Debate eleitoral: um formato na berlinda
Observatório da Imprensa · Por Fernanda Sanglard Erica A. Baptista e Bruna S. de Oliveira
(há 1 hora)
Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0


(Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
Dentre as novidades que as eleições de 2026 apresentaram aos eleitores brasileiros, pensava-se que o uso de IA pelas campanhas seria a principal delas. Fato é que, em conjunto com os processos de plataformização midiática e da política, os tradicionais debates entraram em coma e estão prestes a ser enterrados, ao menos no formato em que vinham sendo produzidos desde a redemocratização. E essa talvez seja uma “novidade” que precisa ser discutida e repensada.
Este ano, a Band optou por conduzir o debate do segundo turno, realizado no dia 18 de outubro, em um formato um pouco diferente, porém igualmente equivocado. Privilegiou o embate e o confronto face a face – quase corporal – entre os candidatos, em vez de prezar pela troca de argumentos e propostas. O debate propositivo teve seu lugar ocupado pelos ataques pessoais e pelos ânimos acirrados, graças a um modelo falido.
Por que conceder 15 minutos a cada candidato para confrontar o outro livremente, sem que precisassem efetivamente responder às perguntas? Quem ganha com esse modelo ultrapassado, sem intervenção dos jornalistas, sem questões produzidas por especialistas, sem checagem de informações em tempo real? Parece que perdem todos, mas especialmente o eleitor e a democracia.
Segundo José Roberto de Toledo, colunista do UOL, “foi um dos piores debates” a que assistiu na carreira, em 22 eleições, afirmou durante a cobertura do episódio. Um dos motivos, para Toledo, deve-se também ao comportamento desrespeitoso de Flávio Bolsonaro, que decidiu usar a brecha oferecida pela Band – que permitia que andasse pelo estúdio – para se posicionar atrás de Lula e aparecer enquanto este falava, fazendo caretas e gestos de desaprovação. Transparecendo deboche e forçando uma estratégia de superioridade, a postura de Flávio parecia desconcentrar o adversário. E essa não é uma questão apenas de (mau) comportamento. Diz sobre a linguagem corporal e audiovisual e sobre uma tática já usada por Donald Trump nos debates estadunidenses.
Chama a atenção o fato de a emissora e os mediadores não terem orientado um candidato a se posicionar em seu púlpito enquanto o outro falava. O único momento em que a intervenção ocorreu efetivamente foi nos minutos das considerações finais, sob a pressão da plateia. Isso demonstrou o total despreparo da emissora diante da tentativa de adotar um novo formato de debates eleitorais e resultou em prejuízos ao debate político.
A verdade é que a plataformização da política fez com que as campanhas dançassem conforme o ritmo dos algoritmos. A efetividade dos planos de governo dá lugar ao maior número de views, likes e compartilhamentos, e os debates entre as propostas dos possíveis chefes do Executivo seguem a trilha ditada pela economia da atenção. Assim, a percepção pública pós-debate se divide entre aqueles que compartilham o mal-estar pelo tempo perdido ou pela barbárie exposta em palavras e aqueles que aplaudem as frases de efeito, os cortes com “lacres”, como se os candidatos concorressem por recompensas no Tik Tok.
Considerando que um dos pilares da democracia é o livre acesso à informação de qualidade, a pergunta que fica é: o que o jornalismo de qualidade tem a ver com isso e como pode contribuir?
Talvez os grupos de mídia mainstream brasileiros não tenham entendido ainda que não há como concorrer com as plataformas. A TV aberta hoje está em desvantagem. Ainda assim, o espaço jornalístico qualificado, ainda que escasso, faz-se necessário especialmente quando a democracia está em crise ou quando estamos em meio a um processo eleitoral.
Sabemos que a democracia não se resume ao voto. Mas compreendemos também que eleições livres e justas são um importante princípio democrático. E para qualificar tal princípio, devemos ter o direito a debates qualificados. Nesse sentido, o jornalismo ainda é uma instituição relevante. Por um lado, as plataformas se transformaram em ambiência de desintermediação formal e permitem o contato direto dos atores políticos com seus públicos e, consequentemente, eleitores, o que tem um lado positivo. Por outro lado, os candidatos podem dizer o que quiserem sem necessariamente serem confrontados. A desinformação tem muito espaço, o conflito vira engajamento, os algoritmos e critérios de moderação são opacos e favorecem determinados players, e o excesso de informações promove o caos desinformacional.
Na arena plataformizada, os partidos e os candidatos são os detentores primários das narrativas eleitorais. E os influenciadores, que têm opinião sobre tudo, mesmo sobre o que não entendem, fazem da política um negócio e tentam endossar as narrativas das quais estão a serviço, em geral simplificando a complexidade do que discutem.
Falta curadoria e mediação jornalística. Pois o jornalismo ainda é, ou deveria ser, a possibilidade de qualificar a discussão e, consequentemente, os debates eleitorais. E o debate transmitido em rede nacional, além de alcançar um público amplo, inclusive de excluídos digitais, foi idealizado enquanto oportunidade de expor os planos de governo de modo mais palatável.
Os candidatos deveriam ser colocados em posição de equidade para expor suas ideias, promover a reflexão, a reciprocidade e demonstrar o respeito entre adversários políticos. Jamais estimular o ódio ou a ideia de que os opositores são inimigos. Mas o que temos acompanhado nos últimos dez anos é a perda desses princípios básicos.
Debates em questão
Desde as eleições de 2014, os debates passaram a atrair mais atenção e voltaram a ocupar um lugar de destaque entre as principais estratégias de campanha. Naquele ano, a disputa foi centrada em Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), e o último embate entre os dois foi transmitido até em bares, como se fosse uma final de campeonato esportivo.
Em 2018, a receita dos debates parecia infalível. Mesmo com a ausência de grandes players em alguns programas, os debates chamavam a atenção pelo deboche, pelos personagens caricatos – que pareciam ter sido criados propositalmente para o momento – e pelos memes produzidos. Mas os debates parecem ter acompanhado a polarização excessiva e assimétrica da sociedade e foram se tornando um show de horrores, seja pela permissividade com falas agressivas e ataques pessoais, seja pelos gestos de violência e comportamentos nada republicanos.
Em 2018, quando disputava o segundo turno contra Fernando Haddad (PT), Jair Bolsonaro (então PSL) decidiu não comparecer a nenhum dos debates presenciais, justificando questões de segurança e orientações médicas, devido à facada da qual foi vítima na campanha. Todavia, concedeu entrevistas e realizou transmissões ao vivo (lives) nas mídias sociais no momento em que os debates ocorriam, em nítida disputa pela atenção e pelo controle da narrativa.
Estratégia semelhante à de Jair Bolsonaro em 2018 foi adotada por Lula no primeiro turno de 2026, quando optou por conceder entrevista ao canal Flow, do YouTube, em vez de participar do debate promovido pela Globo. Além de controlar o fluxo das narrativas em um “espaço seguro”, os candidatos mobilizam sua própria bolha eleitoral ao adotarem tais práticas.
Nas eleições de 2022, uma espécie de candidato “fake” roubou a cena para favorecer a candidatura de Jair Bolsonaro. Padre Kelmon (na época, PTB), que acumulava uma série de polêmicas, ligadas até à contestação de sua ordenação e de seus vínculos eclesiásticos, era motivo de piadas nos debates e pautava o debate público, como uma “cortina de fumaça” para distrair a população dos assuntos realmente pertinentes. A vinculação do candidato a Bolsonaro ficou ainda mais explícita quando, em 2024, ele se filiou ao PL.
Com esses episódios, a credibilidade dos debates passava a ser mais duramente criticada. O ápice do caos ocorreu em 2024, quando José Luiz Datena (PSDB) atirou uma cadeira em direção a Pablo Marçal (PRTB) no debate da TV Cultura, no contexto da disputa eleitoral pela Prefeitura de São Paulo. Naquele ano, também chamou a atenção a estratégia do candidato do PRTB, que usou sua experiência como influenciador digital e transformou os confrontos diretos com seus adversários em cortes para as redes sociais.
A não realização do debate presidencial no primeiro turno de 2026 pela principal emissora de TV do país, a Globo, já era um indício de que os tempos são outros. Na era das plataformas e dos sistemas de IA, os debates parecem ter perdido não apenas audiência, mas também o poder de influência sob os indecisos.
O que 1989 pode ensinar
Quando a cobertura do famoso debate entre Collor e Lula foi ao ar, em 1989, a TV Globo foi duramente criticada pelo modo como editou o conteúdo. Naquela ocasião, os brasileiros iam às urnas para escolher diretamente o presidente da República após 29 anos sem esse direito, devido aos 21 anos de ditadura militar (as últimas eleições diretas para a Presidência ocorreram em 1960).
Houve dois debates entre o primeiro e o segundo turno das eleições, com a participação dos candidatos Collor e Lula, transmitidos por um pool de emissoras. O primeiro foi sediado na TV Manchete, no Rio de Janeiro, em 3 de dezembro. O segundo ocorreu nos estúdios da TV Bandeirantes, em São Paulo, no dia 14. Foram transmitidos na íntegra, das 21h30 à meia-noite, por Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT, que eram as principais emissoras de TV da época.
Conforme o Grupo Globo, no site Memória Globo, “os responsáveis pela edição do Jornal Nacional afirmaram, tempos depois, que usaram o mesmo critério de edição de uma partida de futebol, no qual são selecionados os melhores momentos de cada time. Segundo eles, o objetivo era deixar claro que Collor havia sido o vencedor do debate, pois Lula realmente havia se saído mal”.
Como disputa política é mais importante para o futuro do país e jamais poderia ser equivalente à cobertura de um jogo de futebol, ao optar por favorecer a narrativa de Collor, a edição assumiu o erro, recebeu críticas – inclusive internas – e fez com que a TV Globo nunca mais editasse trechos de debate para transmissão posterior. Hoje, os cortes ficam a cargo dos usuários das plataformas, que editam e criam memes ao bel-prazer.
Solução possível
Diante do diagnóstico dos problemas, caberia ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) trabalhar em conjunto com os demais Poderes, pesquisadores, comunicadores, partidos e sociedade civil para pensar um modelo mais adequado aos debates e regulamentar a legislação eleitoral nesse quesito.
O espaço para as propostas deve ficar mais evidente e a circulação pelo palco (estúdio) se ater ao momento em que a pessoa fala. Repensar o papel da plateia também é necessário. Perguntas entre candidatos são necessárias e importantes, porém, questões levantadas pela sociedade, pelos movimentos sociais e pelos próprios jornalistas também deveriam ser valorizadas e usadas para questionar igualmente os candidatos. Além disso, o jornalismo atual, com os recursos digitais e de capital intelectual, tem plenas condições de realizar a checagem de fatos em tempo real. Parcerias com agências de checagem e universidades poderiam ser contempladas. Cabe ainda refletir se os debates de cada emissora permanecem – sob o risco da ausência de candidatos – ou se uma parceria, por meio de pool de grupos de mídia, valeria mais. Há muito o que refletir.
Os debates não deveriam ser passe livre para mentiras e distorções, desrespeito e falta de propostas. Para superar a decadência do atual modelo de debate eleitoral, seria válido recuperarmos os fundamentos deliberativos e a responsabilidade editorial das emissoras. E, sobretudo, considerar a agência da sociedade civil no jogo político.
***
Fernanda Sanglard é doutora em Comunicação, professora do PPGCOM da PUC Minas, coordenadora do Grupo Bertha de Pesquisa e é pesquisadora associada à Compolítica.
Érica Anita Baptista é doutora em Ciência Política, professora do PPGCOM do IDP, coordenadora do Grupo Mítica – Mídia e Política e é vice-coordenadora do GT 12 Propaganda e Comunicação Eleitoral da Compolítica.
Bruna Silveira de Oliveira é doutora em Comunicação, pesquisadora em residência pós-doutoral no Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública (EME/UFMG), vinculada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT DSI) e ao Grupo Bertha de Pesquisa (PUC Minas). Pesquisadora associada à Compolítica.
O post Debate eleitoral: um formato na berlinda apareceu primeiro em Observatório da Imprensa.