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Cultura

Quem decide qual é o debate certo numa eleição presidencial?

Observatório da Imprensa · Por Rafael Simi

(há 46 min)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Os jornalistas brasileiros adoram citar James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, com seu “É a economia, estúpido!”. Eu gosto mais do pensamento dele que justifica essa frase de efeito: “Quem define a agenda ganha a eleição”.

Só para citar dois grandes jornais, a Folha disse em editorial que o segundo turno da eleição de 2026 seria positivo para que se discutam propostas. O Globo pediu que os assuntos relevantes entrem em pauta na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Acho um pouco ingênuo o pedido. Em mais de 30 anos, alguém já viu algum membro da família Bolsonaro discutir algum assunto relevante que não envolva golpismo? E nem precisou. Com um plano de governo que parecia um gibi, o agora preso Jair Bolsonaro deixou em êxtase os investidores brasileiros apenas por apresentar seu “Posto Ipiranga” em 2018.

Já Flávio, nem isso. No dia seguinte à votação do primeiro turno, o mercado financeiro sambou e cantou de alegria. É um amor que não exige lógica, como toda paixão arrebatadora. Se exigisse, Tarcísio de Freitas, que recebeu as contas do estado de São Paulo relativamente bem e produziu um rombo, não seria o queridinho da Faria Lima. E Fernando Haddad, que pagou todas as dívidas da prefeitura paulistana e mostrou extrema responsabilidade com as contas federais, não provocaria pânico nas corretoras.

A verdade é que Lula também se eximiu de propor qualquer coisa muito relevante nos meses eleitorais. Fiou-se numa memória (já rarefeita) de realizações passadas e na crença de que a campanha mostraria “quem é Flávio Bolsonaro”. Presidente, todo mundo sabe quem são Jair, Flávio, Carlos, Eduardo e Valdemar. Mas, aparentemente, na batalha dos “antis”, o antipetismo vence de lavada.

Enquanto o PT se apegava a um passado de glórias vividas entre 2003 e 2013, a extrema direita ia de Milagre Econômico ao celebrar o Regime de 64. Crescimento grande, Jornal Nacional sem notícias de corrupção, filhos da classe média saindo da faculdade para bons empregos, miséria bem escondida e as classes A e B sem correr qualquer risco de esbarrar com alguém da classe C fora do quartinho de empregada.

Morreram algumas dezenas de brasileiros? Sim. “Mas não era gostoso torcer na Copa de 70 e dançar Pra frente, Brasil?”, diria Regina Duarte. 

Mas voltando ao ponto inicial, qual é a agenda deste pleito? Para o povo, parece que é “mudança”, mesmo que seja de uma Constituição que, apesar de nossos históricos retrocessos, consolidou direitos importantes.

Ironicamente, esse aparente desejo de “mudar tudo isso que tá aí” ceifou o próprio Jair em 2022. Alguns colegas chamam de “crise da situação’. Faz sentido. A situação tá feia. No mundo inteiro. Gente endividada, com problemas de saúde mental, empregos precários, sem direitos trabalhistas, pejotizada e por aí vai.

Se parece ingênuo pensar que a direita liberal vai fazer alguma coisa contra isso, o fato hoje é: a centro-esquerda também não fez tanto assim. Primeiro anúncio do Lula no segundo turno: Alckmin no Ministério da Fazenda. Amigo, você não está em 2002.

“Carta ao povo brasileiro” a essa hora? Naquela época, o povo te queria e o único cuidado era sinalizar ao mercado que eles podiam aceitar a vontade popular. Hoje, o povo dá mostras de querer alternância e o Flávio Day de 6 de outubro na B3 esfregou na sua cara que a turma do dinheiro grosso tá pouco se lixando para os seus “sinais de responsabilidade fiscal”.

Mas para ser justo, a campanha petista entrou em atabalhoadas discussões sobre Santa Padroeira e falou poucas novidades em comícios, mas o governo Lula 3 não foi totalmente omisso em propostas importantes. E como a imprensa se comportou? A tentativa de acabar com a escala 6 x 1 foi rechaçada com violência por editoriais dos jornalões. A isenção de imposto para quem ganha até 5 mil foi chamada de “populismo”. Sem conversa.

Para ser mais justo ainda, ao longo da campanha, os jornais perderam tempo demais com as guerras do STF e notícias sobre “lobista amiga do filho de Lula”. Soa estranho agora os veículos cobrarem uma discussão de alto nível depois de rebater qualquer pequena tentativa de o governo fazer mudanças de verdade e de ter passado os dias anteriores à eleição com manchetes relacionadas a temas que em nada conversam com o bolso (e o estômago) do brasileiro.

Se a imprensa quer debater algum assunto além do tal ajuste nas contas, não andou se expressando muito bem.

***

Rafael Simi é jornalista formado pela PUC-Rio. Trabalhou nas redações do Grupo Globo e escreveu o livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”. Mais recentemente, publicou “Einstein e Exu – Reflexões para você perder tempo e ganhar o dia”.

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