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Cultura

Flávio Bolsonaro e o revés do plano aberto

Observatório da Imprensa · Por Jonatas Meira Alves

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Em agosto, publiquei por aqui um artigo intitulado “Por que os debates eleitorais faliram?”. Critiquei a ausência de Lula e Flávio Bolsonaro do primeiro encontro e a transformação dos debates em fábricas de vídeos para as redes sociais. Dois meses depois, os candidatos finalmente apareceram. E trouxeram outra resposta à minha pergunta: o problema não é apenas quem falta, mas o que faz quem comparece.

A televisão tem uma característica inconveniente para políticos treinados pelas redes: mostra também o que acontece quando não é sua vez de falar. E mostra por tempo suficiente para que o espectador tire suas próprias conclusões.

No debate deste domingo (18), na Band, Flávio Bolsonaro parecia decidido a não desaparecer da tela. Lula discursava; Flávio ria e negava com a cabeça. Lula tentava responder; Flávio gesticulava atrás dele. A campanha petista reclamou, e a mediadora precisou pedir que o senador se afastasse. Constrangedor. E, para quem, como eu, se interessa por comunicação, fascinante.

Porque o problema de Flávio não estava exatamente no que ele dizia. Estava no que a câmera dizia sobre ele.

Nenhum enquadramento é inocente. O primeiro plano, aquele que mostra a pessoa, na sua frente, concentra nossa atenção no rosto e na palavra; o plano aberto acrescenta corpos, distâncias, olhares e posições. De repente, já não estamos assistindo apenas ao discurso de Lula. Estamos assistindo à maneira como Flávio se comporta enquanto Lula fala.

Na semiótica, um gesto só adquire sentido dentro de uma situação. Balançar a cabeça pode significar discordância. Repetir o gesto, com risinhos, atrás de alguém que tenta falar, comunica desprezo. Os signos, afinal, são criaturas indisciplinadas. A campanha emite “força”; parte do público recebe “arrogância”. O convertido enxerga coragem; o indeciso vê um moleque inconveniente.

É aqui que a televisão se vinga das redes sociais. Um corte de quinze segundos, uma frase fora de contexto e uma legenda em letras garrafais, “HUMILHOU!”, bastam para fabricar uma vitória. A legenda faz o trabalho de dizer ao público o que ele deve ver. Lembro-me de que, por volta de 2017, Jair Bolsonaro viralizava em vídeos nos quais, após alguma resposta grosseira ou provocação, surgiam aqueles óculos pixelados do meme Thug Life, acompanhados de Turn Down for What, de DJ Snake e Lil Jon. Era a consagração audiovisual da chamada “mitada”.

No debate ao vivo, o plano aberto afrouxa essa coleira.

O close pode transformar um sorriso em ironia vencedora. O enquadramento mais amplo devolve o sorriso ao seu endereço: um homem rindo atrás de outro que tenta concluir uma frase. O gesto continua o mesmo. O sentido, não. E há algo deliciosamente cruel nessa desobediência da imagem ao marqueteiro.

Não é uma discussão sobre quem falou mais alto ou colecionou mais interrupções. É sobre a construção de um personagem. Um presidenciável precisa projetar firmeza, mas também domínio de si. Flávio quis representar o homem que não se intimida. O plano aberto mostrou um homem que não conseguia esperar sua vez.

Há uma diferença entre intimidar o adversário e conquistar simpatia. Lula perdeu oportunidades, se deixou provocar e esteve longe de seu melhor desempenho. Ainda assim, isso não fez de Flávio o vencedor diante de todos os espectadores. Em reportagem do UOL, Thais Bilenky registrou a reação de um grupo focal de indecisos: Lula foi visto como destreinado; a agressividade de Flávio, como assustadora.

E existe um risco especial nessa estratégia. O brasileiro tem dó de cachorro morto apanhando.

O dito popular tem uma inteligência desconfortável. O cachorro já não ameaça ninguém. Bater nele não exige valentia. Exige somente alguém disposto a continuar quando já não há o que provar. Chega uma hora em que o público deixa de olhar para o alvo e passa a observar, com repulsa, a mão que insiste em bater. A pena nasce menos da virtude da vítima do que da feiura do espetáculo.

Lula não é cachorro morto. É um presidente com poder, partido, história e recursos para revidar. Mas tem 80 anos. E a televisão, que não lê currículos nem mede correlações de forças, lê corpos. Um homem octogenário falando em primeiro plano; atrás dele, um adversário mais jovem, rindo, avançando, negando. A idade introduz na cena uma percepção de fragilidade física, ainda que não indique, por si, incapacidade alguma.

Essa é a armadilha semiótica. Fora do estúdio, Lula é o chefe do Executivo. Dentro do quadro, por alguns segundos, também é um senhor de cabelos brancos tentando terminar uma frase. Flávio é o desafiante. Mas, se insiste demais, seu ímpeto deixa de parecer combate entre iguais e começa a parecer perseguição. A imagem reorganiza as posições morais antes que qualquer candidato abra a boca.

O adversário não precisa ser fraco para que a insistência pareça covarde. E o espectador não precisa votar em Lula para desejar que o deixem falar. É o ponto em que a estratégia de constranger começa a produzir solidariedade. O golpe que deveria diminuir o outro acaba diminuindo quem o desfere.

O fim do debate ofereceu uma última cena, quase uma ilustração pronta para esse argumento. Lula foi cumprimentar os mediadores. Flávio saiu pulando, fazendo uma dancinha. Um encerrou a noite com o protocolo; o outro, com a comemoração de quem acredita ter protagonizado uma grande “mitada”. No vídeo recortado, os pulos poderiam virar troféu. No plano aberto, pareciam mais uma tentativa de chamar atenção quando o espetáculo já havia terminado.

A comunicação bolsonarista sabe produzir cortes. O que ela nem sempre consegue é controlar o que existe entre um corte e outro. Flávio pode ter saído do estúdio convencido de que dominou o palco. A televisão registrou também o preço daquela encenação. E o debate da Globo promete. Afinal, se há uma coisa que o brasileiro aprecia tanto quanto uma boa humilhação, é uma virada triunfal. Aquela redenção de novela das nove, em que o personagem desacreditado encontra forças no último capítulo e deixa o vilão sem palavras. Lula tem a oportunidade de ensaiar esse roteiro. Flávio, por sua vez, corre o risco de descobrir que o público pode mudar de lado justamente quando o antagonista começa a acreditar demais no próprio papel. Afinal, toda novela precisa de um vilão. Mas ninguém quer ser o último a descobrir que está interpretando um.

***

Jônatas Meira Alves é Graduando em Direito pela UFMG, pesquisador e editor-chefe da revista Entreparágrafos. Escreve e pesquisa sobre instituições, linguagem, desigualdades, direitos e vida pública, com interesse especial nas zonas de atrito entre democracia, poder e sociedade.

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