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Cultura

Uma metáfora diante das evidências

Observatório da Imprensa · Por Ramsés Albertoni

(há 2 horas)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Weavehall Collective/Pexels)

A metáfora da bolha de filtros se espalhou com rara rapidez pelas redes digitais. Desde que Pariser (2011) lhe deu nome e enredo, a imagem aparece em editoriais, palestras e relatórios institucionais, quase sempre tratada como fato consolidado. A tese ganhou escala com a palestra do autor no TED, em 2011, e pela repercussão jornalística que a acompanhou. A expressão foi reativada nos embates eleitorais de 2016, quando reportagens e editoriais passaram a convocá-la para explicar resultados surpreendentes. O jornalismo ocupa, assim, uma posição de dupla implicação: atua como vetor de difusão do termo e é, ao mesmo tempo, parte interessada no debate, uma vez que a migração da publicidade e da distribuição de notícias para as plataformas digitais redesenhou suas condições de sobrevivência. A recorrência da expressão em manchetes e editoriais merece, por isso, a mesma atenção que se dedica aos dados, questão que analisei em outro artigo.

A metáfora organiza uma angústia legítima, e isso explica boa parte de seu alcance e também por que circula com tão pouco questionamento. Não obstante, as evidências recomendam mais cautela com essa nomenclatura. Numa survey britânica, Dubois e Blank (2018) constataram que o interesse por política e a variedade de meios consultados diminuem a chance de confinamento informacional. Bruns (2019) vai além e sustenta que bolha de filtros e câmara de eco circulam como alegorias sem definição operacional, e que a repetição acabou ocupando o lugar da demonstração. Os experimentos conduzidos com a Meta no ciclo eleitoral estadunidense de 2020 trouxeram um dado incômodo: ao substituir o feed ordenado por engajamento pelo feed cronológico, os pesquisadores alteraram o que os participantes viam, e a polarização afetiva, medida ao longo de três meses, permaneceu onde estava (Guess et al., 2023).

A analogia com a teoria hipodérmica atrai quem desconfia, com razão, do alarmismo em torno das plataformas digitais, pois ela oferece quase um século de acúmulo conceitual contra a tese da manipulação em massa. Esse recurso tem um custo pouco discutido, uma analogia histórica funciona como hipótese, e o rigor exigido dos defensores da bolha algorítmica precisa valer também para quem a invoca contra eles. Cabe verificar se o termo de comparação existe nos moldes em que costuma ser descrito e se as condições que tornaram a “agulha hipodérmica” plausível ou implausível nos anos 1930 e 1940 se mantêm em ambientes de recomendação personalizada. A analogia mostra fragilidades historiográficas e técnicas; a pesquisa historiográfica sobre a área demonstrou que a “bala mágica” foi construída retrospectivamente, em manuais e balanços do campo, e que não se localiza um autor específico que a tenha defendido nos termos absolutos que lhe são atribuídos. Quem a convoca contra os críticos dos algoritmos recorre, portanto, a uma figura que a historiografia da comunicação desmonta há décadas. Além disso, o estudo pioneiro sobre a campanha presidencial nos Estados Unidos de 1940, que fundamenta boa parte da tese dos efeitos limitados, foi realizado num ambiente de poucos canais e praticamente sem personalização. Nessa medida, transpor seus achados para sistemas que ordenam milhões de itens por predição de engajamento exige mediações que raramente são explicitadas.

A abordagem dos usos e gratificações parte de um público que seleciona conteúdos conforme necessidades próprias; essa seleção, porém, incide sobre um repertório previamente hierarquizado por critérios que o público desconhece. O modelo de codificação e decodificação foi concebido como reflexão sobre estruturas de significação e de poder. As leituras negociadas e oposicionais que ele admite se produzem num campo já inclinado por significados dominantes; dessa forma, utilizar o modelo como certificado de autonomia do receptor é, nessa medida, uma apropriação discutível. A tradição latino-americana dos estudos de recepção indica um caminho mais produtivo ao deslocar a atenção para as mediações, isto é, o cotidiano, a memória e as matrizes culturais em que a recepção acontece. A literatura brasileira dá concretude a esse deslocamento. Recuero, Soares e Zago (2021) analisaram a circulação de desinformação sobre a Covid-19 na plataforma X e identificaram um grupo, favorável ao uso da hidroxicloroquina, onde circulavam a maior parte dos links desinformativos e dos veículos hiperpartidários. O achado coloca em primeiro plano a atuação de atores e veículos determinados, e a imagem do usuário aprisionado por um filtro invisível pouco contribui para descrevê-la.

A crítica à tese da bolha algorítmica não esvazia a discussão sobre o poder das plataformas digitais, dado que os algoritmos de recomendação ordenam volumes imensos de conteúdo segundo critérios de relevância definidos pelas big techs que os operam, e ao ordenar decidem o que se torna publicamente visível. Huszár et al. (2021) verificaram, no X, que em 6 dos 7 países analisados a direita partidária convencional recebia amplificação maior que a esquerda. Brady et al. (2017) associaram a presença de termos moral-emocionais em mensagens políticas a uma difusão cerca de 20% maior por termo adicional, regularidade que plataformas digitais orientadas por engajamento têm incentivo econômico para explorar.

Os estudos sobre capitalismo de vigilância e governamentalidade algorítmica propõem explicações para essa assimetria. Zuboff (2019) descreve o capitalismo de vigilância como uma lógica de acumulação que toma a experiência humana como matéria-prima gratuita, extrai dela um excedente comportamental e o converte em produtos de predição, negociados em mercados de futuros comportamentais. Seus clientes são anunciantes e outros interessados em antecipar condutas. A esse arranjo a autora atribui um poder instrumental, voltado a sintonizar, conduzir e condicionar comportamentos em escala. Nesse quadro, a atenção analítica recai sobre a gestão de condições, em que visibilidade, probabilidade de engajamento e custo de cada atenção se tornam variáveis administradas, e as crenças, quando mudam, aparecem como subproduto. A amplificação diferencial medida por Huszár et al. e a vantagem de difusão da linguagem moral-emocional estimada por Brady et al. se encaixam nesse desenho, pois descrevem variações de visibilidade que dispensam qualquer ato de persuasão. A teoria de Zuboff carrega, contudo, riscos próprios: sua eficácia preditiva é tomada como estabelecida, e Hwang (2020) mostra que o mercado de publicidade digital vive de opacidade, fraude e dificuldades de atribuição; a capacidade de modular comportamentos que as empresas anunciam pode ser, em parte, promessa comercial. Aceita como descrição fiel, essa promessa reintroduziria o determinismo que o argumento procura evitar. Prefiro ler o conceito de capitalismo de vigilância como descrição de incentivos e de ambições de controle, cuja realização efetiva depende de investigação empírica.

Nesses quadros, o poder dispensa a persuasão; basta modular o que aparece, o que rende e o que compensa produzir. Esse último ponto fica nítido na produção informativa e cultural. Jornalistas, criadores de conteúdo e partidos políticos aprendem a produzir para métricas que não definiram, e a forma, a circulação e a monetização de seus conteúdos dependem de decisões de infraestrutura tomadas por terceiros e reajustáveis a qualquer momento. A adaptação, quando se generaliza, redesenha o conjunto da oferta informativa sem que nenhum usuário precise ter sido convencido de coisa alguma.

Uma tradição crítica dos estudos de mídia questionou as explicações que tratam a tecnologia como força autônoma. Nessa perspectiva, as invenções são buscadas e desenvolvidas com propósitos e práticas previamente imaginados, e instituições com interesses definidos as financiam, regulam e orientam. A trajetória do rádio e da televisão aparece, nessa reconstituição, como sucessão de decisões comerciais e estatais, e cada uma delas poderia ter sido outra. A discussão foi ampliada por estudos que mostraram que artefatos podem incorporar formas de ordenamento do poder, seja quando um arranjo técnico favorece certos interesses, seja quando um sistema exige, para funcionar, determinada organização social. Essas contribuições sustentam um modo de pensar as plataformas que dispensa a fabricação de onipotência, pois colocam no centro quem projeta, financia, lucra e regula. As perguntas que daí decorrem admitem verificação: quem define os critérios de ranqueamento, quais métricas orientam a remuneração de criadores, que obrigações de transparência e de responsabilização cabem às empresas. A decisão do STF de 2025 sobre o art. 19 do Marco Civil da Internet mostra que esses arranjos podem ser disputados institucionalmente. A responsabilização das plataformas se decide em tribunais e legislaturas, onde interesses concretos se confrontam e podem ser nomeados.

A receita de “furar a bolha” tampouco encontra respaldo firme, e o experimento mais citado em sua defesa complica a prescrição que pretendia confirmar. Bail et al. (2018) recrutaram cerca de 1.650 usuários do X, republicanos e democratas, e lhes pagaram para seguir, durante um mês, um perfil automatizado que retuitava diariamente mensagens de autoridades eleitas, organizações e formadores de opinião do campo adversário. Entre os republicanos expostos a conteúdo liberal, registrou-se aumento significativo de conservadorismo; entre os democratas, o deslocamento na direção oposta foi pequeno e não alcançou significância estatística. O achado precisa ser lido com suas condições de produção, já que foi obtido numa única plataforma, nos Estados Unidos, com mensagens selecionadas pelos pesquisadores e adesão apenas parcial dos participantes. Levy (2021), em experimento de campo no Facebook, estimulou usuários a seguir veículos jornalísticos de orientação contrária e observou redução da polarização afetiva, sem mudanças expressivas nas opiniões. O autor indica ainda que o algoritmo do feed restringe o contato com esse tipo de conteúdo. Os dois desenhos tratam de exposição, mas os dispositivos testados diferem em quem fala, em que registro e diante de que plateia, e os resultados divergem na mesma medida. Uma recomendação genérica de ampliar o contato com o contraditório carece, assim, de fundamento sólido. O que as evidências sustentam é uma dependência das condições de exposição, que o debate público raramente chega a especificar.

É mister ressaltar que os estudos citados têm limites, pois se concentram nos Estados Unidos e na Europa, abrangem recortes de poucos meses e dependem, em boa parte, de dados cedidos pelas próprias empresas, com margem restrita de auditoria independente. Os experimentos associados ao ciclo eleitoral estadunidense de 2020 resultaram de uma colaboração com a Meta, e foi a empresa que delimitou quais intervenções eram viáveis e quais dados poderiam ser acessados. A análise de Huszár et al. partiu de registros internos do X, e a maioria de seus autores integrava a própria companhia. Nesses casos, o pesquisador externo trabalha com o que lhe é franqueado e dificilmente reconstitui, por conta própria, o que ficou de fora. A duração também pesa, pois três meses de observação, no melhor dos casos, captam pouco de efeitos que se acumulam ao longo de anos, como a formação de hábitos de consumo informativo ou a reorganização das rotinas de produção jornalística.

Sobre o Brasil, a base empírica é menor, e os efeitos cumulativos de longo prazo seguem sem medição adequada. O trabalho de Recuero, Soares e Zago oferece um retrato valioso da circulação de desinformação sobre a Covid-19, mas restrito ao X e a um período delimitado da pandemia. O ambiente informativo brasileiro combina aplicativos de mensagens, plataformas de vídeo e redes de grande penetração, e boa parte da circulação em ambientes privados escapa à coleta sistemática. Os achados disponíveis, portanto, descrevem fatias do ecossistema, e a soma dessas fatias ainda não compõe um quadro do conjunto. Essa lacuna convive com achados que registram efeitos modestos sobre atitudes, amplificação mensurável de certos conteúdos e incentivos econômicos favoráveis à indignação. Efeitos modestos num experimento de três meses não equivalem a efeito nulo em outras populações e horizontes, e tampouco autorizam concluir que a arquitetura das plataformas seja irrelevante.

Por isso, o debate público no Brasil avançaria se cada evidência fosse citada junto com as condições em que foi produzida, tais como a plataforma estudada, o país, o período, a origem dos dados, o desenho adotado e a medida de desfecho. A imprensa ocupa posição estratégica nessa mudança, porque é por meio de suas reportagens, manchetes e editoriais que a maior parte dos achados científicos chega ao público, e a compressão própria desses formatos tende a suprimir justamente as condições de produção. Expressões como bolha algorítmica e câmara de eco se prestam bem à função de título, já que um diagnóstico inteiro é condensado em poucas palavras, e essa facilidade ajuda a explicar a longevidade das duas imagens. Redações que registrassem, já nas primeiras linhas, o que o estudo mediu, onde, durante quanto tempo e com dados de quem, tornariam o formato jornalístico compatível com o rigor do achado. Com essas informações, o leitor poderia estimar o alcance do achado e comparar os resultados que, à primeira vista, parecem contraditórios.

Referências

BAIL, C. A. et al. Exposure to opposing views on social media can increase political polarization. PNAS, 115(37), 2018, p. 9216-9221. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1804840115.

BRADY, W. J. et al. Emotion shapes the diffusion of moralized content in social networks. PNAS, 114(28), 2017, p. 7313-7318, 2017. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1618923114.

BRUNS, A. Are filter bubbles real? Cambridge: Polity, 2019.

DUBOIS, E.; BLANK, G. The echo chamber is overstated. Information, Communication & Society, 21(5), p. 729-745, 2018. DOI: https://doi.org/10.1080/1369118x.2018.1428656.

GUESS, A. M. et al. How do social media feed algorithms affect attitudes and behavior in an election campaign?. Science, 381, p. 398-404, 2023. DOI: https://10.1126/science.abp9364.

HUSZÁR, F. et al. Algorithmic amplification of politics on Twitter. PNAS, 119(1), p. 1-6, 2021. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.2025334119.

HWANG, T. Subprime attention crisis. New York: FSG Originals, 2020.

LEVY, R. Social media, news consumption, and polarization. American Economic Review, 111(3), p. 831-870, 2021. DOI: https://doi.org/10.1257/aer.20191777.

PARISER, E. The filter bubble. New York: Penguin Press, 2011.

RECUERO, R.; SOARES, F.; ZAGO, G. Polarização, hiperpartidarismo e câmaras de eco. Contracampo, 40(1), 2021. DOI: https://orcid.org/0000-0002-7417-9782.

ZUBOFF, S. The age of surveillance capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.

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Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).

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