Pular para o conteúdo

Domingo, 8 de novembro de 2026Anuncie

Brasília 20°C Garoa · ↑28° ↓19°
Brasil360O Brasil por todos os ângulos
Brasil

Tsunami azul nas midterms: será o fim da era Trump?

Agência Pública · Por Andrea DiP

(há 47 min)

Publicado originalmente em Agência Pública ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0

Imagem: Agência Pública

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, conhecidas como midterms, terminaram na última terça-feira, 3 de novembro. Nelas, os eleitores escolhem os representantes da Câmara, parte dos integrantes do Senado e governadores estaduais. O Partido Democrata conquistou a maioria dos votos. Para a cientista política Tatiana Vargas-Maia, convidada do Pauta Pública desta semana, essa vitória representa um reequilíbrio das forças políticas nos Estados Unidos e pode indicar tendências importantes para a próxima disputa presidencial, em 2028.

Na conversa com Andrea Dip, a cientista política e professora de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul analisa o que muda, de fato, nos dois anos que restam do mandato de Trump, e o que esse recado das urnas pode significar para a extrema direita para o Brasil, que acaba de sair de uma eleição em que a relação com os Estados Unidos também esteve em jogo.

Para Tatiana, o fato de Trump declarar que vai aceitar os resultados é uma sinalização de moderação, mas ela ressalta: “Eu não sei se ele consegue se moderar durante muito tempo. Eu acho que isso permanece para a gente observar. Tem um outro elemento que nós precisamos começar a considerar, que é como é que o Partido Republicano se articula pós Donald Trump.”

Tatiana Vargas-Maia é cientista política e professora de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 241 Tsunami azul nas midterms: será o fim da era Trump? – com Tatiana Vargas-Maia

6 de novembro de 2026 · Cientista política analisa as causas e as possíveis consequências da vitória democrata nas eleições legislativas dos EUA

0:00 -:–

15 15

Veja mais episódios desta série

Para começar eu queria ouvir a sua avaliação geral sobre a eleição de meio-mandato nos Estados Unidos, na qual os democratas retomaram o controle das duas casas no Congresso. Como você analisa esses resultados e os impactos para Donald Trump?

Acredito que estamos de frente, possivelmente, de um cenário mais interessante do que muitas pesquisas estavam antecipando às vésperas da eleição. Muitos analistas estavam também, talvez, um pouco céticos que poderia acontecer a retomada democrata, tanto do Senado quanto da Casa dos Representantes, além de vitórias significativas em diversos governos dos estados. É muito interessante interpretarmos esses dados em contraste com as eleições de 2024. Naquele momento, os resultados demonstraram uma guinada significativa do eleitorado americano para a direita, ou seja, cada vez mais pessoas votando nos republicanos, o que garantiu a partir de 2025 a possibilidade do Trump governar com relativo baixo atrito.

Para entendermos melhor: a composição da Casa dos Representantes e do Senado nos Estados Unidos serve como um contrapeso para o Executivo Federal, para a presidência. Quando o presidente e as casas estão alinhadas, dominadas pelo mesmo partido, isso reduz significativamente o atrito que o presidente pode encontrar para avançar questões políticas e pautas que ele considera interessantes. Nós vimos o efeito disso nos dois primeiros anos do mandato de Donald Trump. Comparando o governo de 2017 com o que começa em 2025, em 2025 percebia-se um governo muito mais desinibido e com decisões inclusive muito polêmicas, como a questão da imigração e da dimensão comercial internacional dos Estados Unidos.

Agora, essa vitória democrata que muito da mídia americana e dos analistas tem chamado de uma onda, ou agora com os resultados confirmados, de um ‘tsunami azul’, na verdade reequilibra, digamos assim, o jogo de forças dentro dos Estados Unidos. Também indica algumas tendências de mudança muito interessantes para as próximas eleições presidenciais, em 2028. É um cenário muito fascinante para pensarmos não apenas em termos analíticos – que a mim interessa pontualmente –, mas, sobretudo, a dimensão de uma certa vitalidade democrática, inclusive no contexto dos Estados Unidos.

Sobre Trump, assim que ele retornou à Casa Branca, em seu segundo mandato, assinou várias ordens executivas, as executive orders, que são decretos presidenciais que não exigem a aprovação prévia do Congresso, inclusive algumas bem polêmicas. Mesmo com a derrota nesse midterm, o resultado pode frear o Trump ou ele é capaz de seguir impondo suas pautas, mesmo sem apoio?

Uma das coisas que nós aprendemos nos últimos dez anos acompanhando a figura política do Donald Trump é que ele é um tanto imprevisível e isso nos coloca numa situação um tanto quanto delicada. Em um cenário mais normal – e eu não acho que o Trump nos apresenta um cenário normal necessariamente –, nós veríamos um presidente republicano bastante preocupado com esses resultados e o termômetro que eles indicam para as eleições de 2028. Ou seja, em um cenário normal, não apenas um presidente republicano, mas todo partido republicano já começaria a pensar em estratégias de mobilização para pelo menos se não virar esse quadro, retomar algum controle em termos legislativos e, claro, do Executivo Federal. Mas o Donald Trump é uma carta fora do baralho nesse sentido, porque apesar dele não poder concorrer a um terceiro mandato, como está bem colocado na 22ª emenda da Constituição norte-americana, ele já tem falado e, inclusive, na loja do MAGA já temos materiais de campanha “Trump 2028”.

Claro, podemos interpretar isso de muitas maneiras diferentes, inclusive apenas como um recurso de mobilização de base. Mas é verdade que o Trump fez dessas eleições de meio de termo de mandato muito a respeito dele e da performance dele como presidente, o que não é necessariamente comum, porque essas são eleições mais regionalizadas. Elas são para a Câmara, que é voto distrital, um voto muito local e que traduz as ansiedades mais imediatas do eleitorado estadunidense. Também é uma eleição para o Senado, que ainda assim representa uma dimensão estadual, ainda que de atuação federal, além dos governos estaduais. O Trump já vinha com índices de aprovação muito baixos e me parece que os resultados dessa eleição selaram isso, agora o que permanece em aberto é como ele responderá a esse resultado.

Em entrevista, ele estava declarando que iria aceitar os resultados da eleição como legítimo e trabalharia com a Câmara e com o Senado, com os democratas, ou seja, entendendo e afirmando que ele tem certeza que ambos conseguiriam trabalhar bem nesses próximos dois anos. Isso, a princípio, é uma sinalização para moderação, mas não sabemos se ele consegue se moderar durante muito tempo. Acho que isso permanece para observação. Entretanto, temos um outro elemento que precisamos começar a considerar, que é como o Partido Republicano deve se articular pós-Donald Trump?

Nós temos pensado uma série de discussões e disputas que já começaram e vão ficar mais públicas agora, a respeito da sucessão do Donald Trump. Claro, nós temos dois grandes nomes: Marco Rubio, secretário de Estado do Donald Trump, grande responsável por administrar algumas das dinâmicas de imigração e política externa do Trump, sobretudo com relação à América Latina, e temos entre outras figuras importantes, principalmente, J.D. Vance, que é o vice-presidente dos Estados Unidos e que tradicionalmente é a figura mais cotada para a sucessão.

Pensar a sucessão do Trump vai além de pensar só quem os republicanos vão escolher, e, passa por entender também como fica a disputa pelo legado do MAGA, de toda essa base eleitoral que foi radicalizada pela figura do Donald Trump e que permanece como um ativo político super importante no contexto dos Estados Unidos. Fica a questão se o MAGA precisa ser continuamente radicalizado para se manter ativo. E, nesse cenário, talvez vejamos uma radicalização e não uma moderação, e também como as disputas internas dentro do Partido Republicano vão moldar essa relação com os democratas e com um legislativo dominado pelos democratas nos próximos dois anos.

Com relação ao Brasil, a proximidade com as midterms fizeram com que o Trump, também, fosse mais cauteloso com relação à carta golpista do Flávio Bolsonaro? Qual a sua avaliação sobre o envolvimento dos Estados Unidos nas últimas eleições no Brasil e seus desdobramentos?

Nós não temos como contornar o fato de que houve não apenas uma grande influência, como também algumas tentativas de interferência efetiva dos Estados Unidos nas eleições brasileiras. Nós observamos que, desde 2025, o Trump presta cada vez mais atenção na América Latina, um pouco como parte da estratégia de política externa dele, e por isso temos falado de uma “Doutrina Donroe”. Aqui a ideia é recuperar um pouco a Doutrina Monroe de pensar a “América para os americanos” – americanos aqui entendidos como estadunidenses –, ou seja, isolar o espaço das Américas de influências extra-americanas, sejam elas europeias, como era o caso da Doutrina Monroe originalmente, sejam elas asiáticas, como é o caso da doutrina Donald, em uma tentativa de frear o avanço da China sobre a América Latina. 

E isso resultou, para além de questões internacionais, numa influência muito profunda em eleições domésticas, e por isso que vemos essa onda de governos de direita radical ou de extrema direita sendo eleitos recentemente na América Latina: Colômbia, Peru, Chile, Argentina. Então, nós estávamos pensando e observando se o mesmo aconteceria com o Brasil. E eu relaciono as duas coisas, porque é óbvio e é inegável que governos de extrema direita na América Latina tornam a presença dos Estados Unidos de Donald Trump mais fácil. São governos que se alinham muito rapidamente, digamos assim, aos interesses estadunidenses e, assim, reduzem o atrito nas relações interamericanas e facilitam com que Trump avance as pautas dele de preservar o espaço das Américas como um espaço de domínio dos Estados Unidos.

Por isso, a vitória brasileira, a vitória do PT e do Lula nas eleições brasileiras foi tão significativa e importante. Mais do que representar um freio para essa onda, não podemos esquecer a dimensão, a importância e o peso que o Brasil ocupa nas relações do espaço das Américas. Somos um país muito grande, com uma população significativa, com recursos muito importantes e inserido de maneira importante nas relações internacionais. Então, precisamos ter essa dimensão que nós vimos um interesse pronunciado dos Estados Unidos na nossa eleição.

Agora, com relação pontualmente à família Bolsonaro e à carta golpista e a todas essas questões, eu acho que podemos fazer uma diferenciação. Digo isso porque o Trump nunca me pareceu pontualmente interessado nos Bolsonaros. Claro, ele recebeu, tem foto na Casa Branca, mas é um pouco do um misancene que ele faz com todo mundo.

Quem estava bastante ligado com os Bolsonaros é o Marco Rubio, que é um cara bastante radical que, digamos assim, tem uma posição muito peculiar dentro dos Estados Unidos, dentro do governo americano. Ele é filho de cubanos que fugiram de Cuba pós-revolução, então tem todo esse contexto dele ser um cara que esposa, se não um anticomunismo, um anti-esquerdismo bastante forte, e que daí, sim, me parece ter visto nos Bolsonaros um elemento-chave bastante interessante. Pontualmente percebo que toda essa articulação do Bolsonaro com o governo dos Estados Unidos está mais centrada na figura do Rubio do que do Trump. Então, nós precisamos pensar nessas dimensões. Se o Trump talvez foi um pouco mais cauteloso com relação às eleições brasileiras por causa disso? Acho que sim, mas eu me pergunto o quanto o Trump se ocupa, efetivamente, de pensar sobre o Brasil.

Acredito também que tem uma questão de uma performance pública importante, como todo aquele atraso em reconhecer o resultado das eleições brasileiras, mas elas foram reconhecidas. A embaixada norte-americana enviou uma carta para o Itamaraty dizendo que as eleições estão reconhecidas, mas a figura do Trump não foi a público congratular o Lula e tudo mais; não faz parte da performance dele como político. Mesmo assim, reforço que vale a pena pensar nessas duas dimensões e separar o que é o Trump e o que é Marco Rubio, porque isso nos permite ter um pouco mais de nuance para entender e, talvez, até investigar como essa questão se desenrola a partir de agora.

No sentido de que esse cenário das eleições apresentou uma série de desafios, não apenas para o Trump, mas para os republicanos de maneira geral, e principalmente para as lideranças republicanas que ainda têm ambição de seguir o caminho da política nos Estados Unidos. Talvez isso enfraqueça relativamente à posição dos Bolsonaros, porque americanos como Trump e como Rubio vão ter problemas maiores para se ocupar e mais imediatos dentro de seu contexto doméstico do que apoiar um candidato que perdeu as eleições no Brasil e está efetivamente elaborando uma posição um tanto esquisita, que complica a coisa toda.

Por outro lado, alguns analistas dos Estados Unidos estavam dizendo que o Trump pode dobrar a aposta agora nesses dois últimos anos: tentar radicalizar a pauta e se tornar mais agressivo com uma série de questões justamente por ter perdido as eleições de midterm. Eu acredito que é uma possibilidade, mas não sei se ele vai ter tanto espaço para fazer isso. Efetivamente, o domínio democrático nas duas casas significa que ele perde uma série de questões importantes e está sujeito a uma transparência maior. Além de perder a capacidade de nomear facilmente os cargos de âmbito ministerial, que nos Estados Unidos chamamos de secretarias, como o secretário de Estado ou de defesa.

Trump perde também um controle significativo sobre o orçamento nacional, porque isso está nas mãos da Câmara de Representantes, e ele fica sujeito a mais investigações por parte do legislativo. Acho que estamos olhando para um cenário em que o Trump talvez comece a considerar o que ele vai fazer a partir de 2028 e fico me perguntando quanto de energia ele tem, efetivamente, para continuar engajado numa política que está pouco receptiva às propostas que ele apresentou.

Ler no site da fonte: Agência Pública ↗

360° Outros ângulos desta notícia