Lula descobriu a comunicação digital
Observatório da Imprensa · Por Armando Medeiros de Faria
(há 1 hora)
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(Foto: Lula Marques/Agência Brasil)
A campanha eleitoral de 2026 parece ter provocado no presidente Lula uma descoberta tardia: a comunicação não é apenas instrumento para divulgar realizações, conquistar apoio ou enfrentar adversários. É parte da própria maneira de governar. A experiência das ruas combinada com a mobilização digital abriu uma oportunidade para o novo mandato: transformar o aprendizado eleitoral em mudanças permanentes na relação entre o Estado e a sociedade.
No discurso da vitória, ainda na noite de 25 de outubro, Lula anunciou maior protagonismo da comunicação digital, conversas diretas e frequentes com a população, mais participação popular nas decisões e regulação das plataformas. Defendeu a democracia, o combate à desinformação e criticou a mediação jornalística quando feita com má-fé. Ao agradecer ao deputado André Janones pela mobilização digital, o presidente reconheceu uma realidade: a política, a administração pública e o relacionamento com a sociedade acontecem também nas plataformas, em tempo real. Ao anunciar que vai mudar o jeito de governar, Lula sinaliza uma inquietação em busca de um novo modelo que dê conta de um País cada vez mais digital, onde o analógico e um balcão de atendimento ao público coexistem.
Essas declarações, sem contrapor, extrapolam compromissos já apresentados no programa Lula-Alckmin (2027–2030), que contempla dados abertos, transparência, consultas públicas, inteligência artificial e letramento digital. Há, portanto, uma orientação política anunciada e compromissos programáticos estabelecidos. O desafio está em transformar essas diretrizes em uma política integrada de comunicação pública que possa assegurar informação compreensível, direitos, serviços, prestação de contas e participação.
De volta à fala presidencial, o foco nas plataformas aponta para paradoxos já conhecidos. De um lado, as plataformas ampliam informação e participação. De outro, abrigam fraudes, mentiras, abusos e violência contra vulneráveis, além da manipulação política, inclusive detectada nas eleições recentes. Regulá-las e utilizá-las são tarefas complementares e distintas. A sociedade precisa de proteção contra o submundo digital e o Estado precisa estar nas redes com tarefas táticas para a defesa, meio de campo e ataque. Isso exige enfrentar a falta de transparência, a falta de soberania do País, a supremacia dos algoritmos e o reinado dos interesses mercadológicos sobre a circulação de informações de interesse público.
A transformação verbalizada pelo Presidente vai além de formatos ou de trocar pronunciamentos por vídeos curtos: exige reconhecer um mundo “phygital”, termo que surgiu em 2007 no ambiente do marketing nos Estados Unidos. A palavra descreve a integração das experiências físicas e digitais. No Brasil, o pesquisador Silvio Meira ampliou essa perspectiva, incorporando a dimensão social ao conceito de “figital”. Em seu ambicioso texto sobre a estratégia de um Brasil figital, defende que a transformação do Estado depende de mudanças nos processos de decisão, na gestão e nas relações com os cidadãos. Afinal, não existe mais uma administração pública presencial de um lado e uma comunicação digital do outro. Um problema no balcão pode repercutir nas redes em minutos. Governar exige escuta, flexibilidade e agilidade na incorporação das demandas sociais às decisões.
Não basta modernizar a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência). É preciso mudar a cultura comunicacional dos dirigentes. Administradores públicos precisam explicar decisões, defender políticas, enfrentar questionamentos e sustentar debates com informações verificáveis. Não precisam ser “influenciadores”, nem “celebridades”. Precisam saber como suas políticas são avaliadas. Comunicação é competência de gestão desde a formulação da política pública e da identificação do problema, não uma etapa final de divulgação.
Para rechear a fala do Presidente reeleito cabe preencher algumas lacunas. Um dos capítulos principais para o fortalecimento da democracia é a Lei de Acesso à Informação (LAI). O Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas já alertava em 2022 contra sigilos abusivos, uso indevido da proteção de dados para negar informações, desaparecimento de arquivos públicos e tratamento desigual de solicitantes. O direito à informação se impõe mesmo quando desagrada ao governo – talvez resida, aí, a maior dificuldade para ser plenamente exercido.
Outro ponto específico é a transparência dos próprios gastos com publicidade. Em 2025, a Associação Brasileira de Comunicação Pública (ABCPública) levou ao Tribunal de Contas da União propostas de transparência dos investimentos federais, incluindo estatais. Em 2026, sua Recomendação nº 3 defendeu a divulgação de objetivos, fornecedores, critérios e resultados das campanhas. O guia de transparência na publicidade governamental indica como órgãos públicos podem divulgar dados sobre campanhas de forma mais clara. Não basta saber quanto se gastou e para quem foi direcionado o investimento: é preciso conhecer objetivos e resultados. Tudo com clareza e de fácil acesso e consulta para a população.
A defesa da democracia não deve sair de pauta. A nova Secom poderia dar prioridade a campanhas educativas de valorização da democracia, de seus princípios, instituições e mecanismos de participação. Uma iniciativa permanente de formação para a cidadania, capaz de ampliar o conhecimento sobre direitos, liberdades e responsabilidades democráticas. A democracia deve ser apresentada como um valor constitucional que protege o pluralismo, a divergência, a liberdade de expressão e a alternância de poder. O compromisso inegociável é com o Estado Democrático de Direito, consagrado no artigo 1º da Constituição.
Um breve olhar retrospectivo sobre desafios de comunicação enfrentados, oferece alertas concretos para o próximo mandato. Os casos mais expressivos na gestão passada são a crise do Pix, a taxa das blusinhas, a regulamentação das bets, as fraudes no INSS, o aumento do IOF e a comunicação sobre a inflação dos alimentos.
São situações distintas, mas reveladoras de um problema comum: decisões públicas precisam considerar previamente seus efeitos sobre a sociedade, reações e não apenas impactos no âmbito fiscal ou orçamentário.
Esses episódios também incendiaram as redes sociais. Na crise do Pix, conteúdos enganosos podem ter exposto mais de 9 milhões de pessoas à desinformação em grupos de WhatsApp e Telegram em apenas oito dias, segundo levantamento divulgado pela Agência Lupa. No escândalo do INSS, pesquisa Quaest identificou 3,6 milhões de mensagens em cerca de 30 mil grupos monitorados, com repercussão 2,6 vezes superior à polêmica do Pix. Já a taxa das blusinhas viralizou em memes e críticas à política tributária.
Dados de 2023 revelam que os brasileiros passam em média 9 horas e 32 minutos por dia na internet. A velocidade e o volume de dados do ciclo informativo evidenciam a necessidade de instrumentos permanentes de escuta e diálogo com a sociedade. Os micropoderes existem, ganham força nas plataformas digitais e atores políticos são ávidos por conquistar atenção e mobilizar apoios.
Por fim, a sinalização de Lula abre uma oportunidade para refletir sobre a construção de um novo arcabouço institucional para a comunicação pública e o fortalecimento do direito social à informação, pilar essencial do regime democrático. Algo que ultrapasse governos e mandatos. Não se espera uma transformação imediata, mas uma construção gradual, com diretrizes, responsabilidades e instrumentos permanentes.
O Sistema Único de Saúde oferece uma experiência inspiradora de como transformar direitos em política de Estado. Sua construção institucional combina responsabilidades da União, dos estados e dos municípios com mecanismos permanentes de participação social. Conselhos de Saúde e conferências municipais, estaduais e nacionais mobilizam gestores, trabalhadores e usuários na definição de prioridades e na avaliação das políticas públicas. A comunicação pública pode aprender com essa trajetória, construindo, passo a passo, espaços de diálogo e pactuação entre os entes federativos e a sociedade.
O direito à informação é cláusula fundamental, não uma concessão, e está sob ameaça constante da pandemia da desinformação. Mentira é mentira em qualquer parte, do Monte Caburaí ao Arroio Chuí. O enfrentamento exige participação social e articulação federativa para que a comunicação pública, cidadã e republicana, se consolide nas instituições do Estado. A democracia agradecerá por este legado.
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Armando Medeiros de Faria, vice-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública, ex-diretor de comunicação e marketing do Banco do Brasil, professor da pós-graduação da PUC-MG, coordenador do Projeto Legado de Brumadinho e diretor da LCM Conexão Pública.
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