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Contas espalham conteúdo falso sobre bets nas redes enquanto STF discute proibição

Agência Pública · Por Bruno Fonseca

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Agência Pública ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0

Imagem: Agência Pública

“A diarista que trabalha aqui em casa mostrando a conta com 46 MIL REAIS. Falei: que isso mulher, tá rica??? Ela responde: Dizendo que ganhou 40 mil jogando no tigrinho e ainda me manda o print pq eu fiquei sem acreditar kkkkkkk”. A história, apesar de absurda, parece ser contada por uma pessoa normal. Mas não é. A Agência Pública encontrou uma rede de perfis que publicam mensagens enganosas em série como essa, divulgando bets. Os perfis se seguem e amplificam entre si mensagens de ganhos irreais com as apostas.

O perfil que publicou a história acima é de uma conta com pouco mais de 8 mil seguidores no X/Twitter. A foto do perfil, chamado gigimonteiros, é de uma mulher jovem. Não há nenhuma outra informação pública na conta, criada em novembro de 2021.

A fala sobre a diarista foi postada pela primeira vez no dia 2 de novembro. Hoje, dia 3, enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) realiza uma audiência pública para discutir as ações de inconstitucionalidade dirigidas a Medida Provisória (MP) do presidente Lula que proibiu as bets no Brasil no dia 25 de setembro, o perfil voltou a compartilhar a mesma postagem. A conta incluiu a frase: “Gente a diva falou que esse mês não vai vim trabalhar kkkkkk certíssima. Merecedora de curtir umas férias”.

Quatro dias antes, no dia 30, o mesmo perfil contava outra história, de como a diarista teria ganhado mais de R$ 20 mil no tigrinho. No dia 23 de outubro, a profissional teria ganhado mais de R$ 7 mil. Todas as postagens são acompanhadas de supostos prints de extratos bancários da diarista em bancos diferentes.

Além dos vários ganhos da diarista, o perfil já contou sobre os prêmios recebidos pela “moça que trabalha na limpeza aqui do prédio”, do porteiro, do motorista de Uber, da “mulher do ônibus”, do moto Uber, do “pai de 58 anos” e até da mãe. Cada vez, um valor diferente teria sido pago pelas bets. Há postagens com quase meio milhão de visualizações de alcance.

O perfil fez propaganda de apostas mesmo antes da proibição das bets pelo governo Lula. A Pública encontrou postagens parecidas desde junho. Em uma delas, o perfil divulga o link da bet Greenasbet. O nome da casa de apostas não estava na lista de julho de casas autorizadas a operarem no Brasil, antes da proibição. O site é registrado na Califórnia, nos Estados Unidos. 

  • Contas divulgam histórias enganosas sobre prêmios em dinheiro e divulgam bets que seguem proibidas no Brasil
    Contas divulgam histórias enganosas sobre prêmios em dinheiro e divulgam bets que seguem proibidas no Brasil
  • Contas divulgam histórias enganosas sobre prêmios em dinheiro e divulgam bets que seguem proibidas no Brasil
    Contas divulgam histórias enganosas sobre prêmios em dinheiro e divulgam bets que seguem proibidas no Brasil
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    Contas divulgam histórias enganosas sobre prêmios em dinheiro e divulgam bets que seguem proibidas no Brasil

Contas atuam em rede para propagar tigrinho

O perfil de gigimonteiros não atua sozinho. Outros perfis que interagem e se seguem foram identificados pela Pública. Em comum, todos contam variações de histórias de pessoas que teriam ganhado valores altos com bets.

Um deles, com mais de 14 mil seguidores, repete a mesma estratégia. Numa hora, é a mãe que pede dinheiro emprestado e ganha com bets. Na outra, é a mulher que joga no ônibus. Motoristas de uber e namorados se revezam nos relatos, sempre engraçados e com linguagem que tenta simular naturalidade: “Ela fala que esse ano já ganhou 9 mil e reformou a casa dela, e guardou 2.000 pra ficar jogando de 2 em 2 reais. Eu tô em choque tô gag”, escreveu uma das contas que se seguem.

Há inclusive contas diferentes que usam a mesma imagem para contar histórias repetidas — e com indícios de ser gerada por Inteligência Artificial. A reportagem encontrou duas contas que fizeram postagens com um dia de diferença sobre diaristas que teriam ganhado com o tigrinho. Ambas usam o mesmo print de um suposto extrato do aplicativo da Caixa Econômica Federal que mostra um saldo de R$ 7,8 mil.

As contas amplificam as histórias, e, algumas delas, passam de centenas de milhares de visualizações.

No STF, dirigentes do futebol e lobistas defendem “drama” dos clubes

A audiência pública realizada nesta terça-feira, 3 de novembro, no STF não teve o objetivo de decidir sobre os pedidos de inconstitucionalidade relacionados à proibição das bets no Brasil, definida pela MP de Lula em setembro. Ela foi convocada pelo ministro Luiz Fux, que relata oito ações diretas de inconstitucionalidade sobre as casas de apostas, duas delas abertas após a proibição.

Audiência Pública – ADI 8027/DF - no STF sobre proibição das bets no Brasil
Audiência Pública – ADI 8027/DF – no STF sobre proibição das bets no Brasil

Entidades como a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) pediram ao STF decisões provisórias para suspender a MP.

No encontro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defendeu manter a proibição, citando o vício em apostas e o prejuízo que isso causa para a população. “A única e melhor solução para evitar suicídios, evitar pessoas viciadas, violência familiar, é mantermos a proibição das bets”, disse. O ministro mostrou dados que mostram um aumento de 200% na busca por atendimento no SUS devido ao vício em bets.

Do outro lado, representantes de clubes de futebol defenderam as apostas, argumentando que o dinheiro seria essencial para os times. “O drama de uma família individual não pode ser maior do que o drama de uma família que vai ter que sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai acontecer na cadeia do futebol, especialmente nas agremiações menores, com base nessa perda de receita”, chegou a dizer o presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro. Um estudo do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros aponta que apostas online foram o motor para uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras, em 2025. 

Um dos mentores da legislação que regulamentou as bets no Brasil, em 2023, também estava presente na audiência pública. Desta vez, no entanto, José Francisco Mansur não era o assessor especial da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda, cargo deixado por ele em fevereiro de 2024. Ele representou o Cruzeiro Esporte Clube e se juntou ao coro de lobistas e dirigentes de agremiações que dominaram a sessão com discursos impopulares e sem apoio público do poder Legislativo. 

“A Fazenda constituiu uma brava equipe da Secretaria de Prêmios e Apostas que estranhamente não foi ouvida numa reunião no Palácio do Planalto quando se discutiu os termos da Medida Provisória. Mesma coisa que discutir reflorestamento sem chamar o Ibama, discutir política de vacina sem chamar a Anvisa ou a Fiocruz”, declarou Mansur. 

Embora os discursos em defesa das bets, a primeira parte do evento foi na contramão – com o posicionamento inesperado do ministro Luiz Fux, observado por governistas como apoiador das casas de apostas. O magistrado iniciou a audiência justificando os motivos da sessão e se apresentando como favorável ao banimento da ludopatia do “cenário dos esportes nacionais”. A postura emergiu após a repercussão negativa do evento nas redes sociais pelo fato de a maioria dos convidados representarem empresas interessadas na legalização.

“Ouvimos toda a sociedade e me convenci que a ludopatia [vício em jogos de azar] é um problema de saúde pública, econômica e deveria ser banida do cenário dos esportes nacionais”, frisou o ministro. 

No espaço dedicado à audiência, muitos lobistas e advogados das empresas afetadas pela proibição. Porém, quase não se via representantes da sociedade civil ou de entidades que atendam famílias vítimas da atividade. Na série Jogo Perigoso: o Brasil das Bets, a Pública investigou o lobby das casas de apostas nos Poderes e os prejuízos para a saúde financeira e psicológica dos jogadores; sobretudo, os mais pobres. Entre os casos relatados, há o drama de uma professora mineira, Vânia Borges do Amaral, de 54 anos que perdeu o filho para vício em apostas online. 

No prédio ao lado, no Congresso Nacional, nada se falava sobre a audiência pública e nem sobre a comissão mista que precisa ser instalada para avaliar a medida provisória do Governo Federal. O texto tem de ser aprovado pela Câmara e o Senado até março de 2027 ou perderá os efeitos e, com isso, as bets voltarão à legalidade. 

Ler no site da fonte: Agência Pública ↗