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Meio Ambiente

Manaus sufoca com o ar mais tóxico do mundo

Amazônia Real · Por Kátia Brasil

(há 2 horas)

Publicado originalmente em Amazônia Real ↗ · Uso: CC BY 4.0 nos Termos de Uso; o rodapé das matérias cita CC BY-ND 4.0

Imagem: Amazônia Real

Manaus (AM) –  O sol não apareceu nesta manhã de sábado (17), em Manaus. O céu escuro, encoberto pela névoa de fumaça, deixou a população sufocada, respirando ar perigoso, animais domésticos e silvestres em sofrimento, o pior do mundo. É uma situação recorrente em razão do aumento indiscriminado das queimadas e dos incêndios florestais no Amazonas.

O índice da qualidade do ar marcou 693 AQI+ na plataforma internacional, às 8h02 – horário local – poluição de materiais particulados. Para comparar a insalubridade em Manaus, que tem mais de 2,3 milhões de habitantes,  a qualidade do ar está pior do que em Singapura, a cidade-Estado no Sudeste Asiático: AQI+ 222. 

A fumaça em Singapura é causada por incêndios florestais e em turfeiras na Indonésia (principalmente na ilha de Sumatra e Kalimantan), transportada para a cidade-estado pelos ventos predominantes. 

No Amazonas, a Polícia Federal e a Abin investigam suspeitas de crimes ambientais planejados em grupos de Whatsapp, como um “dia do fogo”, pois brigadistas do Ibama receberam relatos de testemunhas informando que pessoas “tocaram fogo na floresta”. 

A névoa de fumaça na atmosfera “é grave insalubridade”, um risco à saúde pública, alerta o pesquisador da Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, que registrou o índice da qualidade do ar insalubre, às 7h01, na plataforma Selva.

“A cidade de Manaus vive contornos da tragédia ambiental e sanitária dramáticos, pois os valores de MP2.5 [material particulado] são próximos a gravíssimos, 592 por m3 ou cerca de 40 vezes além do tolerável. Este é provavelmente, o pior dia do ano, em termos de fumaça tóxica!”, alertou o pesquisador.

O limite de segurança recomendado pela OMS para 24 horas é de 15 m³. Orellana fez uma orientação à população. “Quem puder fique em casa, com portas e janelas fechadas, especialmente crianças, idosos, gestantes e pessoas com comorbidades respiratórias e cardiovasculares.”

O pesquisador criticou a falta de ação das autoridades estaduais, que não tomaram as providências necessárias para adaptação climática, já que os pesquisadores anunciaram que o mundo sofreria com o fenômeno do super El Niño, além de não equiparem com antecedência as equipes de corpos de bombeiros e brigadistas. 

“A crise climática está cada vez pior e tem parlamentar falando em CPI de Ministro do STF e ignorando esta crise que se repete anos após ano, quase sempre causada por pessoas ligada a atividades agropastoris ou que posteriormente se beneficiam dessa devastação, sem se importarem com suas graves e inaceitáveis consequências”, disse Jesem Orellana.

Morador do bairro da Compensa, na zona oeste de Manaus, o artista visual Vitor Maia, de 31 anos, convive com problemas respiratórios crônicos, incluindo rinite alérgica e bronquite. Ao longo do mês de outubro, ele relata que acordou diversas vezes durante a madrugada sentindo cheiro de fumaça, enjoo e irritação na garganta. Da varanda de sua casa, de onde costuma avistar a ponte Rio Negro, a fumaça densa cobre o horizonte. “Hoje, além desses sintomas, meu coração está palpitando e a visão ardendo. Vejo fumaça dentro da minha casa”, disse.

“Eu estou acordada desde às 3h da manhã, quando senti cheiro forte de fumaça no quarto”, disse Célia Silva, outra moradora do bairro, que apresentou índice de 336,9 m3 de poluição insalubre.

“dias do fogo”?

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Juliana Pesqueira/ Amazônia Real).

  • (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

  • (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

  • (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

  • (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

  • (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

  • (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

  • (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

  • (Foto: Valter Calheiros/Amazônia Real).

Com a estiagem severa e a baixa umidade no Amazonas, o solo e a vegetação da floresta perdem quase toda a água, transformando-se em um combustível altamente inflamável. Qualquer faísca inicia-se um incêndio de grandes proporções na floresta em regiões do sul do estado e na Região Metropolitana de Manaus.

É neste cenário que os incêndios florestais criminosos, registrados desde o mês de setembro, levaram o governo federal a fazer uma espécie de “intervenção” no combate ao fogo diante da negligência do governo estadual. Uma força tarefa do Ibama e ICMBio conta com o apoio de brigadistas da Força Nacional de Segurança e aeronaves das Forças Armadas.

Uma investigação está em curso para apurar suspeita de planejamento deliberado em grupos de Whatsapp para tocar fogo na floresta. O ministro do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, disse que “existe uma suspeita de uma ação organizada, por isso, além de todos que estão aqui, temos a participação da Abin, para verificar se ocorreu em algum momento o chamado “dia do fogo” como no Pará, em que houve uma ação combinada, em 2019, e também houve em São Paulo, em 2024, com incêndios simultâneos, iniciados na mesma hora. Então existe uma suspeita disso e será investigada”, afirmou.

“Não podemos dizer se o ápice [o dia dia do foco] aconteceu. Há uma avaliação, inclusive, com relação com o período eleitoral, então todos os elementos estão em análises e vão ser esclarecidos por essa nova fase que integra toda a inteligência do governo federal e estadual para buscar essas informações”, concluiu o ministro.

Nesta sexta-feira (16), o ministro Capobianco disse que alguns suspeitos já foram identificados pelos crimes ambientais e as prisões podem acontecer em breve. 

“Se nós não punirmos os responsáveis (…), o clima de impunidade tem que ser eliminado, nós não vamos conseguir resolver o problema [do fogo no Amazonas]”, disse o ministro Capobianco.

Qualidade do ar de Manaus às 8:50 do dia 17/10/2026 na captura de tela da plataforma do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (SELVA), marca 537 de AQI+.
Imagem de 16 de outubro de 2026 Inpe satélite Terra mostra os focos de queimadas entre Santarém e Manaus.

De 1º a 17 de outubro, foram registrados, conforme dados do satélite de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), 1.830 focos de queimadas no Amazonas, um aumento de 109% em relação ao mesmo mês em 2025, com 874 focos. 

As cidades do Amazonas que mais queimam são Lábrea, Autazes, Boca do Acre, Itacoatiara, Novo Aripuanã e Maués.

Na comparação anual, de janeiro a outubro, o satélite registrou 8.084 focos de queimadas este ano, uma alta de 78% em relação ao ano passado, que teve 4.545 focos. 

Enquanto o desmatamento caiu em vários estados da Amazônia Legal, mais de 674 mil hectares foram consumidos pelo fogo este ano, no Amazonas, segundo o Ibama.

Essa área devastada equivale 6.740 quilômetros quadrados (km²) – é maior do que o Distrito Federal inteiro, que possui cerca de 5.760 km². 

Os focos de queimadas e imensos incêndios florestais também estão acima do normal no Pará. O estado soma 5.922 focos em outubro, segundo o Inpe, com predomínio em cidades como São Félix do Xingu, Altamira e Itaituba, nas proximidades de Santarém, e Portel.

Na análise da pesquisadora Karla Longo, do Inpe, imagens de sensoriamento remoto mostram grandes queimadas ao longo do trecho entre Santarém, no Pará, e Manaus, no Amazonas, acompanhando a margem do rio, compatíveis com queimadas associadas ao desmatamento. 

“Muita queimada também ao sul de Santarém, queimadas grandes. E essa fumaça que vocês estão vendo é isso. São queimadas de desmatamento. Dá para ver que são plumas bem grandes. São grandes conglomerados de fogos que já ocorrem há dias, de forma permanente”, observou.

As imagens da escala de amarelo a vermelho do mapa postado nesta reportagem indicam onde tem mais fumaça. Em alguns trechos, as imagens de satélite confundem nuvens com fumaça densa.

Ao comparar a situação com um episódio de queimadas em São Paulo, a pesquisadora apontou que a vegetação rasteira pode queimar rapidamente, enquanto áreas de floresta amazônica derrubada acumulam grande quantidade de biomassa, como madeira e galhos, que podem manter o fogo ativo por vários dias. Além disso, a estiagem e as condições climáticas associadas ao El Niño forte favorecem a propagação e a permanência das queimadas.

“Certamente é fogo intencional. O que acontece é que a estiagem e o El Niño forte propiciam as condições para que esse fogo seja colocado e mantido”, afirmou.

Esta reportagem foi produzida com a doação dos leitores na campanha da Amazônia Real para custear matérias sobre clima, política, ameaças aos defensores socioambientais e violações de direitos humanos. É isso que o jornalismo independente e investigativo pode fazer. Faça a sua contribuição pelo PIX: doe@amazoniareal.com.br


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