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Quando o jornalismo fabrica antagonismos: quem ganha com a polarização?

Marco Zero Conteúdo

(há 2 horas)

Publicado originalmente em Marco Zero Conteúdo ↗ · Uso: CC BY-ND 3.0 BR

por Ana Carolina Marsicano* e Maria Eduarda Antonino**

A ascensão política de mulheres antifeministas representa uma derrota para o feminismo? Não. A ascensão de pautas antifeministas representa uma ameaça aos direitos das mulheres? Sim.

As duas respostas não são contraditórias. Mas foi justamente essa distinção que desapareceu quando aceitamos participar de um debate promovido em um jornal de grande circulação. Fomos inicialmente convidadas a responder à primeira pergunta, sobre a ascensão de mulheres antifeministas e uma possível derrota do feminismo. Nossa resposta seria não. Afinal, a presença crescente de mulheres que fazem do antifeminismo uma plataforma política não representa, necessariamente, uma derrota do movimento feminista. É também expressão de uma disputa em torno das transformações sociais produzidas pelo próprio feminismo.

Posteriormente, a pergunta foi alterada. O debate passou a questionar se a ascensão política de pautas antifeministas representava uma ameaça às mulheres. Nossa resposta, naturalmente, seria sim. Entretanto, fomos informadas de que deveríamos permanecer no campo do não. O resultado foi a construção de uma oposição que não corresponde às nossas posições políticas e intelectuais. De um lado, uma pesquisadora do campo progressista respondendo sim. Do outro, nós, também pesquisadoras comprometidas com os direitos das mulheres, apresentadas como representantes da posição contrária. Não se tratava de uma divergência política real. Tratava-se de duas interpretações sobre questões distintas, reorganizadas editorialmente para funcionar como respostas antagônicas a uma mesma pergunta.

A diferença não é pequena. Uma coisa é afirmar que o feminismo não foi derrotado pela ascensão de suas adversárias. Outra, muito diferente, é sugerir que projetos antifeministas não representam ameaças às mulheres. A primeira afirmação reconhece a capacidade histórica de transformação e resistência do feminismo. A segunda poderia significar a minimização de riscos concretos aos direitos sexuais e reprodutivos, às políticas de enfrentamento à violência, à igualdade de gênero e à autonomia das mulheres. Não defendemos a segunda posição. Nunca foi essa nossa análise.

A polarização também é um produto

O episódio nos parece especialmente revelador em um momento em que a política é cada vez mais organizada pelas dinâmicas de produção de audiência e captura da atenção. O jornalismo não está fora desse processo. Grandes veículos de comunicação disputam leitores, assinaturas, circulação nas plataformas digitais e relevância pública em um ambiente no qual o conflito tende a produzir mais engajamento do que a nuance. Uma manchete que apresenta posições opostas oferece ao público uma controvérsia facilmente identificável: alguém defende uma coisa, alguém defende o contrário. Cabe ao leitor escolher seu lado. O problema surge quando a necessidade de apresentar dois lados passa a organizar a própria produção do debate, em vez de decorrer das posições efetivamente sustentadas por seus participantes. Não estamos dizendo que o jornalismo deva evitar divergências. Ao contrário, o debate público depende do confronto entre perspectivas diferentes. Mas existe uma diferença fundamental entre identificar divergências reais e produzir antagonismos artificiais para que uma controvérsia se ajuste a um formato editorial.

A polarização não é apenas um fenômeno que os meios de comunicação observam e noticiam. Ela também pode ser reproduzida e intensificada por suas escolhas: as perguntas que formulam, as pessoas que convidam, os títulos que atribuem, os enquadramentos que selecionam e as diferenças que decidem destacar ou apagar. Quando a realidade não cabe perfeitamente na divisão entre sim e não, o compromisso jornalístico deveria ser com a complexidade da realidade, não com a preservação da divisão. Isso é ainda mais importante quando tratamos de gênero e feminismo. O crescimento do antifeminismo não pode ser compreendido apenas por meio de uma oposição entre mulheres conservadoras e mulheres progressistas. Estamos diante de disputas mais profundas sobre família, maternidade, sexualidade, trabalho, cuidado, liberdade e cidadania.

O antifeminismo contemporâneo não se limita a defender o retorno das mulheres ao espaço doméstico. Ele mobiliza a linguagem da emancipação feminina, reivindica a presença de mulheres em espaços de poder e procura redefinir o significado dos direitos conquistados. Reconhecer essa transformação não significa considerá-la positiva. Significa compreender como projetos políticos que restringem direitos também podem conquistar apoio entre mulheres. É justamente esse tipo de análise que se perde quando a complexidade precisa ser reduzida a duas posições supostamente inconciliáveis.

Quem responde pela posição de uma pesquisadora?

Há outra dimensão desse episódio que consideramos fundamental: a responsabilidade dos veículos de comunicação com as pessoas que se dispõem a participar do debate público. Não falamos apenas em nosso nome. Nossa trajetória acadêmica e profissional está vinculada a pesquisas sobre gênero, religião, política, conservadorismos e direitos sexuais e reprodutivos. São anos de investigação, trabalho de campo, produção de conhecimento e participação em iniciativas comprometidas com a compreensão das desigualdades e das disputas em torno dos direitos das mulheres. Isso não significa que nossas posições devam ser preservadas de críticas ou que nossa trajetória nos coloque acima de questionamentos. Significa apenas que o enquadramento editorial não pode desconsiderar aquilo que efetivamente pensamos, pesquisamos e defendemos.

Pesquisadoras que aceitam participar de debates públicos colocam em circulação não apenas suas opiniões, mas também sua credibilidade profissional. Quando um veículo altera substantivamente a pergunta e condiciona a resposta a uma posição previamente estabelecida, ele interfere na maneira como essas pesquisadoras serão reconhecidas por seus pares, por seus interlocutores e pelo público. Não se trata de exigir concordância entre jornal e entrevistadas, nem de reivindicar controle sobre a edição. Trata-se de transparência sobre as condições de participação e fidelidade ao sentido das posições apresentadas. A trajetória de uma pesquisadora não deve servir como argumento de autoridade que a proteja do contraditório. Mas tampouco pode ser tratada como um detalhe descartável diante da necessidade de preencher um lugar no debate. O que está em questão é a confiança. Por que pesquisadoras, intelectuais, movimentos sociais e representantes da sociedade civil deveriam aceitar participar de controvérsias públicas se suas posições podem ser reorganizadas para sustentar antagonismos que não reconhecem?

O jornalismo de que precisamos

Defender uma mídia comprometida com a transparência não significa reivindicar um jornalismo sem perspectiva, sem escolhas editoriais ou sem conflitos. Toda produção jornalística envolve decisões sobre o que merece visibilidade e como determinados acontecimentos serão apresentados. O compromisso com a transparência começa justamente pelo reconhecimento dessas escolhas e de suas consequências. O jornalismo precisa tornar inteligíveis as diferenças que existem na sociedade, não fabricar outras para tornar suas publicações mais atraentes. Precisa permitir que seus interlocutores apresentem argumentos que não estejam inteiramente subordinados à lógica do confronto. E precisa reconhecer que a busca por audiência, embora faça parte das condições materiais de funcionamento dos veículos, não pode se sobrepor ao compromisso com a precisão e a responsabilidade pública.

Há uma ironia nesse episódio. Fomos convidadas a debater o antifeminismo, mas acabamos diante de um problema que também atravessa nossas pesquisas: a crescente subordinação da política à economia da atenção. Quando a necessidade de produzir uma controvérsia se torna mais importante do que compreender as posições envolvidas, o próprio debate público passa a funcionar como espetáculo. Nesse ambiente, a complexidade vira inconveniente, a nuance parece indecisão e a recusa de uma falsa dicotomia pode ser interpretada como adesão ao campo adversário. É precisamente por isso que precisamos de um jornalismo capaz de contrariar essa lógica. Uma imprensa que reconheça a diferença entre conflito e antagonismo, que não transforme toda divergência em uma batalha entre campos políticos e que compreenda a produção de conhecimento como uma contribuição ao debate público, não apenas como matéria-prima para produzir engajamento.

Nossa posição permanece a mesma: o crescimento de mulheres antifeministas na política não representa uma derrota inevitável do feminismo. Mas o avanço de pautas antifeministas pode, sim, ameaçar direitos, restringir liberdades e aprofundar desigualdades. Não há contradição nisso. Há uma distinção analítica fundamental. O problema é que, quando o jornalismo precisa de antagonistas para produzir audiência, até a coerência pode se tornar inconveniente. E talvez essa seja a questão mais importante deixada por esse episódio: quem ganha quando o debate público deixa de representar as diferenças que existem na sociedade e passa a produzir aquelas de que precisa para continuar capturando nossa atenção?

*Ana Carolina Marsicano é socióloga, pós-doutoranda na Unicamp e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (LABERP/Fundaj).

**Maria Eduarda Antonino é doutora em Sociologia pela UFPE e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política (LABERP/Fundaj).

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