Derrota, fuga e “presidência”: o roteiro de Flávio Bolsonaro
TV Brasil · Por pollyane.marques
(há 1 hora)
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Repórter Brasil 28/10/2026 - 19:00
Flávio Bolsonaro, derrotado na disputa presidencial, chegou, nesta quarta-feira (28), aos Estados Unidos. Ele deixou o Brasil ontem (27) à noite, pela fronteira com a Argentina, sem entregar os passaportes, como determinou o Supremo Tribunal Federal (STF). A Polícia Federal investiga as circunstâncias do descumprimento da ordem judicial.
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, o proibiu de deixar o país e determinou a entrega de seus passaportes pessoal e diplomático.
No entanto, segundo a PF, apesar da existência de restrições relacionadas a documentos de viagem, Flávio não está na condição de foragido nem teve a prisão decretada, vigilância permanente ou outras medidas cautelares solicitadas.
Moraes expediu a ordem judicial a pedido da PF, pouco após Flávio ser derrotado pelo presidente Lula no segundo turno das eleições realizadas no domingo. Flávio é investigado em três inquéritos que tramitam no Supremo. Segundo a PF, o parlamentar cruzou, ontem, a fronteira com a Argentina, de onde embarcou em um avião particular com destino aos Estados Unidos, com a esposa, Fernanda, e as duas filhas do casal, Luiza e Carolina.
Em nota, a PF informou que não encontrou registros oficiais de que, na fuga, Flávio tenha passado por qualquer posto de controle migratório brasileiro.
E hoje à tarde, embora o Tribunal Superior Eleitoral, o Supremo Tribunal Federal, a Câmara dos Deputados, o Senado, as Nações Unidas, os observadores internacionais que acompanharam o processo eleitoral e mais de 100 países tenham reconhecido a vitória do presidente Lula, o candidato derrotado que fugiu para os Estados Unidos divulgou uma carta em que diz que é “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e alega fraude eleitoral. Posteriormente ele fez uma edição nesta carta e disse ser apenas “líder do Brasil”.
Questionado hoje sobre o teor desta carta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que não iria se pronunciar sobre esse assunto.
Senador é alvo de duas investigações
Mesmo tendo descumprido uma ordem do Supremo Tribunal Federal para entregar os passaportes e não sair do país, Flávio Bolsonaro não é considerado foragido da Justiça. Hoje, a Corte informou que não existe, até o momento, nenhum mandado de busca e apreensão direcionado ao parlamentar ou aos seus endereços.
Flávio Bolsonaro é investigado em duas ações no Supremo. Numa delas, é suspeito de irregularidade por ter pedido R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Na outra investigação, é acusado de lavagem de dinheiro em negócios que envolvem o advogado e amigo Willer Tomaz. Segundo a Polícia Federal, Flávio aparecia como usuário master de uma conta bancária da Alcázar Holdings, empresa de Tomaz sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, e que tem ligações com negócios de apostas online.
Ser usuário master de uma conta significa ter um nível de acesso privilegiado que permite administrar os recursos, consultar movimentações e realizar operações em nome da empresa. É justamente por isso que a PF investiga se o senador seria sócio oculto da empresa.
As apurações identificaram R$ 130 milhões movimentados em uma conta ligada a Willer Tomaz em apenas três meses. Em 2025, o advogado apareceu envolvido em cerca de R$ 5 bilhões em apostas, segundo o Ministério da Fazenda. A suspeita é de que parte dos recursos tenha origem ilícita.
Assim como Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz também foi proibido de deixar o país, mesmo assim viajou para os Estados Unidos. Em função disso, o ministro Alexandre de Moraes, que é relator do caso, determinou o bloqueio de R$ 6 bilhões do advogado e suspendeu as atividades financeiras das empresas ligadas a ele.
Permanência nos EUA após a fuga
Depois de fugir do Brasil, o senador Flávio Bolsonaro e a família pousaram no aeroporto privado em Miami, nos Estados Unidos, por volta de 10h30 desta quarta-feira. A aeronave decolou da cidade de Puerto Iguazú, na Argentina, por volta de meia-noite desta terça-feira. O voo foi privativo. O avião ainda fez uma escala em Guayaquil, no Equador, antes de seguir para Miami.
Segundo o Departamento de Imigração dos Estados Unidos, ele usou um passaporte que tinha sido cancelado ontem pela Polícia Federal. Para esta advogada que atua nos Estados Unidos, especializada em direito migratório, o cancelamento, por si só, não impede a entrada.
“Tendo o passaporte cancelado, pode criar várias dificuldades para ele conseguir entrar nos Estados Unidos? Com certeza, porque o passaporte é a nossa licença de ir e vir de vários países, incluindo o nosso. Mas o passaporte em si ter sido cancelado, ele, por si próprio, não impediria ele de entrar nos Estados Unidos totalmente, até mesmo porque, pelas informações que estão circulando, ele entrou por um aeroporto privado. Então, as regras de aeroportos privados também são bem diferentes... Não é igual nós, meros mortais, tentando entrar em Orlando para ir na Disney.” explica Larissa Salvador, advogada de imigração nos EUA.
Durante todo o dia de ontem, houve muita especulação sobre onde estaria Flávio Bolsonaro. O senador Rogério Marinho, coordenador de campanha, chegou a dizer pela manhã que o ex-candidato não tinha fugido. À tarde, alegou que não foi informado sobre as intenções dele.
No desencontro de informações, que pode ter sido uma estratégia para despistar as autoridades, o investidor e ex-secretário de Turismo do México, Simón Levy, postou à tarde que Flávio Bolsonaro já havia chegado aos Estados Unidos, em uma operação que tinha contado com o apoio do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Flávio, no entanto, ainda estava no Brasil.
Na noite de terça-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, adiantou que concederia visto de permanência para Bolsonaro e sua família. Trump disse que não se envolveu nas eleições brasileiras, mas deixou claro que não gostou do resultado.
O anúncio recebeu críticas da oposição nos Estados Unidos. Nas redes sociais, os deputados democratas do Comitê de Assuntos Internacionais na Câmara afirmaram que vítimas de violência estavam tendo pedido de asilo negado, enquanto o documento era concedido a Bolsonaro, que fugiu por negar as eleições.
“Olha, eu acho que é importante a gente diferenciar até mesmo até onde o poder do Trump como presidente dos Estados Unidos vai. Então, o Marco Rubio, como o secretário de Estado, ele pode sim emitir um visto? Pode. O visto pode ser um visto temporário, de não imigrante, pode ser um visto humanitário, e sim, o Flávio pode vir a aplicar para um asilo aqui dentro dos Estados Unidos. Mas mesmo tendo apoio do próprio presidente, isso não anula os requisitos básicos da lei imigratória. Então, não que aqui nos Estados Unidos não existam manobras, mas aqui é muito mais difícil, especialmente nós estamos falando sobre alguns dias antes das eleições de meio termo aqui nos Estados Unidos, que vai estar decidindo muita coisa para esses próximos dois anos do Trump. Então, também existe, de uma forma, um cuidado que deveria existir porque os republicanos poderiam perder o Congresso para esses próximos dois anos, baseado nessa intervenção aí, nesse assunto”, destaca a advogada.
Aqui no Brasil, o presidente Lula também falou sobre o assunto. “Esse ato de sair do Brasil é vergonhoso. Ele deveria ter entregue o passaporte. A Polícia Federal já devia suspeitar que ele sairia do Brasil, ele tem inquérito”, afirmou o presidente.
A Polícia Federal emitiu hoje nota sobre a fuga do senador. A PF havia cancelado os passaportes usados por Flávio, tanto o comum quanto o diplomático. Segundo a nota, foi inserido alerta migratório no sistema. A PF também informa que não há registro da saída do parlamentar pelos postos de controle migratório. Esclarece também que restrições relacionadas a documentos de viagem, por si só, não caracterizam a condição de foragido, nem autorizam a realização de prisão ou vigilância permanente.
Exilado?
Dentro do PL, alguns integrantes têm classificado Flávio Bolsonaro como um exilado político. Ontem, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, fez postagens nas redes sociais, mas ignorou a situação do ex-candidato à presidência. Ao lado da senadora eleita, Michelle Bolsonaro, disse que está conversando sobre o futuro do partido e os desafios pela frente.
28/10/2026 - 19:40 Tags: fuga de flávio bolsonaro eleições 2026 presidente do brasil Donald Trump EUA