“Em nome do Pai”: evangélicos se afastam de Flávio porque nunca gostaram do filho de Jair
Agência Pública · Por Andrea DiP
(há 1 hora)
Publicado originalmente em Agência Pública ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0

“Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige (…) Um bando de amadores babacas”. A frase, revelada pela coluna de Malu Gaspar para O Globo no último dia 28, foi enviada em um grupo de WhatsApp pelo pastor e influenciador político Silas Malafaia, um dos maiores líderes evangélicos do Brasil e aliado de primeiro escalão de Jair Bolsonaro durante seu governo. O comentário foi feito após a fuga de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos e da publicação da carta (ou seria das cartas?) em que o candidato derrotado se apresentava como o verdadeiro presidente do “Brazil”.
As trapalhadas do 01 têm levado pastores das mega-igrejas protestantes a se posicionarem publicamente em uma tentativa de se distanciar de vez do nome da família Bolsonaro e de sua trilha de escândalos. No dia seguinte à eleição de Lula no segundo turno, o bispo Alessandro Paschoall da Igreja Universal publicou o trecho de um culto realizado por Edir Macedo em que ele criticava o lema “Deus, pátria e família” usado pelos Bolsonaro. “Na Universal, nós priorizamos essa hierarquia: primeiro Deus, depois família, e depois o resto. Não concordo com essa teoria “Deus, pátria e família”. Porque se não houver família, vai haver pátria? Impossível. Só há pátria se vier da família, que vem de Deus”, disse Macedo na manhã da votação do segundo turno.
Curiosamente, o lema – que, vale lembrar, foi usado no Brasil na década de 1930 pela Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista de inspiração fascista liderado por Plínio Salgado –só incomodou o bispo agora. Macedo, que é pragmático e costuma se aliar a quem estiver no poder, foi um apoiador de Jair Bolsonaro em 2018 e em 2022, mas se manteve distante nas eleições deste ano.
Outro bispo, Abner Ferreira, da Assembleia de Deus, que apoiou Flávio no segundo turno e chegou a participar de um mega culto promovido por seu irmão Bispo Samuel Ferreira, presidente da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil no Maracanãzinho com direito a pedido de voto e a presença de Flávio, reconheceu rapidamente a vitória de Lula e publicou um texto em suas redes sociais na semana passada dizendo que a democracia “exige maturidade, equilíbrio e respeito às decisões populares, independentemente das convicções e preferências individuais”.
Outros bispos e pastores evangélicos também têm se manifestado na mesma direção, como o bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações, igreja de Brasília onde Flávio foi batizado em 2024 e o Líder da Igreja Fonte da Vida, Apóstolo César Augusto, também aliado de Flávio. Ou estão em silêncio.
Mas essa tentativa de afastamento por parte de líderes das principais igrejas evangélicas não começou após a carta golpista. É um movimento que vem se anunciando e que reflete também o desgaste desse apoio descarado entre os fieis. Parece haver uma avaliação de que o saldo positivo desse apoio incondicional aos Bolsonaro ficou só para a família, enquanto as igrejas tiveram cada vez mais sua reputação atrelada a golpes, violência, escândalos de corrupção, etc.
Em conversa com a coluna, a professora do Programa de Pós-graduação em Sociologia e coordenadora do LePar (laboratório de estudos em Política, Arte e Religião da Universidade Federal Fluminense) Christina Vital, que é pesquisadora do campo evangélico de longa data, faz uma reflexão sobre esse reposicionamento:
“O afastamento de líderes evangélicos em relação ao bolsonarismo tem a marca das eleições de 2022. De lá para cá só vimos crescer esse afastamento com críticas veementes como tentativa de se limparem moralmente em relação à truculência e corrupção associadas ao bolsonarismo. Nas eleições de 2026 isso se agravou e não vimos um investimento continuado e intenso em torno do nome de Flávio Bolsonaro por parte de muitos líderes evangélicos e, logo após a derrota, vimos as críticas públicas se avolumarem. A fuga para os EUA foi o estopim de uma relação que já não se sustentava”, diz ela.
Segundo ela, Flávio Bolsonaro não era um nome desejado por ninguém. Líderes religiosos não viam nele a força e maturidade suficientes. Michelle Bolsonaro também não foi uma apoiadora de primeira hora, e chegou a jogar contra com o vídeo de 27 minutos, revelando que as críticas que ela faz ali não são tudo o que ela sabia.
“Quando o nome de Flávio se consolidou para a presidência, ela passou a apoiar o nome dele, assim como Damares Alves e outras parlamentares e candidatas, não em defesa dele próprio, mas porque sua vitória favoreceria à libertação do pai. Não era por ele, mas ‘em nome do pai’”.
Para ela, a movimentação de Silas Malafaia “ está fazendo um aceno ao que pode se fortalecer neste momento: a direita dita liberal e democrática”.
Ela diz que boa a eleição demonstrou que parte da sociedade ansiava por algo que fosse diferente do bolsonarismo e do petismo.
“Tarcísio parece ser aquele político capaz de capturar, neste momento, esse anseio em torno de si e reorganizar uma direita e um centro que foram engolidos pelo bolsonarismo nos últimos anos”, aposta.
Ou seja: parece que em nome do pai e do filho, o espírito santo não vai mais operar milagres eleitorais para a família Bolsonaro. Amém.
