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Rosa Amorim renova quadros do PT e inaugura presença feminina do MST no Congresso

Marco Zero Conteúdo · Por Raíssa Ebrahim

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Marco Zero Conteúdo ↗ · Uso: CC BY-ND 3.0 BR

Imagem: Marco Zero Conteúdo

A eleição de Rosa Amorim para a Câmara dos Deputados marca uma renovação dos quadros do Partido dos Trabalhadores (PT) em Brasília e inaugura a presença feminina do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no Congresso Nacional. Nascida em Caruaru, criada no Assentamento Normandia, negra, atriz e única parlamentar assumidamente lésbica da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), ela ocupará um assento no Legislativo nacional num cenário de forte presença do agronegócio.

Maior grupo do Congresso, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reelegeu metade dos seus integrantes. De 345 políticos que compõem o grupo, 173 terão novos mandatos na Câmara ou no Senado. Há cinco deputados pernambucanos da Frente reeleitos: Augusto Coutinho (Republicanos), Felipe Carreras (PSB), Fernando Coelho Filho (União), Fernando Monteiro (PSD) e Silvio Costa Filho (Republicanos).

Em entrevista à Marco Zero, Rosa diz ver sua presença no Congresso como uma contraposição à FPA. “A chegada de uma mulher sem terra à Câmara torna visível uma disputa que envolve terra, produção agrícola e modelos de desenvolvimento”, coloca.

A bancada do MST será pequena, na legislatura 2027-2023, diante da enorme representação do agro. Além de Rosa, o movimento terá mais três representantes no parlamento federal, todos reeleitos pelo PT: Valmir Assunção (BA), Mateus Marcon (RS) e João Daniel (SE). Entre as pautas defendidas pelo grupo, estão a reforma agrária, a democratização do acesso à terra, o fortalecimento da agricultura familiar, a produção de alimentos saudáveis, o combate à fome, a educação pública e a proteção ambiental.

Sobre como pretende pautar a reforma agrária e o que é possível fazer diante de um Congresso dominado pela extrema direita, Rosa reconhece que o “cenário é dramático” e que “não será fácil”. Mas destaca que sua eleição manda um recado muito importante para nomes como Coronel Meira (PL), que não conseguiu se reeleger, e Clarissa Tércio (Progressistas), que se reelegeu com 33.493 votos a menos que ela, menos da metade do que tinha obtido em 2022.

“Coronel Meira, numa reunião de comissão, citou que Rosa Amorim não iria se tornar deputada federal, que não teria uma sem terra no Congresso Nacional. Clarissa Tércio, uma das pessoas mais violentas do estado de Pernambuco para as mulheres e para a comunidade LGBT, também assumiu esse discurso. E, no final, nós fizemos mais votos que Clarissa e derrotamos Coronel Meira”, comemora.

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Disputa geracional e MST

Aos 29 anos, com uma campanha que combinou redes e rua, Rosa recebeu 144.101 votos. Foi a décima candidata mais votada para federal em Pernambuco e a mais votada da federação PT, PCdoB e PV no estado, com quase 11 mil votos a mais que o segundo colocado do seu partido, Carlos Veras. O resultado mostra a dimensão do salto eleitoral da parlamentar, que teve uma votação cerca de três vezes maior do que a de 2022, quando estreou na Alepe (42.632 votos).

Rosa recebeu votos nos 185 municípios pernambucanos, com uma votação expressiva no Recife (39.849 votos), seguido por Caruaru (13.054), Olinda (10.201), Jaboatão dos Guararapes (9.293) e Petrolina (8.419). Em Caruaru, ela foi a segunda mais votada, depois de Delegado Lessa (Republicanos), que teve 21.844 votos na cidade, mas não foi eleito.

Foto noturna de uma caminhada ou manifestação em uma rua urbana, com um grupo de pessoas reunidas e posando para a câmera. Em primeiro plano, participantes vestem roupas coloridas, camisetas, bonés e adereços, enquanto várias pessoas levantam as mãos em gesto de saudação. Destacam-se grandes estandartes vermelhos com detalhes dourados e a inscrição “1303”, além de outros cartazes vermelhos carregados ao fundo. A cena é iluminada por luzes da rua e de estabelecimentos próximos, criando um ambiente movimentado e festivo, com muitas pessoas ocupando a via pública.

Aos 29 anos, com uma campanha que combinou redes e rua, Rosa Amorim teve 144.101 votos.

Crédito: Anderson Stevens/Divulgação

A parlamentar atribui a vitória a três fatores principais: a demanda da juventude de esquerda por renovação política, sua trajetória coletiva no MST e a mobilização de eleitores LGBTQIAPN+. “Para nós, foi uma vitória histórica, porque ela traz junto consigo muitas simbologias”, define.

Parte expressiva do apoio à deputada está entre os eleitores jovens e ela relaciona isso à necessidade de contrapor novas lideranças feministas a homens jovens da extrema direita. A eleição escancarou, na avaliação dela, uma disputa geracional sobre os temas que devem ocupar o Congresso.

É esse primeiro voto que Rosa diz querer ajudar Lula a conquistar no segundo turno. Ela esteve em assembleias nas universidades, onde foi bastante aplaudida. Mas sua ausência foi sentida na passeata puxada pelos estudantes no último domingo (11) no Recife.

Segundo sua assessoria, ela estava numa agenda pessoal no interior durante o fim de semana. “No entanto, o Levante Popular da Juventude e o MST, movimentos que ela integra, estavam presentes. Inclusive o ato no domingo foi puxado pelas juventudes, assim como os atos nas universidades”, informou a assessoria.

Foto de um evento público realizado sob uma tenda colorida, com iluminação em tons de vermelho e azul. Em primeiro plano, um jovem, magro, de cabelos crespos escuros, usando camiseta branca com o logotipo “UNE” fala ao microfone, enquanto Rosa Amorim, mulher negra de cabelos castanhos encaracolados, usando camiseta vermelha com adesivos e um emblema estampado, está ao lado. Ao fundo, há várias pessoas observando a cena, algumas também vestidas de vermelho. O ambiente parece ser uma atividade coletiva ou encontro com público, com foco na fala da pessoa que segura o microfone.

Parte expressiva do apoio à deputada Rosa Amorim (PT) está entre os eleitores jovens.

Crédito: Anderson Stevens/Divulgação

Para Rosa, essa renovação do PT abre espaço para uma bancada mais à esquerda e para a defesa de um programa político mais radical em suas propostas sociais. “É onde eu estarei”, antecipa, sem descartar negociações com setores de centro e de direita para viabilizar os projetos que defende e, neste momento, para disputar a reeleição do presidente Lula (PT).

Nestas eleições, o PT de Pernambuco triplicou sua bancada na Câmara Federal, com a eleição de Carlos Veras – único parlamentar eleito em 2022 -, Liana Cirne e Rosa. Também ampliou a presença na Alepe, passando de três para cinco cadeiras — com Dani Portela, João Paulo, Breno Araújo, João Paulo Costa e Ivete Caetano — e terá dois representantes no Senado, Teresa Leitão, que segue seu mandato, e Humberto Costa, reeleito.

“Esse é também o recado que Pernambuco deixa nos elegendo. E, a nível nacional, é dizer que a extrema direita pode até ter crescido e ser maioria no Congresso, mas nós qualificamos a nossa atuação para o próximo período”, avalia, citando “garra, coragem e vontade para fazer enfrentamento aos fascistas que querem destruir os nossos direitos”.

Quando perguntada sobre que estratégia pensa em adotar no parlamento federal, inclusive para se defender da violência política de gênero, Rosa comentou que o cenário dependerá muito de quem vencer o segundo turno no dia 25. Porém, na entrevista, fez questão de destacar: “A tribuna no Congresso Nacional vai ser um ringue de disputa de projeto ideológico de país”.

Sobre o MST, Rosa acredita que a presença nacional e a história de mobilização ajudaram a sustentar sua campanha. “A memória viva, a luta cotidiana do Movimento Sem Terra e o que ele representa para o Brasil foram muito importantes para que o povo pudesse apostar nesse projeto coletivo”, acredita.

Ao falar sobre o forte apoio da população LGBTQIAPN+ à sua campanha, Rosa destacou o apoio que recebeu da deputada federal Erika Hilton (PSOL). Somente um vídeo gravado por Erika alcançou quase quatro milhões de visualizações nas redes sociais. Para a parlamentar, isso mostra “a necessidade também de conformar uma bancada pelos direitos da população LGBT. Coloquei isso quase como um slogan da nossa campanha, ‘eu voto em LGBT’”, lembra.

Aliás, foi nas redes que Rosa investiu um montante expressivo da sua receita de campanha. A verba de impulsionamento de conteúdos, no Instagram e Facebook, foi, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o primeiro colocado no item de despesas: R$ 600 mil, dos R$ 1,8 milhão, valor recebido quase que na integralidade por repasse do diretório nacional do PT.

Rosa lembra que o Congresso não costuma legislar pelos direitos da comunidade LGBTQIAPN+. Tanto é que vários direitos fundamentais dessa população foram estabelecidos por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) ou por normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e não por leis aprovadas no parlamento. Exemplos disso são o casamento civil homoafetivo, a criminalização da homofobia e da transfobia (enquadrada na Lei do Racismo), o uso do nome social nos tribunais e a alteração de nome e gênero no registro civil.

“Mas por que eu estou trazendo isso como um elemento? Porque a extrema direita cresceu principalmente batendo nas pautas, na vida e na existência das pessoas LGBT. Lucas Pavanato (PL), de São Paulo, se elegeu dizendo que vai acabar com os banheiros trans como sua principal pauta. Nikolas Ferreira (PL) se projetou batendo na comunidade LGBT. Então isso para mim é importante”, explica.

Propostas no Congresso

A atuação de Rosa na Alepe tem se concentrado nos temas de combate à fome, igualdade racial, direitos das mulheres, proteção da população LGBTQIAPN+, agricultura familiar e cultura popular. São esses os temas que ela pretende seguir pautando em Brasília, segundo disse em entrevista por telefone na semana passada.

Ela foi responsável pela criação de 30% de cotas para negros, pardos, indígenas e quilombolas e pelo desarquivamento do Estatuto da Igualdade Racial de Pernambuco, um projeto de lei originalmente dos ex-deputados Teresa Leitão (PT) — hoje senadora — e Isaltino Nascimento (PSB). O projeto virou lei, foi sancionado pela governadora Raquel Lyra (PSD) em 2023.

Foto de um grande grupo de pessoas reunidas em uma área rural ao ar livre, sob um céu nublado. Na frente, várias pessoas seguram uma bandeira vermelha com o símbolo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), enquanto outras levantam os braços ou aplaudem. Muitos participantes usam bonés vermelhos com o mesmo emblema, e algumas pessoas ao fundo seguram ferramentas agrícolas erguidas. Ao redor, há barracas cobertas por lonas azuis e uma paisagem de campos verdes, compondo uma cena de mobilização coletiva em ambiente de campo.

Presença nacional e a história de mobilização do MST ajudaram a sustentar a campanha.

Crédito: Anderson Stevens/Divulgação

Entre suas propostas para a Câmara dos Deputados, estão a defesa do III Plano Nacional de Reforma Agrária, a ampliação do acesso à terra, acelerando desapropriações, arrecadação e destinação de terras públicas, e o fortalecimento do Programa Nacional de Crédito Fundiário.

Rosa disse que também vai pautar o fortalecimento e a modernização do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai); a proteção e regularização dos territórios tradicionais, com aceleração da demarcação, titulação e regularização dos territórios indígenas, quilombolas e de demais povos e comunidades tradicionais; e a criação de um Fundo da Agroecologia e da Economia Popular, para aumentar o financiamento a sistemas agroecológicos, agroflorestas, cooperativas e infraestrutura produtiva.

Pretende ainda se articular para disputar uma vaga nas comissões de Educação, de Cultura e de Clima e prometeu que irá criar um Grupo de Trabalho da Caatinga, dentro da Frente Parlamentar Ambientalista. A Câmara já chegou a aprovar requerimentos para criar uma Subcomissão Especial do Bioma Caatinga, vinculada à Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Porém, os registros oficiais indicam que essa iniciativa foi arquivada em 2026.

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