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Focos de incêndio na Amazônia dobram na semana após o primeiro turno

Repórter Brasil · Por Diego Junqueira

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Repórter Brasil ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0 (conteúdo jornalístico)

Imagem: Repórter Brasil

DE NOVO PROGRESSO (PA) — A Amazônia Legal registrou 3.695 focos de calor na semana seguinte ao primeiro turno das eleições, quase o dobro dos 1.854 contabilizados na semana anterior à votação, segundo dados de satélite do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O aumento se concentra em áreas do Amazonas e do Pará e ocorre no momento em que o El Niño contribui para secar a floresta.

Queimadas nessa região não são incomuns nessa época do ano, mas o aumento chamou atenção de pesquisadores. “Isso não é fora do normal. Mas o que a gente tem visto é o aumento vertiginoso do número de focos depois do primeiro turno”, diz a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

A Repórter Brasil esteve na região de Novo Progresso, no oeste do Pará, na semana passada, e se deparou todos os dias com a fumaça ao longo da BR-163, conhecida como “rodovia da soja”.

Nas Terras Indígenas Menkragnoti e Baú, o povo Kayapó acompanha com preocupação o avanço do fogo e do desmatamento no entorno dos territórios. Nas quatro aldeias visitadas pela reportagem, moradores disseram temer que a eleição de políticos de extrema direita deem combustível a quem busca avançar sobre terras indígenas e reservas ambientais.

Para o cacique Bepdjô, da aldeia Baú, Flávio irá permitir que garimpeiros entrem em seus territórios e que suas terras sejam destruídas. Ele diz que não quer que Flávio seja eleito, pela segurança de seu povo.

A reportagem também encontrou fazendeiros tentando conter focos de incêndio em suas propriedades. Um deles contou, sob anonimato, que o fogo já tinha destruído cercas e porteiras e que tinha medo de perder o gado. 

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Amazonas e Pará são os estados mais afetados

Alencar cita os municípios no entorno de Manaus (AM), a região de Santarém (PA), o trecho da BR-163, a Terra do Meio e alguns municípios da Transamazônica, no Pará, como as principais regiões afetadas pelo fogo neste mês. 

O fenômeno climático El Niño, que aquece as águas do Oceano Pacífico e tende a reduzir as chuvas na Amazônia, contribui para a secura da região. Segundo a pesquisadora, mapas de anomalia de seca mostram que as regiões de Santarém, de Manaus e mais ao norte, em Roraima, já enfrentam escassez hídrica importante, uma situação que deve piorar nos próximos meses.

Esse é também o período em que produtores recorrem ao fogo para queimar e renovar pastagens. “Se as pessoas estão usando fogo, isso vai ter um impacto na propagação desse fogo, então vai ter um risco muito maior de incêndios florestais”, alerta. Para a pesquisadora, é preciso reduzir o uso do fogo agora, “onde a vegetação vai estar mais suscetível”, para evitar que “a gente realmente perca o controle e isso se espalhe”. 

Mas os especialistas apontam que atividades criminosas também contribuem para as atuais queimadas. “[Focos apareceram] principalmente na margem direita do rio Amazonas, bem em frente a Manaus, em áreas principalmente de floresta e em áreas públicas”, ressalta Alencar. “Isso indica um processo de ocupação, de tentativa de ocupação, de grilagem [de terras].”

O ministro interino do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, também descartou a hipótese de que o problema se resuma ao fogo que escapa de pastagens. “Não se trata apenas daquele fogo que foi colocado em pastagem e adentrou a floresta. Isso é muito comum, ocorre muitas vezes, porque o fogo vai rapidamente entrando por baixo da floresta, danificando a floresta”, afirmou. “As autoridades observaram que essa extrema gravidade se dá com a atuação criminosa na floresta amazônica, onde inúmeros focos foram identificados dentro da floresta preservada.”

Segundo a Agência Brasil, o governo federal investiga se há uma organização coordenada como ocorreu em 2019, quando houve um aumento expressivo de focos de incêndios na Amazônia conhecido como “Dia do Fogo“.

Para Tarcísio Feitosa, da Coalizão Florestas e Finanças, o histórico de impunidade contribui para novos focos. “Esses eventos de queimadas e incêndios criminosos aconteceram nos anos passados também e não houve um efetivo processo de levar esses criminosos à Justiça. Ou seja, a impunidade continua reinando neste cenário.”

Colaboraram Bruna Borges e Paula Bianchi

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