IA é usada em 25% das imagens ofensivas contra candidatas no X
Núcleo Jornalismo · Por Jeniffer Mendonça
(ontem)
Publicado originalmente em Núcleo Jornalismo ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0 (programa de republicação para veículos de jornalismo)


Levantamento do MonitorA revela que uma a cada quatro imagens ofensivas direcionadas à candidatas no X teve uso de inteligência artificial, apesar de o Tribunal Superior Eleitoral proibir a utilização do recurso para perpetuar violência política de gênero.
Das 9.888 imagens avaliadas em comentários feitos em perfis de 132 candidatas, 660 apresentavam insultos e ataques. A partir desse conteúdo agressivo, o MonitorA identificou 165 imagens que indicavam uso de IA. Foram coletadas 9.393 postagens na rede social somando dois períodos: de 16 a 24.ago.2026 e de 2 a 11.set.2026.
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MonitorA é o observatório de violência política de gênero nas redes sociais durante as eleições, uma parceria entre InternetLab, Núcleo e Instituto Democracia em Xeque. Esta é a quarta edição do projeto, fundado em 2020 com a participação do Instituto AzMina.
O monitoramento também verificou 1.249 imagens postadas via comentários no TikTok no período, mas não localizou conteúdo ofensivo, além de que parte do material ficou indisponível logo após a coleta, o que inviabilizou a análise.
Esta é a primeira edição do projeto que inclui a avaliação de figuras, como desenhos, montagens, ilustrações, charges e similares. Nossa primeira reportagem observou e abordou tanto conteúdos textuais quanto visuais nos comentários ofensivos. Nesta segunda análise, o foco é exclusivamente sobre o teor das imagens.
Para a coordenadora do InternetLab, Catharina Vilela, a utilização de montagens mais rudimentares sempre ocorreu, mas a popularização do uso da IA no Brasil pós-2022 facilitou esse processo. "O objetivo é ofender, é de gerar violência. Virou mais um mecanismo para materializar um ataque", explica.
Isso se dá porque o recurso não é utilizado para gerar uma imagem realista das candidatas nem disseminar uma informação falsa: a ferramenta auxilia na produção do conteúdo ofensivo, como criação de charges, cartoons, montagens e ilustrações.
A deputada Marina Silva (Rede), que postula uma vaga no Senado por São Paulo, ainda lidera o ranking de ofensas, e o uso da IA nas imagens agressivas se dá especialmente para manipular suas características físicas, ao transformá-la em figuras como alienígena, bicho-preguiça e dinossauro, por exemplo, com a finalidade de desumanizá-la e inferiorizá-la.
Outro exemplo é o caso da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), que busca a reeleição, e aparece atrás de Marina. O MonitorA identificou que, das 111 imagens ofensivas direcionadas à ela, 70,6% dos ataques eram gordofóbicos.
Neles, a parlamentar tem suas fotografias com as proporções corporais alteradas para ridicularizar sua aparência, além de casos em que aparece segurando hambúrgueres ou um pepino é colocado na sua boca artificialmente. A situação faz referência a um episódio de 2023, quando o deputado federal Tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS) perguntou, em tom irônico, à Sâmia se ela queria um hambúrguer "para se acalmar", durante uma reunião da CPI do MST.
O monitoramento também identificou comentários que apenas enviavam figuras de hambúrgueres o que, para Vilela, demonstra que os agressores buscam novas linguagens, que exigem o conhecimento de um contexto, para driblar a moderação sem recorrer a um conteúdo explicitamente violento.
Um ponto que chama a atenção é que as três candidatas que mais receberam imagens ofensivas postulam cargos em São Paulo. Além de Marina e Sâmia, está a deputada Erika Hilton, que tenta se reeleger pelo PSOL e recebeu imagens de cunho transfóbico.
A maioria das publicações continha figuras que remetiam a pênis, simulação de agressão com uso de charges criadas por IA, uso de uma cena em que aparece Sophie Cunningham, jogadora de basquete norte-americana envolvida em um episódio de transfobia nos Estados Unidos, para descredibilizá-la, além de figuras que contestam a sua negritude e são racistas, com sugestões de que ela teria "tomado banho" após ser eleita.

A pesquisadora do InternetLab sinaliza que o estado, além de ter o maior colégio eleitoral, historicamente acaba nacionalizando o debate.
"A gente percebe que São Paulo acaba tendo mais visibilidade e, desde a última edição do MonitorA, em 2024, apesar de ser eleições para prefeitura, a gente percebe que muitas pessoas, não só os eleitores do estado, interagem com os candidatos nas redes sociais", afirma.
Como é feita a análise do MonitorA
Para esta análise, foram avaliadas 11.137 imagens, sendo 9.888 no X e 1.249 no TikTok, publicadas nos comentários dos perfis de 132 candidatas, em dois períodos: de 16 a 24.ago.2026 e de 2 a 11.set.2026. No primeiro período, foram analisadas 7.474 imagens e, no segundo, 3.663.
Além disso, o levantamento ampliou a amostra de candidatas, de 60 para 132, para incluir as monitoradas pelo projeto Rotulando a IA, do Instituto Democracia em Xeque, que realiza a coleta de dados do MonitorA.
A expansão ocorreu a partir da identificação de candidatas relevantes para esta edição que não haviam sido contempladas no recorte inicial, como Sâmia Bomfim e Júlia Zanatta. Essas candidatas não constavam na primeira amostra porque, para garantir representatividade nacional, o MonitorA seleciona apenas três candidatas a deputada federal e três a deputada estadual por estado, considerando critérios de diversidade racial, identidade de gênero e posicionamento político.
Essa mudança impõe algumas limitações às comparações com os resultados apresentados na primeira semana. Isso porque, embora as imagens das novas candidatas tenham sido analisadas retroativamente, os comentários em textos analisados na primeira reportagem não foram incorporados à análise.
Assim, os universos considerados para imagens e comentários textuais são distintos, o que afeta, por exemplo, a identificação das candidatas que concentram o maior número de ataques e limita comparações diretas entre os resultados dessas duas frentes de análise.
A análise das imagens foi feita manualmente por uma equipe de sete pessoas que avaliou: (i) se o conteúdo era negativo; (ii) a quem era direcionado; (iii) nos casos de conteúdo negativo, se era ofensivo contra a candidata; (iv) nos casos ofensivos, se configurava insulto ou ataque; e (v) nos casos classificados como ataque, qual era o tipo de violência identificado.
Adicionalmente, foram utilizadas duas ferramentas de clusterização de imagens, Collection Space Navigator e Image Sorter, para identificar padrões e similaridades entre as imagens, contribuindo para orientar e subsidiar a avaliação manual.
Assim como nos comentários textuais, observatório também passou a separar os comentários negativos em duas categorias:
- insultos: conteúdos que utilizam linguagem hostil e mais dura do que uma simples crítica, mas que não mobilizam diretamente desigualdades relacionadas a gênero, raça, região, religião ou sexualidade. São ofensas que, em princípio, podem ser direcionadas de forma semelhante a diferentes grupos e, por isso, não são consideradas pelo MonitorA como conteúdos que necessariamente deveriam ser removidos pelas plataformas.
- ataques: caracterizam-se pela tentativa de inferiorizar candidatas e candidatos com base em características associadas a grupos historicamente marginalizados. Nesses casos, as ofensas mobilizam marcadores como gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência, religião ou outros elementos utilizados para deslegitimar e desmoralizar determinados grupos. Por seu caráter discriminatório, consideramos que esses conteúdos deveriam ser removidos pelas plataformas.
O MonitorA ainda fará uma avaliação sobre o Instagram.
Por outro lado, o levantamento também localizou outras figuras explicitamente misóginas. No caso da deputada federal Júlia Zanatta (PL-SC), que disputa a reeleição, o MonitorA identificou que as imagens ofensivas dirigidas à ela subiram de quatro, na primeira semana, para 72 na segunda semana de análise.
O crescimento ocorreu especialmente após a viralização de um vídeo publicado pela própria candidata, em 2014, antes de ingressar na política, durante uma viagem a Ibiza, na Espanha, no qual aparece uma mulher dançando e que foi republicado diversas vezes em diferentes redes sociais.
Em 8.set, o Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina determinou a retirada dessas publicações do ar. Segundo a decisão, as imagens da dançarina são verdadeiras, mas não retratam Zanatta. A candidata confirmou que fez a gravação, mas disse que não era a mulher. As legendas das publicações lhe atribuíam a participação no vídeo, o que a Justiça considerou informação falsa.
As imagens ofensivas contra ela concentram-se, em sua maioria, em dois eixos. O primeiro sugere que ela seria uma "falsa conservadora", em referência a um suposto passado da candidata. Em alguns casos, as imagens eram acompanhadas de comentários em texto, como "Cansei de putari@, agr sou conservadora".
Já o segundo eixo tinha caráter de assédio sexual e sexualização da candidata. Nesses casos, eram publicadas imagens de Zanatta de biquíni, acompanhadas de elementos que sugeriam ou insinuavam interesse sexual por ela. A própria parlamentar, em 7.set., chegou a se manifestar de forma irônica no X: "Pessoal, parem de resgatar fotos minhas de 2016 porque assim eu vou ser a mais votada de SC 👍 ".
Apesar de o comentário não expressar explicitamente um repúdio aos conteúdos, Vilela alerta que as imagens se caracterizam como violência política de gênero por objetificar e sexualizar o corpo da candidata.
No caso dela e das demais candidatas monitoradas, não foi identificado uso de deepfake de nudez. A coordenadora do InternetLab também ressalta que a limitação da amostra não permite saber se possíveis deepfakes sexuais estejam sendo moderadas mais rapidamente no X, devido ao decreto 12.976/2026, que determina que conteúdo íntimo divulgado sem consentimento seja excluído em até duas horas após a notificação, ou se não foram de fato utilizadas contra as candidatas.
O que diz a lei
Em 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet e estabeleceu novos parâmetros para a responsabilização das plataformas por conteúdos publicados por terceiros. Entre as mudanças está a introdução do dever de cuidado em situações de falha sistêmica relacionadas a determinados conteúdos ilícitos graves, incluindo crimes de ódio e violência de gênero.
Em 2026, esse processo ganhou um novo capítulo com o decreto nº 12.976, publicado em maio e em vigor desde 20 de julho, que estabelece diretrizes específicas para a proteção das mulheres na internet e para o enfrentamento da violência contra as mulheres no ambiente digital. A norma detalha os deveres das plataformas relacionados à prevenção, identificação e indisponibilização de conteúdos ilícitos contra mulheres e estabelece parâmetros para sua responsabilização em casos de falha sistêmica.
Em resolução publicada em mar.2026, o TSE proibiu a veiculação de postagens que proliferem violência política contra a mulher durante nas eleições. Ainda que o uso de deepfakes já fosse vedado na resolução de 2024, o tribunal passou a deixar claro que isso também inclui a criação de deepfakes sexuais e de nudez de candidatos e candidatas e de peças de publicidade geradas por IA que promovam violência política contra a mulher.
Ainda no espectro da extrema-direita, das 30 imagens ofensivas direcionadas à candidata Vanessa Silva, conhecida como Negona do Bolsonaro e que busca uma cadeira na Câmara dos Deputados pelo PL no Rio de Janeiro, 70% dos conteúdos eram racistas.
As figuras faziam associações a negros escravizados, a cenas de filmes que também retratavam a época, especialmente personagens como capitão do mato, e memes com textos ofensivos.
"Enquanto para a Zanatta os ataques questionam se ela é conservadora o suficiente em relação à vida dela e a sexualizam, com relação à Negona do Bolsonaro a centralidade é a raça dela, de como uma mulher negra você não deveria estar nessa posição, e também um pouco essa associação ao nojo, uma pessoa sebosa", explica Catharina Vilela. "São duas candidatas que são de direita, mas que são atacadas de forma completamente diferente a partir dos marcadores sociais que elas carregam".
STF "sequestra" pauta eleitoral
Em 1.set, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que continha trocas de mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao ministro Alexandre de Moraes.
A divulgação deu início a uma sequência de embates entre integrantes da Corte, que se intensificou nos dias seguintes com pedidos de investigação e decisões conflitantes entre ministros. A crise ganhou ampla repercussão política e midiática, deslocando parte da atenção que, nas primeiras semanas da campanha, estava concentrada nas candidaturas e nas pautas diretamente relacionadas à disputa eleitoral.
Nos comentários analisados pelo MonitorA, havia publicações direcionadas ao STF. Na primeira semana de análise (entre 16 e 24.ago), apenas 0,99% das imagens coletadas faziam menção à Corte e a seus ministros. Já na segunda semana (2 a 11.set), 24,4% da coleta. Ou seja, um aumento de 2.368% na proporção de imagens com menções ao STF entre os dois períodos analisados. A maioria dos conteúdos eram de teor negativo.
Com a centralidade do STF no debate, passaram a circular imagens, em sua maioria produzidas com IA, que associavam as candidatas Marina Silva e Simone Tebet (PSB) a Alexandre de Moraes e ao STF. Para Vilela, "a recorrência dessas associações reforça a hipótese de que parte dos ataques dirigidos às candidatas ao Senado esteja relacionada às disputas em torno de processos de impeachment e da indicação de ministros para a Corte".
Na primeira semana de campanha, o MonitorA identificou que 63% dos ataques e insultos foram feitos contra candidatas ao Senado.
Reportagem Jeniffer MendonçaArte e gráficos Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico