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Flávio Bolsonaro pode assistir de camarote derrota de Trump nas eleições dos EUA

Agência Pública · Por James Green

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Agência Pública ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0

Imagem: Agência Pública

Na terça-feira, 3 de novembro, até 200 milhões de eleitores registrados poderão ir às urnas nos Estados Unidos para votar em todos os 435 membros da Câmara dos Representantes, 33 senadores, 36 dos 50 governadores, além de integrantes de legislaturas estaduais e locais. As pesquisas indicam que Donald Trump e o Partido Republicano têm grandes chances de sofrer uma derrota acachapante, perdendo o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, do Senado. O apoio ao presidente está em queda em todas as questões. Segundo a revista The Economist, apenas 34% dos entrevistados aprovam a presidência de Trump, enquanto 61% se opõem às suas políticas.

Analistas políticos estão divididos sobre se ocorrerá uma “onda azul” (cor associada aos Democratas pelos veículos de imprensa desde as eleições de 2000) ou um verdadeiro tsunami eleitoral, ainda mais poderoso. De qualquer forma, a possível perda do controle democrata da Câmara — e, talvez, do Senado — deixará Trump vulnerável a investigações parlamentares voltadas a limitar seu poder excessivo e a retomar atribuições e responsabilidades que o Congresso, sob controle republicano, havia cedido ao Poder Executivo.

Trump entra na última semana da temporada eleitoral deste ano em posição extremamente fragilizada. A insistente retórica do presidente dos EUA de que a economia vive seu melhor momento — e de que as dificuldades financeiras, em especial o acentuado aumento do custo de vida, não passam de uma farsa do Partido Democrata — não parece convencer os eleitores. Os preços da gasolina e do diesel permanecem altíssimos, e o custo dos alimentos e de itens de consumo básico exerce pressão real sobre o orçamento das famílias. Até mesmo muitos de seus apoiadores republicanos, que se opõem ao envolvimento dos EUA em “guerras sem fim”, estão perdendo a confiança nas promessas de Trump de que o fim do conflito com o Irã estaria próximo.

Fora isso, Trump parece apostar todas as cartas em interferir com as eleições brasileiras ao recepcionar Flávio Bolsonaro — candidato derrotado e fugido do Brasil, que um dia antes havia dito que não deixaria o país.

O Futuro das Relações entre Brasil e Estados Unidos

Uma das grandes mudanças que podem acontecer nos EUA, caso os republicanos percam as eleições de novembro, são os contrapontos em relação à postura dos Estados Unidos com o Brasil.

Trump, que recebe o candidato derrotado Flávio Bolsonaro, ainda não reconheceu oficialmente o resultado das eleições, e já discursou alegando fraude nas eleições brasileiras, sem provas, claro. Steve Bannon endossou o apelo de que o Brasil se tornou uma ditadura que merece sanções severas por parte dos Estados Unidos.

Do outro lado, membros do Congresso dos EUA enviaram prontamente mensagens de felicitações ao presidente Lula. Publicações nas redes sociais refletiram as opiniões de democratas de todo o espectro político — desde figuras social-democratas conhecidas, como o deputado estadual de Nova York Zohran Mamdani, o senador por Vermont Bernie Sanders e a deputada federal por Nova York Alexandria Ocasio-Cortez, até membros mais moderados do Congresso.

A derrota de Flávio Bolsonaro representou uma perda contundente para Trump, que implementou uma série de medidas fiscais, políticas e (provavelmente) clandestinas para ajudar seu aliado brasileiro a vencer. Em uma região atualmente dominada por governos de direita, o Brasil — ao lado do México e do Uruguai — continuará na linha de frente da resistência às tentativas de Trump de impor uma dominação neocolonial sobre a América Latina e o Caribe. A vitória de virada de Lula elevou o Brasil à condição de referência internacional na luta contra a extrema direita.

Caso os republicanos percam as próximas eleições legislativas e para governos estaduais, isso significará que os democratas no Congresso, que defenderam a democracia brasileira em 2022 e 2026, poderão desempenhar um papel importante ao garantir que aqueles que minaram a democracia não utilizem os Estados Unidos tão livremente como plataforma para atacar o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Rejeição às políticas de imigração

Na campanha presidencial de 2024, o discurso anti-imigrante e xenófobo de Trump — que incluiu alegações falsas de que refugiados haitianos estariam “comendo nossos gatos e cachorros” — foi um dos muitos fatores que levaram os republicanos à conquista da Casa Branca e ao controle do Congresso.

No entanto, uma pesquisa recente com 30 mil americanos em todos os cinquenta estados revelou que apenas 37% aprovam as políticas de imigração do presidente. Nessa amostra, 11% dos democratas apoiam as medidas da Casa Branca, enquanto entre os republicanos o apoio cai para 78%. Uma pesquisa de setembro, conduzida pela rede conservadora Fox, indicou que 53% dos eleitores registrados consideram que Trump “foi longe demais” nas operações em larga escala do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) para deter trabalhadores sem documentação — mão de obra que constitui a base dos setores de serviços e da agricultura.

As mortes, tanto de cidadãos quanto de imigrantes, causadas por agentes mascarados, provocaram indignação em todo o país, desencadeando protestos em massa contra o uso excessivo de força pelo governo na detenção de pessoas supostamente em situação irregular.

Temendo uma derrota eleitoral iminente na próxima semana, Trump insiste que seus oponentes venceram eleições especiais recentes porque o Partido Democrata permitiu que imigrantes não cidadãos participassem do processo eleitoral. O Departamento de Justiça afirma ter compilado listas de pessoas em diferentes estados que estão registradas ilegalmente para votar e exige uma intervenção federal para evitar fraudes eleitorais.

Porém, autoridades locais responsáveis pela condução das eleições nos cinquenta estados constataram que um número extremamente reduzido de eleitores inelegíveis chegou a votar. Por exemplo, este ano, o governo dos EUA alegou que 16 mil não cidadãos estavam registrados para votar em Nevada, mas enviou apenas 185 nomes às autoridades eleitorais estaduais. Após revisarem os registros de eleitores do estado, verificaram que todos os 185 eram, na verdade, cidadãos americanos elegíveis.

O secretário de Estado da Geórgia, que supervisiona o processo eleitoral, informou que, nos últimos 30 anos, seu órgão identificou apenas 432 possíveis não cidadãos. Caso algum deles tenha votado, tratar-se-ia de um número infinitesimalmente pequeno, se comparado às centenas de milhões de votos computados nas últimas três décadas.

Ainda assim, Trump continua a propagar essa inverdade para semear, na mente de seus apoiadores, dúvidas sobre a legitimidade de qualquer eleição que ele — ou seus aliados — venha a perder.

Oposição a uma guerra sem fim contra o Irã

Historicamente, os cidadãos americanos tendem a se unir em torno do presidente nas fases iniciais de conflitos no exterior, à medida que o patriotismo cresce, acompanhado do apoio às tropas americanas enviadas ao combate. Durante a Guerra do Vietnã, foram necessários anos para que uma oposição de massa influenciasse a opinião pública. Da mesma forma, no início, a maioria dos americanos apoiou a invasão do Afeganistão — após os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York — bem como as duas guerras no Iraque. Com o tempo, o sentimento público mudou, passando a se opor a essas incursões militares.

Esse não é o caso em relação à guerra contra o Irã. A ausência de objetivos claramente definidos para o conflito, somada à disparada descontrolada dos preços dos combustíveis, fez com que a opinião pública se voltasse contra o conflito desde o início. Uma pesquisa da CNN, realizada em setembro, revelou que o apoio à guerra entre os eleitores republicanos caiu de 73% para 60%. Em todo o país, os agricultores — que, nos últimos anos, têm tido a tendência de votar no Partido Republicano — estão sofrendo com os preços elevados do diesel, que afetam o plantio, a colheita e o transporte de produtos agrícolas; isso, por sua vez, tem provocado um aumento significativo nos preços dos alimentos.

As tarifas de Trump abalam a economia dos EUA

As políticas tarifárias erráticas da Casa Branca também desestabilizaram a economia. O conflito de Trump com o Canadá — um dos parceiros comerciais mais importantes dos Estados Unidos — gerou caos em estados que dependem do comércio entre os dois países, afetando, em particular, empresas e mercados localizados ao longo da fronteira. Trump descartou o acordo comercial negociado com o México e o Canadá durante seu primeiro mandato, provocando graves transtornos para empresas do setor manufatureiro que fornecem componentes para a produção de bens.

Alguns mercados de exportação de alimentos foram encerrados, e muitos importadores de produtos estrangeiros viram-se obrigados a aumentar os preços para arcar com as tarifas de importação.

Paralelamente, Trump mente recorrentemente ao público ao afirmar que é o país exportador que paga as tarifas, quando, na realidade, é o importador ou o consumidor final que arca com esses custos adicionais.

Disputas-chave no Senado para acompanhar

Nas eleições presidenciais de 2024, especialistas observaram que homens negros, latinos e pessoas com menos de 30 anos migraram para o Partido Republicano. Com base nessa suposta tendência, legislaturas estaduais controladas pelos republicanos começaram a redesenhar os distritos eleitorais para favorecer seu partido, garantindo cerca de uma dúzia de distritos adicionais considerados “seguros” para seus candidatos.

Contudo, a estratégia saiu pela culatra. Pesquisas recentes indicam que esses três grupos demográficos, desiludidos com as políticas de Trump, abandonaram os republicanos e, provavelmente, ajudarão a eleger mais democratas para o Congresso, contribuindo para que o partido conquiste o controle da Câmara dos Representantes.

Nesse contexto — e diante da provável derrota dos republicanos na Câmara —, as disputas pelo Senado tornaram-se o foco da campanha de Trump na reta final das eleições. Para assumir o controle do Senado, os democratas precisam garantir a reeleição de senadores em estados com eleitorado dividido e, simultaneamente, conquistar vitórias em estados atualmente representados por republicanos.

As disputas na Geórgia e na Carolina do Norte parecem estar claramente inclinadas a favor do Partido Democrata. Em Michigan, o candidato democrata Abdul El-Sayed — médico de saúde pública e muçulmano, filho de pais egípcios — também protagoniza uma disputa acirrada. Seu oponente republicano tem proferido insultos racistas e antimuçulmanos contra ele, além de acusações de que ele seria um “socialista radical”, na tentativa de desacreditar sua candidatura. El-Sayed, que lidera as pesquisas com 6% de vantagem — assim como quase todos os candidatos democratas —, manteve-se fiel ao seu discurso, denunciando o alto custo de vida e a guerra no Irã.

Outra disputa importante para o Senado que merece atenção ocorre no Texas, onde o seminarista protestante progressista James Tallarico — capaz de debater com brilhantismo interpretações da Bíblia diante de oponentes republicanos conservadores — mantém uma leve vantagem. Há décadas, o estado não elege um democrata para o Senado.

Com eleitores ansiosos para votar contra Trump, os democratas também encontraram novas oportunidades de vencer eleições senatoriais em estados tradicionalmente conservadores: Alasca, Iowa, Kansas, Nebraska e Ohio. Em 2024, Trump venceu nesses estados por uma margem de dois dígitos. O foco dele nesses estados, que são redutos republicanos sólidos, revela o quanto o partido está na defensiva. New Hampshire e Maine são outros dois estados em que os candidatos democratas estão empatados com seus oponentes republicanos ou apresentam uma leve vantagem.

Em suma, se os democratas tiverem sorte — ou se ocorrer uma “tsunami azul” —, Trump poderá enfrentar uma maioria hostil no Congresso no próximo ano.

Ler no site da fonte: Agência Pública ↗