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Cultura

Morte do debate é homicídio doloso, quando há intenção de matar

Observatório da Imprensa · Por Joao Pedro Malar

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

O debate entre os candidatos à presidência da República, promovido por um grupo de cinco veículos, encabeçado pela Band, no último domingo, já entrou na longa lista de vexames e desserviços entregues pelo jornalismo brasileiro ao longo de 2026. E, dessa vez, vimos a crônica de uma morte anunciada. Morte com intenção de matar.

Há muito já se fala sobre o fim do debate tradicional enquanto formato válido e informativo para o público. A chamada “era da pós-verdade” resultou na banalização e naturalização da mentira, em especial por políticos. A defesa é que não se mente, mas sim se compartilha a “verdade” para combater as “narrativas mentirosas” do adversário.

O resultado é um liberou geral que reverbera, pelo menos, na base conquistada pelo candidato e que tem um consumo de informações enviesado por algoritmos especializados em segregar e radicalizar. Em alguns casos, as mentiras também “furam a bolha” e atraem indecisos ou eleitores de outros candidatos.

Se é verdade que a mentira sempre foi uma estratégia empregada na política, também é verdade que o preço que o candidato paga por mentir agora é praticamente inexistente. Na verdade, parece haver mais um incentivo do que uma punição. Diante da mentira, resta ao outro candidato mudar de assunto ou rebater com fatos, que serão lidos por parte do público como mentiras.

Por tradição, o debate televisivo é avesso às intervenções dos moderadores, que costumam atuar apenas em último caso. Na prática, a dinâmica dá uma licença para mentir sem uma verificação externa, essencial para levar informações verídicas, apuradas e factuais ao público indeciso. Essa é, afinal de contas, a missão do jornalismo.

A morte do debate é, para mim, um homicídio doloso, quando há intenção de matar. Muitos são os culpados. Primeiro, é claro, os próprios políticos, que aderiram à lógica da desinformação com muito afinco, em especial na extrema-direita. Não há como debater sem que os dois lados estejam abertos a debater, e a base de qualquer debate é a verdade. Aqui, portanto, temos a maior causa dessa morte.

Mas não podemos isentar os veículos jornalísticos da sua responsabilidade. O debate tem falhado enquanto formato no Brasil desde 2018, e pouco foi feito para mudá-lo. Na verdade, movimentos como o observado no debate da Band de alterar dinâmicas só pioraram a situação ao invés de melhorar. Em vez de debate, passamos a ter embates.

Para os veículos, os embates dão mais audiência, repercutem mais, geram mais cortes e mais notícias. Comercialmente, é claro, há uma certa lógica pensando em ganho de curto prazo (no longo, os danos reputacionais e suas consequências comerciais sempre parecem ser ignorados). E essa lógica claramente tem pautado o pensamento dessas emissoras.

Entretanto, temos que lembrar do papel público do jornalismo, especialmente importante no caso das emissoras de televisão, cuja concessão na televisão aberta é pública. É obrigação desses veículos prezar pelo interesse público. E o interesse público exige uma mudança na lógica dos debates.

O cerne da mudança é ter mais jornalismo, e não menos, nos debates. Intervenções são bem-vindas e precisam ser mais frequentes. O primeiro passo é adotar uma checagem de fatos ao vivo para as falas dos candidatos, informando ao público mentiras identificadas e, até, punindo candidatos que mintam recorrentemente. A dinâmica representa uma mudança robusta no formato do debate, mas está longe de ser impossível.

O jornalismo já conta com recursos tecnológicos, técnicos e visuais para implementar a checagem em tempo real, essencial para sanitizar os debates. Ressalto, nesse sentido, a valiosíssima iniciativa de discentes e docentes da Escola de Comunicações e Artes da USP que elaboraram um abaixo-assinado detalhando propostas fundamentais para um verdadeiro debate. O projeto se chama  “Confirma Isso Aí” e merece atenção e endosso generalizado.

É claro que os veículos podem argumentar que, se as regras mudarem, os candidatos não irão mais aos debates e o público ficará sem a oportunidade de se informar de qualquer maneira sobre os candidatos. Mas os exemplos recentes de debates mostram que, na prática, o formato já informa pouco, quase nada. E a tendência é piorar. Do ponto de vista de interesse público, chegamos a um triste ponto em que é melhor não realizar o debate do que realizá-lo nas regras e dinâmica atuais.

Mesmo que os veículos ainda resistam à checagem em tempo real, poderiam, ao menos, abrir espaço para mais intervenções dos jornalistas para garantir um certo chão comum para os debates e, principalmente, passar a privilegiar uma dinâmica de perguntas por jornalistas com debate correspondente entre dois candidatos. A dinâmica é a menos pior entre as disponíveis.

A certeza que fica é que, do jeito que está, não dá. Os debates estão somando pouco, quase nada, para o público, e foram esvaziados pelos próprios candidatos, que enxergam o evento apenas como oportunidade para gerar cortes descontextualizados e parciais. Se o debate foi intencionalmente morto, também pode ser intencionalmente revivido. E cabe ao jornalismo liderar esse movimento.

***

João Pedro Malar – professor do curso de Jornalismo da PUC Minas. Doutorando e mestre em Ciências da Comunicação na Escola de Comunicações e Artes da USP, onde também se formou em Jornalismo. Pesquisador do grupo COM+.

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Ler no site da fonte: Observatório da Imprensa ↗