Debates eleitorais: entre a informação e o espetáculo
Observatório da Imprensa · Por Caroline dos Passos
(há 1 hora)
Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0


(Foto: Werner Pfennig/Pexels)
Debates eleitorais televisionados em canais abertos marcam a história do Brasil pós-ditadura. Alguns deles ajudaram a definir os rumos do pleito. Até 2026, o mais conhecido e debatido foi o transmitido simultaneamente, em 1989, pelas TVs Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT. Na ocasião, Fernando Collor (à época no PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficaram frente a frente, a três dias de disputarem um concorrido segundo turno nas primeiras eleições diretas para presidente após o regime militar.
Ambos tinham apenas 1% de diferença nas pesquisas de intenção de voto naquele momento. Porém, a reprodução de trechos editados do programa pelos jornais Hoje e Nacional, da TV Globo, nos dias seguintes à exibição, influenciou a opinião pública, definindo os rumos da competição. Na era pré-internet, as grandes redes de televisão, assim como os jornais tradicionais, detinham um poder ainda maior no gatekeeping, monopolizando o acesso a informações e a pontos de vista transmitidos à população. A Globo, principalmente, era líder no horário nobre frente às demais emissoras.
Na época, o PT tentou, junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), impedir a exibição dos trechos do debate, o que foi negado. E Collor venceu a disputa com 53,03% dos votos válidos. Somente anos mais tarde e depois da derrocada de Collor com o impeachment, o ex-diretor-geral José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e o próprio dono do canal, Roberto Marinho, admitiram que as versões exibidas nos telejornais favoreciam Collor e comprometiam Lula.
De volta a 2026, o cancelamento do debate na TV Globo, que ocorreria em 1.º de outubro, reacende a discussão sobre o formato. O programa iria ao ar sem Lula, que havia declinado antecipadamente o convite e optado por participar, no mesmo horário, de uma entrevista ao Flow Podcast. Seu principal adversário na disputa, Flávio Bolsonaro (PL), também desistiu de participar após decisões do TSE determinarem que a Globo não poderia dirigir perguntas ao púlpito vazio de Lula — atendendo a um pedido da coligação do candidato da esquerda — e que um de seus principais algozes, Renan Santos (Missão), estaria autorizado a participar do debate.
Sem a presença dos dois principais rivais na disputa, Lula e Flávio, o canal optou por suspender o programa, mas alegou insegurança jurídica frente às decisões do tribunal e declarou que houve “interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm para organizar os debates eleitorais”. A decisão foi anunciada com a leitura de um editorial poucas horas antes da transmissão. Os demais candidatos já estavam na emissora.
No entanto, não é a primeira vez que a Globo suspende um debate. O fato já havia acontecido em 1998 com a desistência da participação do candidato à reeleição Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Naquele ano, a legislação eleitoral determinava que todos os concorrentes fossem convidados ou, na ausência de acordo entre eles, que os participantes fossem definidos por sorteio — eram 12 candidatos na disputa. Em desacordo com as regras, a Globo optou pelo cancelamento do debate. Em 2017, a legislação eleitoral foi alterada e passou a obrigar as emissoras a convidar candidatos de partidos com, no mínimo, nove deputados na Câmara.
No contexto de 2026, o discurso de cerceamento da liberdade de imprensa é frágil. Afinal, a TV Band realizou o debate no dia 23 de agosto com apenas três dos seis concorrentes. Nem Lula, Flávio e Romeu Zema (Novo) compareceram. E, nas eleições à presidência, em 2018, Jair Bolsonaro (à época no PSL) não participou do debate da Globo no primeiro e segundo turnos. A emissora realizou o programa do primeiro turno sem púlpito vazio.
Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda., em julho, Lula já havia anunciado que não iria aos debates por terem se tornado um espaço de pouca informação para o eleitor. Também considerou que o formato serve de palco a provocações e que, sem regras claras de conduta, se tornou um ambiente desrespeitoso e propenso a baixarias — citando o episódio da cadeirada do candidato à prefeitura de São Paulo Luiz Datena (PSDB) no concorrente Pablo Marçal (PRTB) durante o debate ao vivo da TV Cultura em 2024. Ele reforçou ainda a necessidade de os debates se tornarem um espaço de respeito para apresentação de propostas.
A espetacularização dos debates torna-se ainda mais evidente no contexto das redes sociais. Em 2022, o último confronto entre os candidatos à Presidência no primeiro turno ganhou forte repercussão nas redes sociais, com a circulação de memes e conteúdos que deslocaram parte da atenção do debate sobre propostas e projetos. Nessa dinâmica, candidatos de menor expressão eleitoral, como Padre Kelmon, assumiram protagonismo em determinados momentos, tornando-se alvo de perguntas, provocações e confrontos que contribuíram ainda mais para esvaziar a discussão acerca dos planejamentos de campanha. Além disso, mesmo com o esforço das agências de checagem, os programas viraram um terreno fértil para desinformação e propagação de fake news.
A opção de Lula por priorizar o Flow Podcast demonstra um interesse em centralizar a conversa e atingir um público mais jovem, que está desconectado das grandes emissoras de TV aberta. O Flow Podcast é o quinto mais ouvido no Brasil, segundo o The Podcast Charts do Spotify. Em 2022, quando venceu Bolsonaro, Lula desistiu de participar do debate no segundo turno na TV Band para participar do mesmo programa. Realizada em 18 de outubro daquele ano, a transmissão ao vivo superou 1 milhão de espectadores simultâneos, um recorde para o canal. Em 2026, a audiência chegou a 1,8 milhão de aparelhos conectados ao mesmo tempo.
Mesmo com o sucesso de audiência do podcast, é importante reforçar que os debates constituem um instrumento importante e democrático para a apresentação de ideias e o confronto direto entre candidatos, além de permitirem ao eleitor observar como eles se posicionam diante de questionamentos e avaliar a segurança com que defendem seus planos e propostas de campanha. Já a entrevista, mesmo que realizada ao vivo, ocorre em um ambiente mais controlado, no qual o entrevistado sofre menos intervenções e é confrontado de maneira diferente daquela proporcionada pelo embate direto com os adversários.
O episódio de 2026 evidencia a necessidade de repensar o formato dos debates eleitorais. Em um cenário marcado pela fragmentação da audiência, pela circulação acelerada de conteúdos nas redes sociais, o risco de espetacularização não pode se sobrepor à função democrática desses encontros. O debate eleitoral deve criar condições para que os candidatos apresentem propostas, exponham argumentos, respondam a questionamentos e sejam confrontados publicamente com posições distintas.
Isso não significa, entretanto, desconsiderar a relevância dos podcasts e de outros espaços alternativos. Ao ampliarem a diversidade de formatos, vozes e abordagens disponíveis ao eleitor, essas plataformas também contribuem para a circulação de informações e para a pluralidade do ambiente político. A questão, portanto, não está em estabelecer uma hierarquia entre meios, mas em reconhecer as especificidades e potencialidades de cada formato.
Publicado originalmente em objETHOS.
***
Caroline dos Passos é Jornalista, mestranda em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS
O post Debates eleitorais: entre a informação e o espetáculo apareceu primeiro em Observatório da Imprensa.