornalística. Essa é uma das conclusões divulgadas pela fundação espanhola Luca de Tena, após um fórum com especialistas dos setores tecnológico, jornalístico e acadêmico.
Em entrevista recente à BBC Brasil, o especialista Ronaldo Lemos faz um alerta nesta mesma direção: jovens que terceirizam atividades mentais para um robô correm o risco de desenvolver dependência da ferramenta, além de comprometer a capacidade de pensar e prejudicar a formação de repertório – o que, no caso do jornalismo, impacta na formação de bons repórteres e editores.
Entre as recomendações publicadas pela Fundação Luca de Tena, está a definição de protocolos bem elaborados acompanhados de capacitação, uma lacuna em que os laboratórios experimentais podem incidir. A lista de orientações inclui ainda a promoção de conteúdos que a IA não pode oferecer, por meio de investigação própria, fontes originais, análises, contextualização, denúncia e checagem cruzada; desenvolvimento de mecanismos de sinalização de informações falsas e incentivo de colaborações entre veículos de comunicação, plataformas, órgãos e sociedade para financiar projetos independentes e informações de qualidade.
Das práticas recomendadas às inaceitáveis
Com a política de uso publicada em seu site, o Lab Notícias, da Universidade Federal de Goiás, encoraja o uso de IA em matérias e enfatiza a obrigatoriedade de identificar todo o conteúdo em que a ferramenta foi utilizada, inclusive com a documentação dos métodos no caso de aplicações geradas automaticamente.
Nas recomendações, estão previstas tarefas operacionais como transcrição de áudio e vídeo e revisão de português até geração de código de programação para aplicações que contribuirão com reportagens – tudo sempre com transparência e revisão humana ao final –, além de criação de ilustrações para as matérias.
Como práticas inaceitáveis, mencionam a produção integral de texto. Também é vedado aos alunos aceitar como definitivo o resultado de pesquisas feitas por IAs ou acatar sugestões de título, linha fina ou qualquer redação sem respeitar os princípios de transparência.
Há iniciativas mais restritivas, como o laboratório do curso de Jornalismo da Universidade de São Paulo (USP), o Jornalismo Jr., que desaconselha a utilização na redação de conteúdos e veda a criação de imagens e recursos gráficos, que são responsabilidade de uma equipe própria voltada à comunicação visual.
Outros usos informados à reportagem envolvem a produção de ilustrações para publicações no Instagram (Amazoom, da Universidade Federal de Roraima), organização e gerência de projetos (Agência Experimental de Comunicação, da Universidade do Extremo Sul Catarinense), e análise de dados (Laboratório Experimental de Jornalismo, da Universidade Federal do Maranhão).
Ruptura no audiovisual
No Pampa News, um robô divide espaço com os alunos-repórteres. No webtelejornal criado por Roberta Roos e operado pelos estudantes da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), em São Borja (RS), a apresentação fica por conta de um avatar.
Chamada de Vhi, a animação do Pampa News é abastecida pela apuração e pelo roteiro feitos pelos alunos, mas seu visual e sua fala foram gerados pela inteligência artificial. A figura é representada por uma menina jovem, de cabelos curtos e pele clara, que anuncia as previsões entre as principais notícias da programação, distribuída no Facebook, Instagram e YouTube.
A ideia nasceu como um produto do mestrado em Comunicação e Indústria Criativa da Unipampa, a partir dos estudos de Érica Rebés, orientada por Viviane Belochio. Rebés estudou jornalismo na instituição, quando foi uma das voluntárias do Pampa News.

Avatar Vhi é responsável por anunciar a previsão do tempo no Pampa News, laboratório localizado em São Borja, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. (Créditos: Divulgação)
Idealizado em 2023, o avatar Vhi foi considerado uma novidade positiva. “Promoveu uma ruptura na forma de produzir e executar o jornalismo audiovisual móvel em mídias digitais, pois inovou, naquela época, ao utilizar recursos nativos, ainda pouco explorados e treinados, como já são mais acessíveis hoje”, conta a egressa Rebés, que destaca a necessidade de supervisão humana em todos os processos da implementação.
A apuração continua sendo feita pelos alunos do projeto, segundo a atual editora-chefe do Pampa News, Beatriz Chetco. Sem diretrizes formais de uso de IA, o laboratório se orienta a partir de recomendações básicas, como não utilizar IA generativa para a redação dos textos e informar quando as imagens são criadas por robôs.
Nem tecnófilos, nem tecnófobos
Inaugurado em 2023, o Laboratório de Inteligência Artificial em Jornalismo (Liaj) da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) nasceu do interesse do professor e coordenador Orlando Berti em dinâmicas sociais e de uso dos meios digitais, e explora possibilidades de aplicações que vão desde projetos de acessibilidade ao desenvolvimento de manuais.
Após investigar, em sua pesquisa de doutorado, como online e presencial se retroalimentam, Berti seguiu interessado nessa relação. No Liaj, propõe aos estudantes reflexões sobre como os jornalistas estão usando a IA. Ao mesmo tempo, incentiva a criação de produtos gerados com inteligência artificial para oferecer gratuitamente à comunidade.
Das investigações feitas no Liaj resultaram livros escritos pelo professor e por alunos, como o Ensino de Inteligência Artificial para estudantes de Jornalismo, ChatGPT: evolução ou fim do jornalismo?, e o recém-lançado (e motivo de orgulho por ser o primeiro do país) Como transformar uma ameaça em aliado: manual propositivo para a utilização do Gemini nas Assessorias de Comunicação.
No âmbito prático, as principais propostas em elaboração atendem a demandas de acessibilidade. Uma delas é a criação de um avatar virtual inspirado na história de vida da aluna Nayara Santos, estudante de jornalismo que possui artrogripose, doença rara que limita os movimentos do corpo. O intuito é ajudar pessoas como Nayara a acessar a internet e realizar atividades como gravação de falas, transcrição e tradução. O laboratório também está desenvolvendo experimentos com óculos inteligentes da Meta para beneficiar pessoas cegas e surdas e considera sistemas de georreferenciamento para combater problemas como a violência de gênero.
“Não somos tecnófilos, nem tecnófobos. Não acreditamos que a IA vai acabar com o mundo, nem salvá-lo. É uma tecnologia que a humanidade vai decidir se usará para substituir as pessoas ou para perspectivas mais interessantes”, afirma o professor.
Desnaturalizar a tecnologia
Assim como na Uespi, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), tão importante quanto usar as novas tecnologias em favor do jornalismo é desenvolver uma visão crítica das ferramentas. A partir do cronograma da disciplina Ciberjornalismo II, o CódigoLide, laboratório ligado ao curso de jornalismo, oferece aos estudantes caminhos para colocar conceitos em prática. “Trabalhamos lógicas básicas da aprendizagem de ferramentas, conceitos introdutórios do jornalismo digital e também fazendo uma formação crítica para um olhar sobre a tecnologia que a desnaturalize”, diz Willian Araujo, responsável pela coordenação. O movimento envolve, entre outras propostas, a discussão com os estudantes sobre a história da web, destacando as diferenças entre processos consolidados, da privatização do ambiente comum digital à economia da atenção.
Araujo tem percebido nos alunos a influência negativa de um mercado de trabalho que demanda a proximidade com diferentes plataformas e mídias digitais, mas não requer aprofundamento. Com o laboratório, tenta mostrar como o jornalismo se insere nesse contexto, proporcionando aos estudantes um conhecimento histórico sobre novas ferramentas, que passa por aspectos econômicos – como o custo ambiental e social – e experimentações práticas.
O professor busca tornar o tema dos impactos da tecnologia mais palpável aos estudantes apostando em pautas locais. “Pouquíssimos olham ao redor, para além da visão estigmatizada do idoso no TikTok, por exemplo, como se fosse sempre um outro distante e incapaz. Digo: ‘Vão à Redenção [parque localizado na área central da cidade] e vejam as câmeras de vigilância que temos lá; vamos estudar quem são essas empresas’”, conta.

Avatar Vhi é responsável por anunciar a previsão do tempo no Pampa News, laboratório localizado em São Borja, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. (Créditos: Divulgação)
No primeiro semestre deste ano, o laboratório mostrou como projetos de data centers no Rio Grande do Sul prometem transformar o estado em um polo de infraestrutura digital e inteligência artificial, mas ameaçam territórios, populações e recursos naturais. Investigando algoritmos, no ano passado, buscou entender como o Judiciário brasileiro está incorporando a IA em suas atividades, a partir de uma visita ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS).
Ao comentar uma proposição de Sam Altman (CEO da empresa criadora do ChatGPT) a respeito do uso de IA pela população como uma utilidade básica comum – tal qual a água que facilmente temos acesso em uma torneira – Araujo alerta para o horizonte negativo que as inovações desenham. “Isso nos revela que também há um projeto de limitação da cognição humana, para não chamar de emburrecimento. Estamos tão acelerados que essas entregas acabam sendo aceitas”, explica o coordenador, que se preocupa com o futuro de sua profissão: “Não dá para ter uma postura que nega a tecnologia, ao passo que me permito fazer uso intensivo de IA para entender as lógicas, mas percebendo que podemos limitar o uso e ter em mente que todas essas ferramentas não são feitas pelas empresas para o jornalismo.”
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