Pular para o conteúdo

Quarta-feira, 14 de outubro de 2026Anuncie

Brasília 25°C Parcialmente nublado · ↑29° ↓19°
Brasil360O Brasil por todos os ângulos
Brasil

Coragem para o medo

Marco Zero Conteúdo

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Marco Zero Conteúdo ↗ · Uso: CC BY-ND 3.0 BR

*por Rodrigo de Abreu Pinto

No primeiro turno, a campanha de Lula olhou para trás. Na que deve ser a última eleição do presidente, a aposta foi exibir o legado acumulado em três mandatos e projetar, a partir dele, mais quatro anos.

A estratégia esbarrou num dado teimoso: o atual mandato do presidente Lula é mal avaliado. Na véspera da votação, em levantamento da Quaest, a aprovação era de 44%, contra 49% de desaprovação.

As urnas confirmaram o diagnóstico. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, ainda que por margem estreita, 47% contra 45% de Lula.

Em eleições assim, com um candidato à reeleição, a disputa é plebiscitária. Vota-se a favor ou contra a continuidade de quem está no poder.

Aqui, a primeira pergunta que o eleitor responde é “você quer mais quatro anos de Lula?”, e a maioria já disse que não (55% dos eleitores votaram em Flávio, Cury, Renan, Caiado e Zema). Resta a segunda, a que de fato decidirá o segundo turno: “mesmo que a continuidade de Lula não seja o ideal, você prefere um governo de Flávio Bolsonaro?”.

É essa que a campanha de Lula precisa responder até o dia 25. Menos legado, mais retrato do que seria o governo de Flávio Bolsonaro. Se o primeiro turno apostou na esperança, o segundo terá de trabalhar o afeto oposto, o medo.

Até aqui, esse medo, onde existe, é pequeno demais para o tamanho da ameaça. No Datafolha de 6 a 8 de outubro, 46% não votariam em Lula de jeito nenhum, contra 43% que rejeitam Flávio. A irritação com o presente ainda pesa mais que o receio do futuro.

Para a esquerda, que se reconhece na defesa de sonhos e projetos, trocar a esperança pelo medo é incômodo. Mas só essa flexibilidade tática pode adiar o fim do mundo, ao menos para que nos organizemos melhor para 2030, apoiados nos jovens progressistas que acabam de chegar ao Congresso. Um deles, Jones Manoel (PSOL-PE), eleito deputado federal com 249 mil votos, resumiu a questão: “o objetivo da gente é ganhar a eleição, e não provar que Lula é maravilhoso”.

Por falar em fim do mundo, o filósofo Günther Anders enfrentou dilema parecido diante do risco nuclear. Depois que a bomba atômica varreu Hiroshima e Nagasaki do mapa, dizia-se por toda parte que o mundo vivia a “Era do Medo”. Anders respondeu:

“Nada é mais falso que o chavão popular de que já vivemos na ‘Era do Medo’. Tentam nos convencer disso somente aqueles que têm medo de que criemos o verdadeiro medo, isto é, aquele medo adequado ao perigo”.

Para Anders, vivia-se, na verdade, a era da banalização do medo. As pessoas não sentiam medo suficiente e, por isso, quase ninguém cobrava dos governos proteção efetiva contra o risco atômico. Daí o seu conselho: “Amedronte seu vizinho como a si mesmo”. É o que falta fazer agora.

Nesse ponto, vale uma distinção. É verdade que o bolsonarismo também vive do medo, mas de um medo que divide. Elege parte da população como ameaça (o morador da periferia tratado como bandido, o nordestino acusado de “votar errado”, o “comunista” que ameaçaria a família, o imigrante que roubaria empregos e os gays e lésbicas, agentes da “ideologia de gênero”) e vende proteção a quem está do outro lado da linha.

Não é desse medo que se trata aqui. Trata-se do que o sociólogo Ulrich Beck examinou no clássico Sociedade de Risco, ao tratar do medo diante de acidentes nucleares, da contaminação química e da crise ambiental. Um medo que, por ser de todos, produz solidariedade.

Com um eventual governo Flávio, há três razões principais para esse medo, e todas precisam chegar ao eleitor:

(a) a perda de direitos sociais, com ataques aos programas sociais e à legislação trabalhista, incluindo a manutenção da escala 6×1;

(b) a milicianização e a captura da máquina pública, na esteira das relações de Flávio com figuras como o miliciano Adriano da Nóbrega, o ex-assessor Fabrício Queiroz e o banqueiro Daniel Vorcaro; e

(c) a entrega de todas as chaves da República a um só partido, dado que o PL já terá, a partir de 2027, a maior bancada da Câmara e também do Senado.

Bom lembrar que o PT já fez esse movimento no segundo turno de 2006. As conquistas dos quatro anos até ali, que ocupavam o centro da campanha como resposta ao mensalão, cederam lugar à associação de Geraldo Alckmin à privatização da Petrobras, do Banco do Brasil e dos Correios. Resultado: o tucano, que saiu do primeiro turno com quase 40 milhões de votos, terminou o segundo com 37,5 milhões.

Parte de quem vota em Lula já entendeu isso, ainda bem. O melhor exemplo é a série “Revelando”, disponível no YouTube, uma iniciativa do podcast Calma Urgente em parceria com o ICL Notícias e a Mídia Ninja, dedicada a expor os riscos de um eventual governo Flávio. Os episódios lançados até aqui trataram das relações de Flávio com Daniel Vorcaro, de sua atuação na defesa de policiais acusados de homicídio, de sua PEC para a privatização das praias e das suas ameaças à imagem de Nossa Senhora Aparecida.

A lição, porém, parece ainda não ter chegado à própria campanha, a julgar pelos três primeiros programas do horário eleitoral deste segundo turno, cada um com cinco minutos de duração. No “primeiro programa” (https://www.youtube.com/watch?v=q6hrrjIF6No), só um minuto e meio (os 45 segundos iniciais e os 45 finais) tratou de Flávio. No “segundo” (https://www.youtube.com/watch?v=WkwB7-Vx548), apenas os 30 segundos finais. Já no “terceiro” (https://www.youtube.com/watch?v=s4kIzbAYbfg), um minuto e meio (os 45 segundos iniciais e outros 45 na segunda metade) foi dedicado a Flávio. Em nenhum dos três programas, as críticas diretas a Flávio ocuparam mais de 30% do tempo.

Faltam menos de duas semanas. Günther Anders pedia coragem para ter medo, e é exatamente o que falta à campanha: coragem para dizer, com todas as letras, o que seria o Brasil sob Flávio Bolsonaro.

* Rodrigo de Abreu Pinto é presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais

O post Coragem para o medo apareceu primeiro em Marco Zero Conteúdo.

Ler no site da fonte: Marco Zero Conteúdo ↗