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Cultura

O jornalismo sob ataque

Observatório da Imprensa · Por Ramsés Albertoni

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

A jornalista Juliana Dal Piva publicou, em 18 de setembro de 2026, uma mensagem em seu perfil na mídia social X dizendo que “as coisas ali haviam chegado a um lugar completamente inaceitável, e por isso se tornava impossível permanecer” (@julianadalpiva). A conta seria encerrada e ela seguiria no Instagram. Anexada à postagem, uma manchete do ICL Notícias, o veículo em que ela assina como colunista, informava que a jornalista era, segundo levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), a jornalista que mais sofrera ataques na plataforma durante o período eleitoral. O perfil da jornalista, porém, até o início de outubro, continuava ativo, sem novas publicações. Dal Piva permanece no X como perfil visível, seguido, arquivado, mas calada, e esse silêncio é tão ou mais revelador do que o encerramento anunciado. Existe algo de circular nessa cena que merece ser desdobrado, porque ela condensa, num só gesto, tudo o que o monitoramento estatístico tenta capturar em números. A violência é registrada, quantificada, publicada e, ainda assim, ou por isso mesmo, continua a produzir efeitos sobre quem a sofre, mesmo quando esses efeitos não se cumprem exatamente na forma anunciada.

O boletim da CDJor, com dados do Labic/UFES, registrou 4.400 episódios de hostilidade contra a imprensa entre 30 de agosto e 12 de setembro, um crescimento de 67,3% em relação à quinzena anterior. O número foi replicado por diversos veículos como evidência de que o ambiente digital se tornara mais hostil ao jornalismo. Uma leitura mais cuidadosa dos próprios dados, no entanto, mostra que o universo de publicações monitoradas cresceu ainda mais, de pouco mais de 519 mil para quase 1,2 milhão. Proporcionalmente, os ataques caíram de cerca de 0,51% para 0,37% do total observado. A intensidade relativa não aumentou, o volume de conteúdo eleitoral, sim, e dentro dele a violência se manteve, ou até diminuiu como fração do debate. Essa disjunção entre o dado bruto e o dado normalizado não anula a gravidade do fenômeno, mas obriga a perguntar por que a métrica escolhida para publicizar o problema foi justamente aquela que produz o efeito discursivo mais alarmante.

A escolha metodológica não é neutra, e ainda que provavelmente não tenha sido deliberada, ela expressa uma tensão entre o rigor estatístico e a urgência de comunicar um risco real.

Essa urgência, contudo, não deveria ser descartada apenas porque a proporção caiu. É no cruzamento entre concentração e distribuição que o caso Dal Piva se torna sintomático, posto que, no X, ela foi identificada como a jornalista mais atacada, com 94 registros no período. Um número que, isolado, diz pouco, mas que ganha densidade quando comparado à distribuição geral: 22 mulheres receberam 280 dos 530 ataques dirigidos a jornalistas específicos na plataforma, uma concentração de mais de 52% em um grupo que, no Instagram, era ainda mais assimétrico, 375 dos 636 ataques recaindo sobre apenas 25 mulheres, contra 39 homens que dividiram entre si uma fração bem menor do total. A violência não se distribui de forma homogênea entre o campo jornalístico, ela se acumula em determinados corpos, e são majoritariamente corpos femininos que a acumulam. Foi assim que se convencionou nomear, na literatura sobre assédio digital contra jornalistas mulheres, um padrão em que o ataque não contesta apenas o conteúdo da reportagem, mas desloca o registro da discussão para o corpo, a sexualidade e o caráter de quem a assina. No caso de Dal Piva, esse deslocamento foi documentado com precisão, acusações de produzir informação falsa se misturaram a mensagens de teor sexual e a incitações explícitas à violência física.

A pesquisa acadêmica recente sobre o tema converge, com poucas exceções, para essa mesma leitura. Zviyita e Mare (2024), em estudo sobre redações namibianas, descrevem o fenômeno como violência de gênero online, um problema que, segundo os autores, tende a empurrar jornalistas mulheres para o recuo e o silenciamento, ainda que a magnitude do problema varie conforme o contexto nacional observado. Sampaio-Dias, Silveirinha, Garcez, Subtil, Miranda e Cerqueira (2024), em pesquisa nacional com jornalistas portugueses, encontraram que metade dos profissionais entrevistados já havia sofrido algum tipo de abuso online, incluindo assédio sexual, e que homens são, em termos absolutos, mais frequentemente atacados, enquanto mulheres são desproporcionalmente alvo de comentários sexistas e ameaças de violência sexual. É essa mesma distinção entre volume bruto e natureza do ataque que separa, no monitoramento brasileiro, o caso de Dal Piva do de seus colegas homens, pois não é apenas a quantidade de mensagens recebidas que a diferencia, mas o registro corporal e sexual que essas mensagens assumem.

A reportagem que precipitou essa onda mais recente tratava de um áudio envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira e o banqueiro Daniel Vorcaro, publicado pelo ICL Notícias. À publicação seguiu-se uma liminar da Justiça Eleitoral de Minas Gerais determinando a retirada integral do conteúdo, decisão revertida pelo mesmo magistrado dias depois, ainda que mantendo a proibição de uma única palavra do texto original. Foi aberta, também, uma ação judicial contra o próprio veículo. Esse dado muda a natureza do problema, uma vez que enquanto o boletim do Labic mede hostilidade em mídias sociais, a ação judicial revela um mecanismo distinto, mais lento e mais oneroso, porque não se produz um enxame de ofensas anônimas, produz-se um processo, com prazo, custo e desgaste institucional, movido contra quem investiga.

A literatura sobre Ações Judiciais Estratégicas Contra a Participação Pública, conhecidas pela sigla em inglês SLAPP (Strategic Lawsuits Against Public Participation), já descreveu esse tipo de expediente como uma forma de silenciamento que dispensa a vitória no mérito. O próprio trâmite processual já cumpre a função de desestimular novas apurações, deslocando o debate da esfera política para a jurídica e transferindo o ônus de justificação do acusador para o acusado. Papadopoulou e Maniou (2025), em um dos poucos estudos empíricos a ouvir diretamente jornalistas que enfrentaram esse tipo de processo, notam que a área permanece pouco estudada dentro do campo do jornalismo, e que o impacto pessoal desses litígios, o desgaste psicológico, o custo financeiro, a incerteza prolongada, costumam ser subestimados pela literatura jurídica, que tende a tratar o fenômeno apenas como técnica legal. Que os dois mecanismos, o digital e o jurídico, tenham incidido sobre o mesmo caso, na mesma janela de tempo, sugere uma coordenação de efeitos que não precisa ser coordenação de origem para ser real.

Dal Piva não é, deve-se ressaltar, um caso inaugural, pois desde pelo menos 2019 ela vem sendo alvo recorrente de campanhas de descrédito, ameaças e litígios, atravessando o ciclo Lava Jato, o processo movido pelo advogado Frederick Wassef após uma ameaça de morte explícita, e, em 2024, uma campanha de desinformação orquestrada pelo blogueiro foragido Allan dos Santos que levou a Abraji, entidade da qual ela é vice-presidente, a acionar as próprias plataformas digitais para retirada de conteúdo falso. Em nenhum desses episódios anteriores ela deixou de trabalhar, pelo contrário, fez questão de publicamente afirmar, em mais de uma ocasião, que não permitiria que os ataques a impedissem de seguir apurando.

É essa continuidade que torna o anúncio de saída do X um gesto de outra natureza, e é essa mesma continuidade que torna o não cumprimento literal desse anúncio igualmente significativo. Não se abandonou ali o jornalismo, tampouco se abandonou, formalmente, a praça anunciada, o que se abandonou foi a fala dentro dela. A plataforma que o próprio levantamento do Labic identificou como proporcionalmente mais hostil que o Instagram, com taxa de ataque por conteúdo mais de cinco vezes superior, segue ocupada por um perfil que não mais posta. A decisão deixa, assim, de parecer reação emocional a um pico isolado e passa a parecer, quase, um ajuste racional a um risco mensurado, mas é um ajuste incompleto, suspenso entre o anúncio e o ato, que talvez revele mais sobre a ambivalência da própria permanência profissional em uma plataforma hostil do que uma saída definitiva revelaria. Manter a conta e silenciá-la é também uma forma de presença, o perfil arquivado continua funcionando como testemunho público do episódio, ainda que sem alimentá-lo.

Três dias depois do anúncio, em entrevista a veículos de imprensa, Dal Piva relatou que já sabia, ao planejar a cobertura eleitoral de 2026, que precisaria se preparar psicologicamente para reviver traumas acumulados ao longo de sua trajetória profissional. A frase é reveladora porque desloca o centro do problema. Não se trata apenas do que acontece durante a cobertura, mas do que se antecipa antes dela começar. A expectativa de violência já opera como um custo, ainda antes que a violência concreta se manifeste. Levantamento global da UNESCO publicado em 2025 dá contorno estatístico a esse tipo de antecipação, já que quase metade das jornalistas e trabalhadoras de mídia entrevistadas relatou praticar algum grau de autocensura nas mídias sociais em razão da violência online sofrida, e a proporção das que associam os ataques digitais a algum dano concreto fora da tela mais que dobrou desde 2020. O mesmo levantamento registra que a violência tem se sofisticado com o uso de inteligência artificial, deepfakes, imagens manipuladas, disseminação não consentida de conteúdo íntimo, ampliando o repertório de ameaças disponível contra quem investiga. Dal Piva recusou, na mesma entrevista, o rótulo de vítima, afirmando que seu lugar era o de repórter, e essa recusa é ela própria um dado a ser interpretado, não uma conclusão a ser aceita sem questionamento. Pode-se ler nela resistência legítima à captura de sua narrativa por uma moldura vitimizante, pode-se ler igualmente um mecanismo de autopreservação profissional, em um campo onde o rótulo de vítima é frequentemente convertido, por adversários políticos, em munição para deslegitimar o próprio trabalho jornalístico. As duas leituras não se excluem.

É no cruzamento entre esses registros, o quantitativo, o jurídico, o biográfico e o discursivo, que a situação de Dal Piva deixa de ser um episódio isolado e passa a funcionar como o que se poderia chamar de estudo de caso involuntário do que a literatura batizou de efeito inibidor. Esse efeito não se mede apenas pela suspensão da cobertura, como ocorreu com veículos menores que, sob intimidação, decidiram não realizar a cobertura eleitoral de determinadas regiões. Mede-se também, e talvez principalmente, pelas formas mais sutis de reorganização da prática, a escolha de qual plataforma ocupar ou silenciar sem desocupar, o cálculo de qual pauta vale o desgaste, a preparação psicológica antecipada para o trauma que ainda vai acontecer. Nenhum desses ajustes aparece nos números do Labic como um ataque, e, no entanto, todos eles são, em algum sentido, seus efeitos.

Caberia, por fim, resistir à tentação de fechar essa análise em uma fórmula satisfatória. O que a documentação disponível autoriza afirmar, com relativa segurança, é que a violência contra a imprensa nas eleições de 2026 assumiu formas simultâneas – discursiva, jurídica, plataformizada – e que ela se concentrou, de modo desproporcional, em corpos de mulheres jornalistas que investigam o poder, e é por essa mesma concentração que o trabalho, segundo a própria jornalista, continua.

Referências

PAPADOPOULOU, L.; MANIOU, T. A. “SLAPPed” and censored? Legal threats and challenges to press freedom and investigative reporting. Journalism, 26(2), p. 288-306, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1177/14648849241242181.

SAMPAIO-DIAS, S.; SILVEIRINHA, M. J.; GARCEZ, B.; SUBTIL, F.; MIRANDA, J.; CERQUEIRA, C. Journalists are prepared for critical situations… but we are not prepared for this. Journalism Practice, 18(2), p. 301-318, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1080/17512786.2023.2250755.

ZVIYITA, I.; MARE, A. Same threats, different platforms? Female journalists’ experiences of online gender-based violence in selected newsrooms in Namibia. Journalism, 25(4), p. 779-799, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/14648849231183815.

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Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).

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