EngenhariaColuna
A IA fala como quem sabe. Esse é o problema
Orçamento feito por inteligência artificial parece profissional, até alguém conferir o código, a competência e o BDI.

Imagine a cena, que já vi mais de uma vez. Alguém pede a uma inteligência artificial o orçamento de uma reforma. Em segundos, chega uma planilha impecável: preços “oficiais”, composições, totais fechados. Parece trabalho de orçamentista experiente.
Aí você confere. O código não existe no SINAPI (a tabela oficial de custos da construção) daquela UF. A competência é de outro mês. O BDI, a margem de despesas indiretas e lucro, foi somado duas vezes. Na tela, tudo certo. Diante de um auditor do TCE, nada se sustenta.
O erro não é o que mais preocupa. Erro sempre existiu: planilha de Excel com fórmula quebrada, desenho com cota trocada. O que muda é a embalagem. A IA erra com a mesma segurança com que acerta, em português limpo, sem hesitar. E nosso cérebro foi treinado para confiar em quem fala com firmeza.
A IA erra com a mesma segurança com que acerta.
Então vale deixar claro onde a ferramenta ajuda e onde ela não pode ir.
Onde ela ajuda
Num orçamento, descrever um serviço é meio caminho andado para errar a busca. “Tubo de PVC de 100 mm” pode estar na tabela como “tubo PVC esgoto DN 100”. A IA é ótima em testar essas variações em segundos, o que antes tomava uma tarde. Também rascunha memoriais e aponta linhas que destoam do resto da planilha.
Onde ela não pode ir
Em obra pública, preço sem banco, sem UF e sem mês de referência não é preço: é opinião. A IA não decide o critério de BDI, não diz se um serviço é medível, não emite parecer. E, quando “calcula” o total por conta própria, o erro entra quieto, bem escrito e difícil de achar numa leitura rápida.
A razão é simples. Quem assina a ART (Anotação de Responsabilidade Técnica) é o engenheiro. Quem responde ao ofício do tribunal é o engenheiro. A IA não tem CREA, não presta contas a ninguém e não perde o registro.
Por isso trabalho com uma regra: todo número que entra no documento técnico precisa de origem. Tabela oficial, composição, memória de cálculo feita por código ou por planilha que alguém consiga auditar. A IA propõe, explica, sugere o próximo passo. O engenheiro confere, corta o que não tem prova e assina o que sobrou. Sem evidência, o número não sobe.
Quem trata a IA como colega júnior, rápido e esforçado, mas que precisa de revisão, ganha tempo sem perder qualidade. Quem a trata como substituto acaba perdendo o carimbo, a defesa e, no limite, a credibilidade.
O futuro da engenharia não passa por escolher entre o homem e a máquina. Passa por quem sabe usar a máquina sem abrir mão do que só ele pode garantir: critério, ética e assinatura.
Checagem rápida
Antes de aceitar qualquer orçamento gerado por IA, confira:
- Código: ele existe na tabela oficial?
- UF e competência: o estado e o mês de referência são os da sua obra?
- BDI: foi aplicado uma vez só, e com critério justificado?
Henderson Gomes é engenheiro civil e orçamentista, com atuação em orçamento e auditoria de obras.
Este texto é uma coluna de opinião e expressa a visão de quem assina, não necessariamente a do Brasil360.
