Sal em contato direto elimina o caracol-gigante-africano; extratos vegetais têm efeito limitado
Agência Bori
(há 1 hora)
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Sais, pimenta-do-reino e niclosamida, moluscicida usado contra caramujos aquáticos e também como vermífugo, foram testados contra o caracol-gigante-africano, espécie invasora que causa perdas na agricultura e pode transmitir doenças. O estudo foi realizado em parceria entre o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) , e os resultados foram publicados na sexta, 23 de outubro, no Brazilian Journal of Biology. Só o sal grosso matou todos os animais, e apenas em contato direto com o corpo (massa mole) do caracol; os demais produtos tiveram efeito baixo ou nulo.
Nativo da África Oriental, o caracol-gigante-africano se espalhou pelo mundo graças à alta capacidade de reprodução e de adaptação a diferentes ambientes. Além de causar prejuízos à agricultura e à biodiversidade, ele é hospedeiro de vermes que provocam doenças em animais e em humanos, como a meningite eosinofílica. Hoje, o controle depende sobretudo da coleta manual e de moluscicidas sintéticos aplicados em iscas, que são registradas para uso em jardins e residências, mas não são recomendadas para áreas agrícolas.
Para avaliar a eficácia de extratos vegetais e sais no controle do caracol, a equipe testou diferentes concentrações e formas de aplicação de sal grosso, pimenta-do-reino, extrato de sementes de quiabo, sais fertilizantes e niclosamida, borrifados sobre os animais ou oferecidos como iscas. Os caracóis foram criados entre 2021 e 2022 no Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental, IOC, , no Rio de Janeiro. Parte das substâncias foi selecionada com base em estudos anteriores que indicaram efeitos promissores contra outras espécies de caramujo. Os animais foram observados por 48 horas após cada aplicação, e os pesquisadores registraram a mortalidade em cada grupo.
“O principal resultado foi observar que a ação moluscicida de sais é mais eficiente quando o sal interage diretamente com a parte mole dos moluscos”, afirma Robson Xavier Faria, pesquisador do IOC/Fiocruz e coordenador do estudo. A aplicação direta do sal grosso ou sua mistura ao substrato de areia provocou 100% de mortalidade, o que confirma o observado em estudos anteriores com sal de cozinha. Já as soluções aquosas de sal e o sal grosso disposto em linha no centro da caixa, sem contato com os animais, não mataram nenhum caracol. “Isso acontece porque, ao interagir diretamente com a parte mole dos moluscos, os sais levam a uma rápida desidratação, o que ocasiona a morte”, ressalta o pesquisador. Ele explica que essa velocidade é essencial para o funcionamento de futuros defensivos baseados em produtos naturais. “Caso contrário, este caracol consegue tolerar o bioativo e se manter vivo e ativo”, diz.
Os demais produtos tiveram efeito limitado. O sulfato de cálcio, sal usado como fertilizante, e a niclosamida mataram um em cada três caracóis. A niclosamida, que funciona bem contra caramujos aquáticos, teve desempenho bem mais fraco no caracol-gigante-africano, que é terrestre. A pimenta-do-reino eliminou 11% dos animais, e o extrato de sementes de quiabo não teve efeito. Nos testes com iscas, os caracóis praticamente não comeram as que continham sais ou niclosamida e chegaram a enterrá-las.
Os testes foram feitos em laboratório, com poucos animais, e ainda não há resultados em campo. O sal, já usado de forma caseira no controle do caracol, também tem limites: não é seletivo e pode salinizar o solo, o que restringe seu uso em áreas agrícolas.
Os próximos passos previstos são análises dos tecidos dos caracóis expostos à pimenta-do-reino e ao sulfato de cálcio e experimentos em campo. Uma das possibilidades apontadas por Faria é desenvolver formulações que permitam reduzir a quantidade de compostos ativos sem comprometer seus efeitos biológicos. “Estamos avaliando ativos de diferentes origens, como sintéticos, minerais e oriundos de plantas e microrganismos, e já temos resultados promissores”, conclui o pesquisador.
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