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Sem Tarcísio, Nikolas ou Michelle nas urnas, o eleitor sairá de casa por Flávio?

Marco Zero Conteúdo

(há 2 horas)

Publicado originalmente em Marco Zero Conteúdo ↗ · Uso: CC BY-ND 3.0 BR

por Rodrigo de Abreu Pinto*

A abstenção é uma pedra no sapato do presidente Lula. Em 2022, ele liderava as pesquisas com folga, mas bastava abrir as urnas para Jair Bolsonaro encostar. Os institutos de pesquisa logo se tornaram alvo de críticas, ao menos até que o cientista político Antonio Lavareda explicasse o fenômeno em comentado artigo na Folha de São Paulo.

Segundo o cientista político Antônio Lavareda, os institutos erraram no primeiro turno porque uma boa parte do eleitorado de Lula não apareceu para votar. O que explica por que a vantagem sempre diminuía na hora da apuração.

Para entender o que aconteceu, Lavareda fez uma conta em dois passos. Primeiro, calculou as intenções de voto das pesquisas sobre o eleitorado total, e não apenas sobre os votos válidos, como costuma ser divulgado. Depois, comparou esses números com os votos que cada candidato recebeu.

Fazendo assim, confirmou que Bolsonaro teve nas urnas praticamente o que as pesquisas previam, enquanto Lula teve menos. A conclusão era uma só: parte do eleitorado lulista não foi votar.

A explicação disso estaria no próprio perfil desse eleitor. O grosso do eleitorado de Lula está entre os mais pobres, justamente quem tem mais dificuldade para comparecer às urnas, por motivos que incluem a distância até a seção eleitoral, o dinheiro da passagem e a falta de alguém com quem deixar os filhos. E o mesmo vale para os idosos, faixa em que Lula também leva vantagem.

Essa pedra no sapato de Lula não desapareceu em 2026. Segundo a mais recente pesquisa da Quaest, entre os que não compareceram no primeiro turno, 43% dizem apoiar o petista, e 38%, Flávio — uma diferença que, aplicada sobre os 33,5 milhões de eleitores ausentes, representaria cerca de 1,7 milhão de votos a mais para Lula.

A campanha petista entendeu o recado e passou a concentrar esforços em convencer quem ficou em casa no primeiro turno. O próprio Lula falou disso no primeiro discurso após o resultado: “Tivemos 33 milhões de pessoas que não votaram e vamos fazer um apelo para que as pessoas saibam que o voto é necessário para decidir o futuro do país”.

Neste segundo turno, no entanto, quem mais tem a sofrer com a abstenção é Flávio Bolsonaro. Explico por quê.

Bem diferente do pai, que arrastava votos para tudo que é candidatura de direita, Flávio é quem precisa ser puxado. Basta olhar para os demais nomes que chegaram a ser cogitados para a disputa presidencial, como Michelle Bolsonaro (PL-DF), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG). Todos mais carismáticos do que Flávio e que, por conta disso, serviram de cabos eleitorais dele nos estados, e não o contrário.

O mesmo se vê entre vários dos governadores que disputaram o primeiro turno, como Cleitinho (PL-MG), Eduardo Riedel (PP-MS), Jorginho Mello (PL-SC) e Luciano Zucco (PL-RS). Todos tiveram, em seus estados, votação maior que a de Flávio.

Nas disputas para as casas legislativas, o fenômeno também salta aos olhos. Peguem-se nomes como Guilherme Derrite (PP-SP), Lucas Pavanato (PL-SP), Eduarda Campopiano (PL-SP), André Fernandes (PL-CE) e Bruno Engler (PL-MG). Todos empolgaram a militância de um jeito que Flávio não conseguiu em nenhum momento da campanha.

Todos os nomes citados têm uma coisa em comum: não estarão nas urnas no próximo domingo (25). Até mesmo os governadores, que liquidaram a fatura já no primeiro turno.

Sem esses nomes na disputa, muitos eleitores que votaram em Flávio a reboque deles terão menos motivos para voltar às urnas. E isso se soma a um padrão já observado em outras eleições: em estados sem disputa estadual no segundo turno, a abstenção tende a ser maior que nos demais.

Alguém pode dizer que *pau que bate em Chico bate em Francisco*, pois o mesmo raciocínio se aplicaria a Lula nos estados em que governadores aliados se elegeram no primeiro turno, caso da Bahia, do Ceará e do Piauí.

A diferença é que, em todos eles, Lula foi mais votado que os próprios governadores. Ou seja, foi ele quem puxou os governadores, e não o oposto. Faz sentido esperar que esses mesmos eleitores voltem às urnas no domingo.

A campanha de Flávio percebeu o risco e lançou o “Flaviômetro”, um site que monitora quais políticos de direita estão pedindo voto para ele nas redes sociais. Também tem levado nomes como Nikolas Ferreira a caminhadas pelo país, inclusive fora de seus estados, os chamados “bloquinhos”. O objetivo é manter os já eleitos mobilizados e evitar o efeito descrito aqui.

A abstenção continua sendo um problema de Lula. Mas Flávio também depende de quantos eleitores de Tarcísio, Cleitinho, Nikolas e Pavanato vão sair de casa no domingo.

*Rodrigo de Abreu Pinto é advogado, filósofo e presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais

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