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Fãs com adesivo de Lula são barrados em show de João Gomes em Petrolina

Marco Zero Conteúdo · Por Maria Carolina Santos

(há 2 horas)

Publicado originalmente em Marco Zero Conteúdo ↗ · Uso: CC BY-ND 3.0 BR

Imagem: Marco Zero Conteúdo

A professora Katiuscia Maria da Silva estava entrando no show de João Gomes nesta segunda-feira (12), em Petrolina, quando foi abordada por uma segurança do evento, que pediu a garrafa de água que ela segurava, com um adesivo de Lula colado. “Aí eu perguntei: ‘Não pode entrar com água?’. Ela respondeu que era por causa do adesivo, ‘que não pode fazer propaganda política aqui dentro’. Aí eu disse: ‘Não vou fazer propaganda política. É apenas um adesivo meu’”, conta Katiuscia. Para conseguir entrar, ela teve de tirar o adesivo da garrafa.

Assim como Katiuscia, dezenas de pessoas relataram o mesmo tratamento para entrar no evento Abrace um Denguinho. Há vídeos, fotos e relatos de pessoas sendo barradas por estarem com adesivos e camisetas de Lula. O PT de Pernambuco afirmou hoje que vai tomar providências. “Vamos encaminhar uma representação ao Tribunal Regional Eelitoral (TRE) sobre o fato, bem como ao juiz eleitoral do município de Petrolina”, afirmou o advogado Cláudio Carraly, da campanha do PT no estado.

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O Abrace um Denguinho é um projeto beneficente idealizado por João Gomes e feito em parceria com a Prefeitura de Petrolina no Dia das Crianças, no Parque Municipal Josepha Coelho. A programação era gratuita e contou com a participação de outros artistas, como Ivete Sangalo. A entrada era condicionada à doação de 1 kg de alimento não perecível para o Transforma Petrolina, programa da prefeitura, e o evento também arrecada doações para o Hospital Dom Tomás, organização filantrópica que atende pacientes com câncer. No ano passado, a campanha arrecadou mais de R$ 1 milhão para o hospital e cerca de seis toneladas de alimentos.

O presidente do PT em Petrolina, Herlon Bezerra, acionou a Justiça Eleitoral ainda no início da noite desta segunda-feira, ao receber relatos de que seguranças da empresa RTX Segur barravam quem usasse adesivo de Lula. Segundo ele, militantes distribuíram material de campanha na rua em frente ao evento e o público colava os adesivos no corpo ou guardava na bolsa antes de entrar. Os seguranças, diz Herlon, não apenas exigiam a retirada dos adesivos como abriam bolsas e jogavam fora o material. Ele relata que várias mulheres denunciaram ter tido as bolsas revistadas e que o partido tem orientado essas pessoas a registrar boletim de ocorrência.

Ainda durante o evento, a juíza Elisama de Sousa Alves, da 145ª Zona Eleitoral, expediu uma decisão para assegurar a entrada de pessoas com adesivos. Na decisão, a juíza afirma que o adesivo é manifestação individual e silenciosa protegida pela Constituição. Diz também que evento apoiado com dinheiro público ou feito em bem de uso comum deve estar aberto a todos em igualdade de condições, e que só a Justiça Eleitoral, e não organizadores ou agentes públicos, pode controlar propaganda eleitoral.

Na decisão, à qual a Marco Zero teve acesso, a juíza determinou aos organizadores do evento que se abstivessem, imediatamente, de proibir, restringir, dificultar ou condicionar o ingresso ou a permanência no evento de qualquer cidadão em razão do porte de “adesivo, broche, vestimenta ou similar alusivo a candidato, partido político, federação ou coligação, inclusive mediante exigência de retirada ou ocultação do material, assegurando-se o livre acesso de todos em condições de igualdade, observados apenas critérios objetivos de capacidade do local e segurança”.

A decisão visava proteger a manifestação individual do eleitor e não autorizou a realização de “atos de campanha, a distribuição de material de propaganda ou a fixação de adesivos em bens públicos no interior do evento, condutas que permanecem regidas pela legislação eleitoral”. A juíza advertiu que o descumprimento poderia configurar crime de desobediência e deu ciência ao Ministério Público Eleitoral, para que tome as providências que entender cabíveis.

Segundo Herlon, o oficial de Justiça foi ao evento antes de o mandado ser formalizado no sistema judicial e entrou em contato com ele por volta das 19h30. Os dois foram juntos à entrada e falaram apenas com a segurança, não com a organização. “A segurança do evento foi muito educada conosco. Disseram que estavam simplesmente cumprindo ordens de não deixar ninguém entrar com nenhuma manifestação política dentro do espaço. Ordem da organização do evento”, relata. Depois disso, as pessoas passaram a entrar com adesivos. “Mas, infelizmente, muita gente já estava voltando para casa. Quando de fato tivemos o direito ao livre trânsito com adesivos assegurado, o show já estava nos momentos finais”, lamentou.

Em nota enviada à Marco Zero, a Prefeitura de Petrolina afirmou que nunca orientou ninguém a impedir a entrada ou exigir a retirada de adesivos, “praguinhas” ou qualquer propaganda eleitoral no Parque Josepha Coelho e que o parque recebe milhares de pessoas por dia sem restrição a camisas ou material partidário. A prefeitura descreveu o Abrace um Denguinho como uma ação solidária integrada pelo cantor João Gomes e pela própria gestão, em parceria pelo segundo ano seguido.

A prefeitura disse que cedeu a área do estacionamento do parque para o festival e que o controle de público ficou a cargo de uma segurança privada. Em nota de esclarecimento publicada nas redes sociais, a organização do Abrace um Denguinho atribuiu o episódio a uma “atitude individual” de um profissional da empresa de segurança contratada, que teria restringido manifestações políticas. Nenhuma das notas informa quem contratou a empresa RTX Segur. A MZ não conseguiu falar com a empresa até o fechamento desta matéria.

O dirigente do PT de Petrolina contesta a versão da prefeitura de que apenas cedeu o estacionamento. Ele relaciona o episódio ao apoio público do prefeito Simão Durando, filiado ao União Brasil, a Flávio Bolsonaro (PL) depois do primeiro turno e fala em tentativa de intimidação política. “Houve a tentativa de dizer que a gente quis entrar com bandeiras. Não é verdade, porque nós nem temos mais bandeiras: todas foram embora no primeiro turno. Hoje estamos na cidade só com camisetas e adesivos para carro e para o corpo. Foi uma tentativa de inibir a livre manifestação política”, afirma.

Herlon contou também que alguns seguranças, eleitores de Lula, disseram depois que se sentiram incomodados com a ordem. “Não queremos fazer nada intempestivo nem acusar ninguém, inclusive os companheiros que estavam lá trabalhando como seguranças. Alguns deles vieram depois comentar conosco que estava sendo chato para eles, porque votam no presidente Lula”, afirmou.

Em entrevista à Marco Zero, a advogada eleitoral Júlia Matos afirmou que, pelo que foi divulgado até agora, o episódio parece ter mais ligação com o direito constitucional do que com o eleitoral. “O eleitor tem direito de manifestar sua preferência eleitoral de forma silenciosa e individual, inclusive no dia da eleição. Condicionar a entrada em um evento público à retirada do adesivo seria um problema do direito constitucional e civil, já que a questão central é de liberdade de expressão. Ou seja, seria uma censura”, afirmou.

A advogada também esclarece que quem se sentiu lesado pela organização do evento pode entrar com processo por danos morais e fazer uma denúncia, que pode ser anônima, ao Tribunal Superior Eleitoral, pelo aplicativo Pardal.

João Gomes é cobrado a se posicionar

O episódio acontece em um momento em que João Gomes é fortemente cobrado por fãs a declarar posição política. Com mais de 17,5 milhões de seguidores no Instagram, o cantor ganhou no ano passado um Grammy Latino com o projeto Dominguinho, ao lado de Mestrinho e Jota.pê, que já declararam voto em Lula.

“Eu me identifico muito com João Gomes, porque ele conseguiu realizar um sonho saindo de uma família simples. Ele morava no mesmo bairro que eu, e algumas vezes eu o via quando era garoto. Hoje sou fã e vou sempre aos shows. Justamente por ser nordestino, por ter saído de onde saiu e por conhecer a cultura do Nordeste, eu ando muito decepcionada com ele”, comentou a professora Katiúscia.

“Neste momento, pessoas formadoras de opinião como ele, que levou o Nordeste para o mundo, poderiam dar uma palavra pelo Nordeste, que fortalecesse o sentimento de pertencimento. Vejo negativamente esse não posicionamento do João Gomes. Acho que o tempo agora é de as pessoas, principalmente os artistas, se posicionarem”, acrescentou. Em Petrolina, Lula teve 60% dos votos contra 32% de Flávio Bolsonaro.

Em comentário nas redes sociais, a influenciadora Ary Mirelle, esposa de João Gomes, afirmou que o artista não se posicionou nesta eleição por conta do que enfrentou há quatro anos. “João não é uma pessoa ruim (…). Da última vez que João se posicionou em uma eleição, ele foi extremamente cancelado, tem que ouvir coisas horríveis até hoje, e até hoje também ele toma antidepressivos fortes, porque se não tomar, ele nem consegue levantar para trabalhar. João tem uma depressão e é mais difícil do que vocês imaginam, precisa ser acompanhado. Talvez para muitos isso nem justifique nada. Mas João hoje tem dois filhos. Recebemos mensagens de pessoas ameaçando nossos filhos (dois bebês) todos os dias”, escreveu.

João Gomes está entre os 40 artistas que mais receberam dinheiro público por shows no país. Segundo o relatório Farras, do observatório De Olho nos Ruralistas, que analisou 20 mil contratos públicos, o cantor fechou R$ 74 milhões em contratos com prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026, com 147 apresentações.

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