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Meio Ambiente

Ibama identifica uso do fogo para ampliar desmatamento e pastagens no Amazonas

Amazônia Real · Por Nicoly Ambrosio

(há 2 horas)

Publicado originalmente em Amazônia Real ↗ · Uso: CC BY 4.0 nos Termos de Uso; o rodapé das matérias cita CC BY-ND 4.0

Imagem: Amazônia Real

Manaus (AM) –  Os incêndios florestais no Amazonas são utilizados para degradar a floresta e consolidar o desmatamento ilegal, segundo Jair Schmitt, presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Em entrevista exclusiva à Amazônia Real concedida nesta terça-feira (13), Schmitt declarou que há indícios de que o fogo é provocado de forma criminosa em diferentes áreas do estado para limpar terrenos e ampliar pastagens destinadas à pecuária.

“Praticamente todo incêndio que tem ocorrido aqui no Amazonas é de origem humana. Mas o que a gente tem percebido é que várias propriedades e mesmo em áreas públicas, está sendo colocado fogo deliberadamente para degradar a floresta e depois transformar isso em desmatamento. Normalmente para atividade pecuária, é o mais comum. As pessoas desmatam para a criação de gado na região”, disse.

A crise de queimadas e incêndios florestais no Amazonas levou o governo federal a reconhecer a situação de emergência em 36 municípios no dia 10 de outubro. No domingo (11), por volta das 14h, o presidente do Ibama sobrevoou áreas atingidas pelos incêndios florestais ao lado do ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, e do ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes. 

O voo partiu da Base Aérea de Manaus, na zona sul da cidade, e flagrou áreas críticas de queimadas no centro-leste do Amazonas, entre a capital e a divisa com o Pará, e no sul do estado, uma região que faz parte da expansão da fronteira agropecuária e é considerada uma das principais áreas críticas do arco do desmatamento na Amazônia Legal. 

“Autazes, Careiro da Várzea, Urucurituba, Itacoatiara e Parintins são os municípios com áreas mais críticas de incêndios. E no sul do estado, em Lábrea, Borba, Humaitá, Boca do Acre, Apuí, também são regiões sensíveis com ocorrência de incêndios”, afirmou Schmitt.

No sobrevoo, foram identificadas áreas recém-desmatadas, com árvores derrubadas e vestígios de madeira, além de incêndios avançando para o interior da floresta amazônica, inclusive em locais de difícil acesso. Schmitt também relatou que os incêndios florestais alcançaram terras indígenas no Amazonas, incluindo a Terra Indígena Andirá-Marau, do povo Sateré-Mawé, na divisa com o Pará, e outras áreas indígenas na região de Autazes, onde vive o povo Mura. 

A possível identificação dos responsáveis e a comprovação de eventuais crimes ambientais, no entanto, dependem da apuração de cada ocorrência. 

“A origem antrópica e qualquer crime de vegetação sem autorização, por si só já é um crime ambiental. A floresta úmida normalmente não queima nada, mas com as condições climáticas adversas e a floresta mais seca, está mais suscetível, tiram  parte dessa vegetação e depois que seca, colocam fogo”, explicou o presidente do Ibama.

Além do uso criminoso do fogo pela ação humana, a combinação de estiagem severa e a escassez de chuvas associada ao Super El Niño intensifica as chamas. De 1º a 13 de outubro, o Amazonas registrou 1.608 focos de queimadas, uma alta de 84% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 874 focos, segundo dados atualizados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Enquanto o Amazonas queima, municípios do interior e Manaus continuam sob uma névoa densa de fumaça, com episódios de poluição atmosférica que deixam a qualidade do ar em níveis considerados péssimos. Às 5h58 da manhã desta quarta-feira (14), o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), registrou concentração acima de 150 µg/m³ de material particulado fino (PM2,5) na região central da capital amazonense.

Diante dos índices críticos de qualidade do ar em Manaus, as atividades escolares da rede municipal de ensino permanecem suspensas em caráter “preventivo e visa preservar a saúde, a segurança e o bem-estar dos estudantes, profissionais de educação e de toda a comunidade escolar, reduzindo exposição a fumaça”, diz um trecho da Prefeitura de Manaus em nota divulgada nesta quarta-feira (14). Eventos esportivos e atividades ao ar livre também foram cancelados para proteger a população.

Propriedades rurais notificadas 

Desmatamento no município de Autazes, região com mais focos de incêndio (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

Em resposta à crise, o Ibama notificou  725 propriedades rurais no Amazonas consideradas de maior risco de incêndio, após dois meses de cruzamento e análise de informações. Os imóveis estão localizados nos municípios de Boca do Acre, Apuí, Humaitá e Manicoré, no sul do estado, além de Autazes e Careiro da Várzea, na região metropolitana de Manaus. 

Os proprietários foram notificados a adotar medidas preventivas e alertados de que os imóveis serão submetidos a monitoramento específico pelo Ibama. 

“Nossas equipes, além de ter feito a notificação, agora estão fazendo vistorias presenciais para verificar se tem algum incêndio ou qualquer queima e quando constatada qualquer irregularidade, essas pessoas serão multadas, a área será embargada e qualquer produto queimado ilegalmente poderá ser apreendido”, disse Jair Schmitt.

Questionado sobre a possível sobreposição dos imóveis com unidades de conservação, terras indígenas e outras terras públicas, Schmitt explicou que a situação precisa ser verificada individualmente. Segundo ele, todas as propriedades notificadas são privadas e possuem registro no Cadastro Ambiental Rural (CAR). “É possível que algumas estejam, outras não, vai ter que analisar caso a caso”, afirmou.

Força-tarefa 

Combate ao fogo na região de Autazes, região com mais focos de incêndio (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

Desde junho, o Ibama extinguiu 292 incêndios no Amazonas, mas com o avanço dos focos neste mês de outubro, uma força-tarefa foi mobilizada para atuar nas localidades mais impactadas pelo fogo. Segundo Jair Schmitt, são mais de 300 brigadistas e agentes de fiscalização trabalhando para combater o fogo. “Esse número ainda deve ser ampliado nos próximos dias, devemos passar para 350 profissionais”, confirmou o presidente do Ibama.

A operação do Ibama conta ainda com seis aviões do modelo Air Tractor, utilizados no lançamento de água, e três helicópteros do Ibama, empregados no apoio logístico, na fiscalização e no combate direto aos incêndios. Também há uma aeronave Caravan para apoio logístico e dois aviões KC-390 Millennium, da Força Aérea Brasileira (FAB), que começaram a atuar na operação na segunda-feira (12).  O cargueiro KC-390 é capaz de lançar 12 mil litros de água pressurizada em um único voo.

Jair Schmitt afirmou ainda que o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) já desenvolviam ações preventivas no Amazonas, incluindo campanhas educativas, notificações e fiscalizações. Com o agravamento da situação, os órgãos federais reforçaram a atuação no estado.

“Após a declaração de emergência também pelo governo do estado em relação aos incêndios florestais, outras providências do governo federal têm sido adotadas para poder apoiar a população local diante dos incêndios florestais. Nossa equipe está toda comprometida, trabalhando para controlar esses incêndios e trazer tranquilidade à população de Manaus e do Amazonas como um todo”, declarou Schmitt. 

Pouca chuva favorece incêndios

Vista do lago seco do Cacau Pirêra, antigo porto neste feriado de 12 de outubro (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real).

O cenário é de pouca chuva no Amazonas, agravando o período de estiagem. Em análise enviada à Amazônia Real, a equipe do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou que a previsão para o restante do mês de outubro indica precipitações abaixo da média em grande parte do estado, com déficits que podem chegar a 50 milímetros no acumulado mensal.

Para o trimestre de novembro de 2026 a janeiro de 2027, a previsão climática indica chuvas abaixo da média nas regiões sudoeste, sudeste e leste do Amazonas, com déficits de até 100 milímetros no acumulado do período.

“As temperaturas elevadas, a baixa umidade do ar e os períodos prolongados sem chuva significativa favorecem o ressecamento do solo e da vegetação. A vegetação seca torna-se mais combustível, facilitando a propagação dos incêndios, que também pode ser intensificada pela ação dos ventos”, ressaltou o Inmet.

Segundo o instituto, a ausência ou irregularidade das chuvas reduz a remoção das partículas de fumaça da atmosfera, e quando há pouca ventilação, essas partículas  podem permanecer por mais tempo sobre Manaus e outros municípios, prejudicando a qualidade do ar. “Os ventos também podem transportar fumaça de queimadas ocorridas em outras localidades, afetando áreas distantes dos focos de incêndio”.

R$ 45 milhões para combate ao fogo

Fumaça que encobre Manaus desde o fim de setembro (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real/10/10/2026).

O governo do Amazonas tem R$ 45 milhões contratados por meio do Fundo Amazônia para o projeto ProAmazon, destinado a ampliar a estrutura do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM). A execução do projeto está prevista até 5 de dezembro de 2028.

As informações sobre a destinação dos recursos foram fornecidas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) à Amazônia Real, com base em dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável pela gestão do fundo.

Do orçamento total do ProAmazon, R$ 29,9 milhões estão previstos para a aquisição de veículos e R$ 10 milhões para a construção de bases operacionais em Borba, Humaitá e São Gabriel da Cachoeira. Outros R$ 3,1 milhões serão destinados a equipamentos de proteção individual, R$ 1,4 milhão a máquinas e equipamentos e R$ 625 mil a materiais de combate a incêndios. A capacitação de brigadistas será custeada como contrapartida do governo estadual.

Apesar de o projeto prever R$ 10 milhões para as bases operacionais, o MMA informou que, até a prestação de contas mais recente mencionada pela pasta, o governo estadual ainda não havia solicitado o repasse desse valor.

Repasses e execução dos recursos federais

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco e o presidente do IBAMA, Jair Schmitt, se reúnem em Manaus com autoridades locais para discutir o combate aos incêndios no Amazonas (Foto: Rogério Cassimiro/MMA/11/11/2026).

Dos R$ 45 milhões contratados, o MMA informou que o Fundo Amazônia já transferiu R$ 34,7 milhões ao governo do Amazonas, em duas parcelas: R$ 21,5 milhões em 17 de janeiro de 2025 e R$ 13,2 milhões em 13 de março de 2026. Os R$ 10,3 milhões restantes serão liberados conforme a execução do projeto e a aprovação das prestações de contas.

Na prestação de contas mais recente citada pelo MMA, com informações até dezembro de 2025, o governo estadual declarou ter aplicado R$ 19,4 milhões dos R$ 21,5 milhões recebidos na primeira parcela, o equivalente a aproximadamente 90% do valor. Esse balanço não inclui a segunda parcela, transferida em março de 2026.

“O montante cobre 5 auto bombas tanque florestais, 16 caminhonetes com kits acopláveis e 453 conjuntos de capacete, botas e luvas. Naquela data, os veículos estavam em fabricação. A aplicação da segunda parcela constará da prestação de contas prevista para o fim de 2026”, esclareceu a pasta.

O acompanhamento dos gastos é feito pelo BNDES, por meio de relatórios técnicos e prestações de contas acompanhadas de comprovantes das despesas. “Cada nova parcela só é liberada depois da comprovação da anterior”, concluiu o ministério.

No dia 10 de outubro, a reportagem procurou o Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), para esclarecer se os recursos foram utilizados e qual a sua destinação. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Desmatamento e queimadas na região de Autazes, AM (Foto: Rogério Cassimiro/MMA).

  • Fumaça que encobre Manaus desde o fim de setembro (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real).

Esta reportagem foi produzida com a doação dos leitores na campanha da Amazônia Real para custear matérias sobre clima, política, ameaças aos defensores socioambientais e violações de direitos humanos. É isso que o jornalismo independente e investigativo pode fazer. Faça a sua contribuição pelo PIX: doe@amazoniareal.com.br

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