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Política

A conta que questiona a virada de Lula fecha? O Brasil360 refez os números do TSE

Raciocínio que circula nas redes chega a 98% dos votos novos para Lula, mas o resultado depende de duas suposições; com outras premissas possíveis, a divisão fica parecida com a de Bolsonaro em 2022

Redação Brasil360
Arte: Brasil360 com dados do TSE

Números oficiais do TSE: resultado final do 1º turno (4/10) e do 2º turno (25/10), com 100% das seções totalizadas.

Desde domingo circula nas redes uma conta que questiona a virada de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no 2º turno. O raciocínio é este: se todos os eleitores de Lula e de Flávio repetiram o voto, e se Lula ficou com 60% dos votos dos outros candidatos do 1º turno, ele ainda precisaria de quase todos os votos "extras" do 2º turno, os de quem não tinha votado ou tinha votado em branco ou nulo. Seria possível, numa eleição tão polarizada, quase 100% desses eleitores escolherem o mesmo lado?

O Brasil360 refez a conta com os números finais do TSE. A resposta curta: o resultado de 98% (ou até 100%) não vem das urnas, vem das duas premissas da conta. Trocando as premissas por outras igualmente possíveis, o percentual cai para algo comum em 2º turno, e há sinais nos próprios dados de que uma das premissas não aconteceu.

Os números oficiais

1º turno 2º turno Diferença
Lula 53.879.538 64.256.232 +10.376.694
Flávio Bolsonaro 56.104.503 59.826.041 +3.721.538
Demais 10 candidatos 9.316.747 – –
Votos válidos 119.300.788 124.082.273 +4.781.485
Abstenções 33.469.244 30.509.005 −2.960.239
Brancos e nulos 5.975.047 4.153.801 −1.821.246

Os votos válidos cresceram 4.781.485 do 1º para o 2º turno: cerca de 2,96 milhões de pessoas a mais compareceram, e 1,82 milhão de votos deixaram de ser brancos ou nulos. Somados aos 9.316.747 votos dos demais candidatos, havia 14,1 milhões de votos em disputa no 2º turno. Lula ficou com 10,4 milhões deles (73,6%) e Flávio com 3,7 milhões (26,4%).

Refazendo a conta que circula

Se Lula recebeu 60% dos votos dos demais candidatos (5.590.048), Flávio recebeu os outros 40% (3.726.698). Ocorre que esse é praticamente todo o crescimento de Flávio no 2º turno (3.721.538). A conta, portanto, já parte da hipótese de que Flávio não ganhou nenhum voto novo e de que nenhum eleitor trocou de candidato. Com os números finais, Lula precisaria de 4.786.645 votos novos, que é mais do que todos os 4.781.485 votos válidos a mais do 2º turno (100,1%). Ou seja, a conta, levada ao pé da letra, nem fecha.

Quando uma hipótese leva a um resultado impossível, o problema está na hipótese. Veja como o percentual muda com outra divisão dos eleitores dos demais candidatos:

Se Lula recebeu dos demais candidatos... Ele precisaria destes votos novos... Parte de Lula nos votos novos
60% 4.786.645 100,1% (impossível)
70% 3.854.971 80,6%
74% 3.482.301 72,8%
80% 2.923.296 61,1%

Não existe dado oficial que diga como votou, no 2º turno, cada eleitor dos demais candidatos. O voto é secreto, e o TSE divulga totais, não o caminho de cada pessoa. Os 60% são uma suposição, não um fato.

A premissa de que todos repetiram o voto

A segunda hipótese, a de que todos os eleitores de Lula e de Flávio repetiram o voto, também não se sustenta nos dados. Em três estados, Flávio teve menos votos no 2º turno do que no 1º: Amazonas, Maranhão e Tocantins. Se todos os seus eleitores tivessem repetido o voto, isso seria impossível. Parte do eleitorado muda de candidato ou deixa de votar entre os turnos, nos dois sentidos.

Os números de abstenção também são saldos. A queda de 2,96 milhões não quer dizer que exatamente 2,96 milhões de pessoas novas votaram: milhões podem ter faltado ao 2º turno depois de votar no 1º, e outros milhões podem ter feito o caminho contrário. O TSE não divulga esse vaivém.

Já aconteceu antes

Uma divisão desigual dos votos em disputa não é novidade. Em 2022, segundo os resultados divulgados pelo TSE na época, Jair Bolsonaro passou de 51.072.345 votos no 1º turno para 58.206.354 no 2º (+7,1 milhões), e Lula, de 57.259.504 para 60.345.999 (+3,1 milhões). Dos cerca de 10,2 milhões de votos em disputa naquele 2º turno, Bolsonaro ficou com quase 70%, mesmo com Simone Tebet e Ciro Gomes, que somaram a maior parte dos votos dos demais candidatos, sendo de centro e de centro-esquerda. Em 2026, a vantagem na divisão foi para o outro lado, em proporção parecida (73,6%).

O que os dados permitem afirmar

  • A virada de Lula é coerente com os totais oficiais: ele precisava de cerca de três em cada quatro votos em disputa, e foi o que obteve.
  • O crescimento de Lula foi espalhado pelo país: ele ganhou de 4,5 a 9,3 pontos percentuais em todos os 27 estados, sem um ou dois estados fora da curva puxando o resultado.
  • O monitoramento do Brasil360 sobre os arquivos de divulgação do TSE, durante toda a apuração, não registrou anomalias técnicas, e o registro completo está disponível para download.
  • Os boletins de urna de cada seção são públicos. Qualquer pessoa ou partido pode conferir seção por seção se o total divulgado bate com o impresso em cada urna.

O que os dados não permitem afirmar

Com os totais públicos, não é possível saber quanto dos votos de Lula veio de eleitores dos demais candidatos, de quem não votou no 1º turno ou de quem trocou de lado. Qualquer conta que atribua um percentual fixo a um desses grupos está fazendo uma suposição, e o resultado da conta depende dela.

Fontes: TSE (resultados oficiais de 2026 e de 2022). Cálculos do Brasil360.

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