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Cultura

O julgamento dos militares: filme de Marco Bechis lava a alma do Brasil na Mostra de Cinema

Observatório da Imprensa · Por Norma Couri

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Mostra Internacional/Divulgação)

O Brasil ainda não pôde julgar os militares que entre 1964 e 1985 torturaram, mataram e evaporaram 10 mil cidadãos, incluindo estudantes, políticos, camponeses e indígenas. Mas pelo menos a Argentina vem vingando os cerca de 30.000 mortos, exilados, torturados, desaparecidos forçados nos seus tribunais e o cinema portenho aponta desde 1985 (História Oficial) os desastres dessa guerra. Este ano a 50ª Mostra de Cinema Internacional de São Paulo entregou o Prêmio Humanidades ao chileno Marco Bechis, que abre as veias dos horrores desde 1999 com Garage Olimpo, dois anos depois com Filhos da Tortura. Este ano ele trouxe Retorno a Buenos Aires que promete ser um dos grandes filmes do ano. Vencedor do Prêmio Francesco Pasinetti de Melhor Filme no Festival de Veneza, Retorno a Buenos Aires é um eletrizante momento da verdade, quando um sobrevivente decide, mais de 30 anos depois vivendo na Itália, voltar, contar, e apontar os culpados.

O protagonista, em parte inspirado no próprio Belchis, é preso no momento em que o general Augusto Pinochet assume o Palacio de la Moneda depois de conspirar para o assassinato do presidente Salvado Allende. A história está contada em 3 partes no documentário A Batalha do Chile, de Patricio Guzmán, morto no mês passado aos 85 anos. O filme de Guzmán, na lista dos 20 melhores filmes de todos os tempos, foi restaurado e está na Mostra, ao lado de Retorno a Buenos Aires.  

Marco Bechis incluiu brasileiros no elenco, como a juíza Paula Cohen, e Eduardo Hoy no papel do ator principal quando jovem. Bechis concedeu esta entrevista ao Observatório da Imprensa no momento de sua premiação no Teatro Cultura Artística.

OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA – Você decidiu fazer este filme para as pessoas conhecerem esta história, ou para você mesmo expurgá-la?

MARCO BECHIS – Não fiz o filme para mostrar às pessoas, ou apenas para algumas pessoas, desvendarem os escombros dessa história. Foi mais uma ação artística a partir das minhas próprias inquietações e, sim, o desejo de compartilhar. Toda atividade artística é também um ato político. Levei anos para realizar este filme, e venho tentando contar. Há cinco anos fiz um ensaio com o livro A Solidão do Subversivo, contando a minha história, que foi lançado na Itália, na Argentina, ainda não no Brasil.

OI – Você foi preso durante a ditadura. Este filme é apenas um esforço para contar a sua história? Não carrega junto um expurgo para se livrar das culpas?

MB – Você diz isso em comparação com a história de Mariano (Adriano Giannini), o personagem principal do filme. Tem alguma coisa minha, sim, mas o Mariano não sou eu. 

OI – Ele tem culpas, quer lembrar e esquecer, os companheiros cobram muitos dos seus atos e ele vive consumido por um conflito permanente, contar ou não contar, tanto que levou mais de 30 anos para depor. E se sente culpado. Essa culpa é sua?

MB – Sim, a culpa, sim, por ter sobrevivido enquanto muitos outros, não. Mas minha culpa não é a do Mariano ou “Tato”, seu nome de guerra. Porque ele denunciou e eu, não. Isso não quer dizer que fui melhor do que ele.

OI – O que diferencia vocês dois?

MB – Eu fui militante, mas depois fui para a dissidência e já estava fora quando fui detido. Então não tinha nenhuma informação para dar, e isso me salvou. Não quer dizer que fui mais heroico do que ele. Ninguém “caiu” por minha culpa, mas eu também não fiquei 4 anos e 48 dias na prisão. Se tivesse ficado sendo torturado por tanto tempo, obrigado a apontar pessoas, eu teria feito a mesma coisa. Ninguém é herói nessa situação.

OI – Você está fazendo 71 anos no Brasil (24 de outubro) onde viveu parte da infância e juventude, e onde fez o filme Terra Vermelha em 2008 sobre os conflitos dos Guarani-Kaiowá pela retomada da terra originária em Mato Grosso. Os militares e os partidos de direita também estão envolvidos nesse conflito indígena. Estamos assistindo a uma virada da América Latina à extrema direita espalhada por muitos países, inclusive no Chile. Sendo chileno, como você se posiciona hoje?

MB – Eu vim para o Brasil agora e fiquei para o resultado das eleições aqui porque este resultado é importante para a América Latina. O fenômeno é global. Agora temos Trump na América, e só para mencionar um país europeu, a Melone na Itália. Na América Latina não quero nem mencionar o presidente argentino porque, se não falarmos seu nome, ele será esquecido mais rápido. O momento é decisivo, os povos latinos vivem uma crise profunda.

OI – Esta crise é a crise da sua geração, para quem este filme é tão importante?

MB – Sim, nossa geração faliu. Este é o resultado. Não conseguimos realizar nossos ideais ou não estaríamos nessa situação agora. Mas a construção da memória é mais lenta do que a mudança da memória.  Na América Latina, e só na Argentina, mais de 2000 militares pegaram prisão perpétua. Os jovens argentinos sabem que esta é a lei.

OI – No Chile, isso não aconteceu.

MB – [O general] Videla, cinco anos no poder, morreu na prisão. Pinochet, 17 anos governando o Chile, morreu na sua cama… essa é a diferença.

OI – Mas pelo menos alguns militares foram julgados no Chile. Ao contrário do Brasil, foram todos anistiados.

MB – No Chile, só alguns foram julgados. Mas a história não terminou. É tudo uma questão de tempo. Como uma ressaca, quando a água vai, e vem. No Brasil pode levar uma geração, duas, mas o julgamento vai acontecer. Porque existe um buraco, um fosso profundo. Não se preocupe que ele não vai desaparecer sozinho.

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Ler no site da fonte: Observatório da Imprensa ↗