Relatório apócrifo distorce microdados do TSE para alegar fraude eleitoral
Núcleo Jornalismo · Por Luiz Fernando Menezes
(há 1 hora)
Publicado originalmente em Núcleo Jornalismo ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0 (programa de republicação para veículos de jornalismo)


Um documento apresentado como “relatório pericial independente” passou a circular nesta semana entre bolsonaristas nas redes sociais como uma prova de que as eleições foram fraudadas. Além de o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ter dito, mais de uma vez, que não há irregularidades no pleito, o documento mente ao afirmar que:
- Considerados os votos feitos até as 17h, Flávio venceu;
- TSE escondeu os microdados das eleições por 72 horas;
- Uso da Lei de Benford sobre os dados do TSE constata fraude;
- Votos registrados sem biometria indicam irregularidade.
Postagens com o conteúdo enganoso reuniam ao menos 1,2 milhão de visualizações no X e 200 mil curtidas no Instagram até a tarde desta quinta-feira (29).
A alegação principal do relatório — e que tem viralizado entre os bolsonaristas — é que Flávio Bolsonaro teria vencido as eleições se o pleito tivesse terminado às 17h. Isso é falso por dois motivos:
- Os dados mostram que apenas 34.393 votos vieram após esse horário. Lula venceu Flávio por 4,4 milhões de votos;
- O voto é sigiloso: não é possível determinar se esses 34 mil votos foram dados para um ou outro candidato.
“Não é possível saber em quem os eleitores que compareceram às urnas depois das 17h votaram. O RDV (Registro Digital do Voto) armazena as escolhas sem vinculá-las à identidade dos eleitores”, explicou o TSE.
O relatório apócrifo afirma ainda que 2,5 milhões de eleitores votaram em urnas que funcionaram após as 17h. Ele também diz que, excluídos esses equipamentos da totalização, Flávio registraria 52,39% dos votos.
Mas isso é mais uma distorção: como evidenciado pelo TSE e por análises da imprensa, menos de 35 mil votos foram registrados após o tempo original. Ou seja, desses 2,5 milhões de eleitores citados, cerca de 2,46 milhões votaram antes das 17h.
Essa afirmação ainda ignora que as regras eleitorais permitem que pessoas votem caso estejam na fila no momento em que o prazo é finalizado.
A declaração é falsa porque o log das urnas, que são os registros de atividades desses equipamentos, é disponibilizado pelo TSE à medida que a totalização dos votos avança. Horas após o segundo turno, análises divulgadas pela imprensa ou por usuários independentes (exemplo abaixo) já traziam informações sobre a votação.

O relatório, na verdade, faz uma confusão sobre a disponibilização desses logs. Até o dia 28, esses arquivos poderiam ser acessados de forma individualizada no site do TSE. Já a partir dessa data, esses logs foram agrupados e disponibilizados em formato zip no Portal de Dados Abertos.
Além disso, geralmente há atraso na apuração dos resultados na plataforma de resultados do TSE. Isso acontece porque a totalização dos votos e a divulgação são feitas em sistemas diferentes.
No primeiro turno, por exemplo, por causa do alto volume de dados, a divulgação dos dados ficou paralisada por volta das 19h14. A totalização, no entanto, prosseguiu normalmente.
O relatório diz ainda que submeteu os dados à Lei de Benford para verificar manipulações. Apesar de não trazer a conclusão da análise, a declaração é incorreta porque, como Aos Fatos já explicou, essa lei não é confiável para analisar o resultado de pleitos eleitorais.
A Lei de Benford detecta anomalias em dados numéricos por meio da observação da frequência com que aparecem os algarismos 0 a 9 nos primeiros quatro dígitos das observações. A regra, no entanto, não funciona para dados eleitorais, conforme já foi atestado por pesquisadores americanos, pelo Conselho Europeu e pelo Carter Center, ligado à Universidade Emory.
O TSE também publicou, em 2020, um desmentido sobre o assunto.
O documento afirma que 8,6 milhões de eleitores votaram sem verificação biométrica. Esse número não foi confirmado pelo TSE, mas, ainda que seja real, não configuraria por si só uma irregularidade ou um indício de fraude eleitoral. Nos casos em que a biometria não é identificada, a verificação do eleitor é feita da seguinte forma:
- O eleitor deve confirmar o ano de nascimento, dado que não está disponível para os mesários;
- Depois, ele assina o caderno de votação;
- E o mesário responsável pela liberação também é identificado.
Além disso, não é possível inferir em qual candidato esses 8,6 milhões de eleitores votaram: “os arquivos divulgados pelo TSE não fornecem uma lista que indique em quem votou cada pessoa habilitada sem reconhecimento biométrico”, explicou o tribunal em nota.
Apesar de o Aos Fatos não ter encontrado estimativas semelhantes nos últimos pleitos, é importante ressaltar que havia mais eleitores sem biometria registrada aptos a votar em 2022 e 2018. No ano em que Jair Bolsonaro (PL) foi eleito, por exemplo, 59 milhões de pessoas (40,69% do eleitorado) não tinham registrado biometria.
Outras desinformações
Além de fazer afirmações enganosas, o relatório ainda desinforma ao sugerir irregularidades na totalização dos votos.
O relatório considera que seria “matematicamente improvável” que Lula tivesse vencido de forma unânime em algumas urnas. Isso não é inédito — aconteceu em 2022 — e pode ser explicado pela localidade: seções localizadas em territórios indígenas, por exemplo, já votaram majoritariamente em Lula em eleições passadas.
O documento também diz que “milhões de votos teriam sido contabilizados na calada da noite” para Lula, mas isso também não se sustenta porque os dados enviados ao TSE podem ser conferidos nos boletins de urna impressos ao final do pleito. Até o momento, não foram identificadas incongruências entre os dados dos boletins e o resultado divulgado pelo TSE.
O relatório ainda omite que ambas as campanhas solicitaram a prorrogação do pleito até as 19h.
Origem
O relatório foi publicado originalmente no X no meio da tarde da última quarta-feira (28) pelo perfil @Youvebeenpwned_.
O usuário foi criado em outubro e se intitula como parte do grupo hacker Anonymous, mesmo sem apresentar prova alguma sobre isso. Uma de suas publicações, inclusive, adiciona uma dublagem falsa em cima de um vídeo antigo que supostamente foi publicado pela organização.
Após contestações, o perfil apagou o relatório e publicou uma nova versão do relatório, com algumas das alegações suprimidas. A versão que tem viralizado nas redes, no entanto, continua sendo a antiga.
O caminho da apuração
Aos Fatos enviou o relatório para o TSE e analisou as afirmações feitas pelo documento. A reportagem checou as alegações com base em informações públicas e dados do próprio TSE. Aos Fatos também procurou a origem do documento, que foi publicado por um perfil apócrifo no X que finge ser ligado ao grupo hacker Anonymous.
