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Cultura

Leo Dias, exclusividade e autoridade na imprensa de celebridades

Observatório da Imprensa · Por Vanderlei Tenorio

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: https://kaboompics.com/Pexels)

Há uma expressão que aparece com frequência na cobertura de celebridades: “segundo Leo Dias”. À primeira vista, trata-se apenas de uma atribuição de fonte, dessas que resolvem, em três palavras, uma obrigação ética do jornalismo: dizer de onde veio a informação. Mas a repetição da fórmula permite enxergar alguma coisa além da obrigação de procedência.

Quando um nome passa a ser usado como referência por outros jornalistas, sites e páginas que disputam o mesmo público, ele deixa de funcionar apenas como assinatura de quem publicou primeiro. Torna-se uma espécie de endereço. O leitor sabe onde aquela informação começou, mesmo quando chega a ela depois de atravessar outras redações, outros títulos e outras telas.

É nesse ponto que Leo Dias interessa menos como personagem da imprensa de celebridades e mais como fenômeno jornalístico. O que está em questão não é simplesmente saber se ele publica mais ou menos exclusivas, se acerta ou erra determinada informação ou se sua cobertura agrada ou desagrada.

O recorte é outro: compreender como uma assinatura individual pode adquirir autoridade dentro de um ambiente formado justamente por veículos que, em tese, competem entre si pela mesma notícia. A pergunta, portanto, não é apenas quem descobriu primeiro. É o que acontece depois que alguém passa a ser reconhecido como aquele que costuma descobrir primeiro.

A fofoca também tem hierarquia

O jornalismo de celebridades costuma ser tratado como um território menor da imprensa, como se a disputa por uma separação, uma gravidez, uma briga ou uma aparição pública obedecesse a regras completamente diferentes das que organizam a política, a economia ou a cobertura internacional. Talvez seja mais interessante observar o contrário. Também ali existem hierarquias, reputações, fontes preferenciais, disputas por exclusividade e mecanismos de validação.

Nesse ambiente, a autoridade não precisa se apresentar na forma solene de um editorial nem na figura de um especialista reconhecido como autoridade no assunto. Pode aparecer em uma frase curta: “segundo Leo Dias”. A fórmula parece modesta porque atribuir uma informação é uma prática corriqueira do jornalismo. Mas a frequência com que determinado nome é mobilizado pode alterar o significado da própria atribuição. O nome deixa de indicar somente a origem da informação e passa a funcionar como um elemento que orienta a atenção do leitor.

Michel Foucault ajuda a deslocar a questão. Em A ordem do discurso, texto originalmente apresentado como aula inaugural no Collège de France, em 1970, o filósofo francês discute os procedimentos que organizam, controlam e selecionam a produção dos discursos. Entre as questões levantadas está justamente a das condições que permitem que determinados sujeitos ocupem posições reconhecidas de fala. A autoridade, nesse sentido, não depende exclusivamente de quem pronuncia uma frase, mas também do lugar a partir do qual ela é pronunciada e das regras que permitem que aquela fala seja aceita, repetida e legitimada.

Aplicada ao jornalismo de celebridades, a ideia permite observar a autoridade de Leo Dias como uma posição construída dentro de um sistema. Não basta ter uma informação. É preciso que exista uma rede profissional disposta a considerá-la relevante, reproduzi-la, contestá-la ou transformá-la em ponto de partida para novas matérias. A força de uma assinatura depende também do ambiente que a recebe.

O nome que vem antes da notícia

A exclusividade ganha um peso específico nesse sistema. Ser o primeiro a publicar determinada informação não significa apenas chegar antes dos demais. A precedência pode produzir reconhecimento profissional e criar uma expectativa em torno das próximas notícias daquele jornalista.

É possível observar Leo Dias a partir dessa lógica sem precisar transformar cada exclusividade em prova de uma suposta superioridade profissional. Mais interessante é perceber o que acontece depois que uma informação é publicada. Outros veículos podem repercuti-la, contextualizá-la, procurar os envolvidos ou simplesmente registrar que determinado jornalista trouxe aquela notícia. A partir daí, a assinatura original continua circulando mesmo quando o conteúdo já mudou de endereço.

Essa dinâmica produz um paradoxo próprio da concorrência digital. Sites e páginas que disputam audiência podem, ao mesmo tempo, ampliar a visibilidade de um jornalista associado a outro veículo. A necessidade de atribuir corretamente uma informação faz com que a origem seja preservada, e a preservação dessa origem mantém o nome em evidência.

Há, portanto, uma forma de capital profissional que não está apenas na exclusividade, mas na capacidade de fazer com que a exclusividade sobreviva à primeira publicação. O jornalista que se torna referência não precisa aparecer em todas as etapas da circulação. Seu nome já acompanha a notícia.

Quando a assinatura vira marca

A imprensa digital também alterou a relação entre jornalista e instituição. Durante muito tempo, a identidade do veículo funcionou como uma das principais garantias de autoridade. O leitor comprava o jornal, a revista ou acompanhava a emissora e encontrava ali uma estrutura editorial que antecede o repórter.

As redes sociais acrescentaram outra camada. O jornalista pode carregar consigo uma audiência, uma reputação e uma identidade que não desaparecem necessariamente quando muda de veículo. A assinatura ganha vida própria.

No jornalismo de celebridades, essa transformação é visível porque o próprio objeto da cobertura é organizado em torno de nomes. O público acompanha pessoas, e o jornalista que cobre essas pessoas pode acabar também convertido em uma figura reconhecível da notícia. A fronteira entre quem noticia e quem é acompanhado pelo público fica menos rígida.

É possível interpretar a presença de Leo Dias nesse ambiente como parte desse processo. Seu nome pode funcionar não apenas para identificar o autor de uma reportagem, mas para sinalizar um determinado tipo de informação: a notícia de bastidor, a exclusividade, o relato antecipado.

Nesse caso, a assinatura adquire uma função editorial própria. Antes de o leitor conhecer o conteúdo, já conhece, ou acredita conhecer, alguma coisa sobre o tipo de conteúdo que encontrará. A marca pessoal, então, não substitui o veículo. Ela passa a disputar espaço com ele.

O que acontece quando todo mundo reproduz?

É aqui que surge uma questão mais delicada. A circulação de uma informação por vários veículos pode dar ao leitor a impressão de que aquela informação foi confirmada diversas vezes. Mas quantidade de publicações e quantidade de apurações são coisas diferentes.

Uma notícia pode nascer em um único lugar e, em poucas horas, aparecer em portais, redes sociais, vídeos e programas de televisão. O conteúdo se multiplica, mas sua origem permanece a mesma. Se os veículos seguintes não realizaram uma apuração independente, a repetição não acrescenta necessariamente uma nova camada de comprovação.

Esse mecanismo pode ser especialmente relevante no jornalismo de celebridades, em que a velocidade costuma ter grande peso. A notícia que chega primeiro estabelece um ponto de partida para as demais. Quem vem depois pode acrescentar detalhes, ouvir os envolvidos, confirmar a informação ou simplesmente repercutir o que já foi publicado. Para o leitor, porém, todas essas operações podem chegar misturadas na mesma corrente de notícias.

A questão não é exigir que toda publicação seja uma investigação independente. A atribuição de fonte é uma prática legítima e necessária. O problema aparece quando a circulação é confundida com confirmação. “Segundo Leo Dias” informa a origem de uma notícia; não resolve, sozinho, a questão de sua veracidade.

Essa distinção também ajuda a compreender a própria natureza da autoridade. Ser uma fonte reconhecida explica por que uma informação recebe atenção. Não significa que cada informação publicada por essa fonte esteja, por definição, confirmada.

Quem autorizou Leo Dias a saber primeiro?

Talvez essa seja a pergunta mais interessante porque não existe, provavelmente, um momento preciso em que alguém tenha concedido essa autorização. A autoridade jornalística raramente funciona como um título formal. Ela se acumula.

Uma informação exclusiva pode gerar repercussão. A repercussão aumenta o reconhecimento do jornalista. O reconhecimento faz com que seu próximo conteúdo seja observado com mais atenção. E essa atenção facilita novas circulações. Não é necessário supor uma estratégia coordenada para que esse mecanismo exista. Ele pode surgir da própria rotina de um mercado no qual velocidade, audiência e novidade têm alto valor.

É nesse ponto que o caso Leo Dias permite voltar a Foucault. A pergunta deixa de ser se o jornalista possui, individualmente, uma autoridade natural para falar sobre celebridades. Interessa observar como essa autoridade é produzida por uma rede que envolve fontes, redações, concorrentes, plataformas e público. A posição de autoridade não está apenas naquele que fala. Está também nas relações que fazem sua fala circular de determinada maneira.

Isso torna a frase “segundo Leo Dias” mais interessante do que ela parece. Ela identifica uma fonte, mas também registra uma posição dentro do campo jornalístico. Quando diferentes veículos recorrem ao mesmo nome para localizar a origem de uma informação, ajudam a estabelecer uma hierarquia de fontes, ainda que não tenham a intenção de fazê-lo.

No fim, talvez a questão não seja descobrir quem autorizou Leo Dias a saber primeiro. É entender como o jornalismo de celebridades constrói seus próprios autorizados.

Porque uma assinatura pode começar como o nome de quem publicou uma notícia e, depois de circular o suficiente, passar a funcionar como parte da própria notícia. É nesse intervalo, entre a autoria e a autoridade, que o caso de Leo Dias se torna um pequeno laboratório para observar como a imprensa decide, todos os dias, quem merece ser ouvido primeiro.

Referência

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

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Vanderlei Tenório é jornalista e professor de atualidades, com atuação no Brasil e em Portugal.

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