Lições de democracia na sala de cinema
Observatório da Imprensa · Por Norma Couri
(há 2 horas)
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(Foto: Tima Miroshnichenko/Pexels)
“A democracia é mais forte do que parece” é o título de um artigo da revista The Economist (3/10/26) que analisa o rumo das eleições na América, Israel, França e Brasil. Nefastas, violentas, um gosto pela guerra na boca dos mais votados, as urnas brasileiras, como as outras citadas, também refletem vingança, ódio ao feminismo, um chute nas conquistas de gerações e a máxima “todo poder emana das armas”. O jornalismo ao qual nos acostumamos está sem rumo e perplexo enquanto nas redes sociais a liberdade descamba para um vale-tudo chamuscando iscas de raiva e a democracia se transforma em crueldade. Os ventos de outubro sopram pesado e há muito pouco tempo para refletir e retomar o prumo antes do segundo turno das eleições. Mas outubro traz seu arco-íris: a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
É lá que se pode ver O Outro Lado das Redes antes da estreia oficial. Nele, um repórter do The Wall Street Journal e uma engenheira do Facebook destrincham os impactos negativos da plataforma, deformando com algoritmos a política e o pensamento de milhares de usuários, uma história real. O filme de Aaron Sorkin é apenas um entre os 380 filmes de 93 países que estão disponíveis desde o dia 15 até 29 de outubro em 57 sala de cinema de São Paulo, um privilégio a não perder.
Alívio, aprendizado, cidadania, civilidade, solidariedade, a Mostra neste momento tem vários significados além do extremo bem da arte. Traz os destaques de vários festivais internacionais como os de Cannes, Veneza, Berlim, Locarno, Roterdã, Annecy e Sundance, filmes que nem sempre irão para o circuito comercial. Um panorama mundial refletido nas telas, um microcosmos que estampa a realidade e ajuda a pensar.
Algumas das ofertas de Cannes são a Palma de Ouro, Fjord, do romeno Christian Mungiu sobre a intolerância; A Terra do Meu Pai, do polonês Pawel Pawlikowski, sobre o retorno de Thomas Mann à Alemanha desde que fugiu para o exílio com a ascensão do nazismo; Minotaur, do russo Andrey Zvyagintsev, sobre a guerra russa-ucraniana. Mais atual, impossível. É quando a arte ensina mais que as aulas formais.
De Veneza, por exemplo, vem Musk, de Alex Gibney, quatro horas sobre ele mesmo, Elon Musk, que emitiu várias críticas nas redes sociais incluindo a pérola “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”.
Os documentários têm lugar especial, como Cavalcanti, uma primeira abordagem do cineasta Alberto Cavalcanti, por Jairo Neto e Graubi Garcia. O Outro Lado do Sol é o nome da prisão síria de Sednaya de onde o cineasta TawficSabouni conseguiu sair depois da queda de Bashar al-Assad e voltou ao cativeiro para ouvir quatro sobreviventes.
Vários diretores e produtores estarão presentes dando seus depoimentos que serão lições e alertas. Como o diretor norte-americano James Grey, autor da arte do cartaz e homenageado, que traz entre outros Tigre de Papel, com Adam Driver e Scarlett Johansohn, sobre a cobiça, o meio ambiente, as fraquezas do ser humano. Também o produtor português Paulo Branco, homenageado na Mostra pelo lançamento de filmes de Wim Wenders, e Manoel de Oliveira entre outros, que traz alguns de seus lançamentos como Memórias do Cárcere. do diretor Sergio Graciano, sobre a escandalosa prisão no século XIX de Camilo Castelo Branca e Ana Plácido, presos por adultério.
Os cinquenta anos da Mostra englobam 12 mil filmes que atravessaram a ditadura. Ali era o único lugar de respiro, onde os brasileiros podiam votar. Enfrentou a censura, que na 8ª edição suspendeu a Mostra por quatro dias, além da censura prévia e dos dribles que foi obrigada a dar. Veio o Plano Collor, que secou as reservas do país e dos patrocinadores, mas não secou as exibições. E a pandemia, quando a Mostra se reinventou virtual.
Chegou até aqui graças à persistência e ao pioneirismo de Leon Cacoff, que a criou no MASP e a exibiu pela primeira vez com 23 filmes e 15 mil pessoas na plateia. A Mostra sobreviveu. Hoje a viúva e parceira de Cacoff, Renata de Almeida, exibe a seleção sozinha desde 2012, desafiando o machismo e o desconfiança. Ela conta toda a história num livro a ser lançado este mês. Antes que eu me Esqueça traz histórias inéditas sobre muitos dos cineastas e atores, na época não tão ilustres, que visitaram a Mostra, como Almodóvar, Quentin Tarantino, Abbas Kiarostami, Chiara Mastroianni, e também as agruras, a resistência, as alegrias deste meio século.
Um dos filmes a ser exibido, O Samurai e o Prisioneiro, de Kiyoshi Kurosawa, trata de um drama histórico ambientado no Japão de 1579. O tema é a honra, o poder, os conflitos psicológicos. Enquanto a mídia quebra a cabeça para descobrir onde foi que a esquerda errou, onde a direita mais votada erra, a falta de futuro, de sentido e de vergonha, e os indecisos não sabem para que lado ir, os paulistas têm um rumo certo, além das urnas, neste mês de eleições: a Mostra Internacional de São Paulo para adultos, adolescentes, crianças. E para os indecisos.
O que pode ser melhor neste momento para refletir do que os filmes, a exposição de fotos e cartazes, a conversa com Walter Salles sobre sua série sobre o politizado futebolista Sócrates Brasileiro, o panorama do cinema latino diante da polarização dos governos vizinhos, e a restauração de uma obra-prima do cinema, Aurora de F.W.Murnau de 1927, sobre tentação, culpa e redenção?
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