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Cultura

Como votou a sua cidade?

Observatório da Imprensa · Por Fernanda Lara

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0

Imagem: Observatório da Imprensa

(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Na noite de 4 de outubro, enquanto as grandes redações disputavam quem cravava primeiro o segundo turno presidencial, o leitor do jornal local fez outra pergunta. Quis saber quem da sua região vai para Brasília e para a Assembleia. Nos 18 portais regionais que cobriram a apuração com o Mais Pelo Jornalismo (MPJ), as abas mais abertas foram as de deputado federal e estadual, com 2,3 mil leitores cada. Governador veio logo atrás. Presidente ficou em último, com 1,3 mil.

O número é pequeno e diz muito. A grande imprensa cobre a eleição pelo país e pelo estado. O resultado de cada um dos 5.570 municípios quase nunca ganha quem o conte, e é ali que o eleitor mora, paga imposto e cruza com o candidato na feira. Quando alguém oferece esse recorte, ele vai atrás.

Uma pergunta só

O MPJ é um programa que dá infraestrutura de tecnologia a portais de jornalismo local, regional e de nicho. A ideia da apuração nasceu dentro da própria rede, numa conversa entre publishers sobre o dia da eleição. Vinícius Andrade, do Guarulhos Todo Dia, mostrou como a audiência do site dele crescia em noite de apuração. Faltava o que nenhum deles teria sozinho: um painel ao vivo, com o dado oficial do TSE, que funcionasse bem no celular.

Montamos um só painel para 18 veículos de 10 estados, de Roraima ao Rio Grande do Sul, cobrindo 56 municípios. Cada portal manteve a própria marca, as próprias matérias e os próprios anúncios, e escolheu até cinco cidades para abrir a página. O painel respondia a uma pergunta: como votou a sua cidade? Em cada tela, explicava também onde aquela eleição se decide, porque presidente se decide no país, e deputado, no estado.

No Fatos do Iguaçu, de Pinhão (PR), o leitor vê lado a lado as cinco cidades da cobertura e abre o resultado de cada uma, cargo a cargo. (Imagem: Divulgação)

O que aconteceu nas redações

Os números vêm adiante. Antes, vale ouvir quem estava do outro lado da tela. Em Joinville, o Chuville transformou a noite numa transmissão ao vivo.

“A partir das 16h, entramos ao vivo em um streaming em um estúdio improvisado e deu bem certo. Nós nos revezamos entre 12 pessoas para comentar, apurar, apresentar e fazer análises. Ter dados da apuração em uma única plataforma deu a nós uma centralidade de conteúdo que nenhum veículo da região e do estado tinha.” Leandro Schmitz, publisher do Chuville.

Em Araçatuba, no interior paulista, o Nossa Cidade mediu a noite com a régua de quem viu as apurações antes. “Com mais de 40 anos de jornalismo impresso, tendo acompanhado várias apurações manuais que demandavam vários dias de desgastante trabalho, fazer a cobertura de forma online e em pouco mais de cinco horas foi gratificante.” Antônio Crispim, publisher do Nossa Cidade.

Em Boa Vista, o Correio do Lavrado voltou ao ar depois de dois anos parado, e voltou justamente na noite da eleição. Em Frederico Westphalen (RS), a Rádio Comunitária usou o painel como cenário da própria live, filtrando cidades ao vivo enquanto os ouvintes faziam o mesmo em casa.

No celular, o leitor do Chuville vê os 40 deputados estaduais eleitos em Santa Catarina com os votos que cada um teve em Joinville. (Foto: Divulgação)

O leitor ficou

Entre as 5h de domingo e as 13h de segunda-feira, os 18 portais tiveram 80,2 mil páginas abertas por gente, já sem robôs. Por cima delas vieram mais 33,9 mil consultas dentro da apuração, com o leitor trocando de cargo, de cidade ou de estado. O pico veio às 19h, duas horas depois de as urnas fecharem, com 16,3 mil acessos numa única hora. Nos jornais menores, a audiência chegou a 17 vezes a de uma semana comum.

Mais revelador que o volume é o comportamento. Na noite da apuração, das 17h à meia-noite, a página ficou em média 2min23s na tela, e metade das aberturas passou de um minuto. Mais de 1,7 mil leitores fizeram quase 3 mil buscas por candidato, quase sempre nomes da própria região. Teve quem procurasse pelo número de urna. Ninguém busca o número de urna de um desconhecido.

Páginas abertas e navegação na apuração, hora a hora, nos 18 portais, com o tempo médio na tela (linha verde). Contagem própria da rede, sem robôs. (Imagem: Reprodução)

Esses números saem de contagem própria, feita no servidor. A régua que o mercado usa, o Google Analytics, viu metade das páginas, mas essa é uma discussão para outro texto. Aqui interessa o que o leitor fez quando teve à mão o resultado da sua cidade.

Da cidade para o bairro

Dois dias depois da eleição, o painel desceu mais um degrau. Desde 6 de outubro, os 18 portais mostram como cada bairro votou. Cada urna publica o seu boletim, e o bairro é a soma dos boletins das seções que funcionam nele, segundo o cadastro de locais de votação do TSE. O leitor escolhe o cargo, de presidente a deputado estadual, acha o próprio bairro pelo nome ou pelo CEP e pode procurar um candidato para ver quantos votos ele teve em cada canto da cidade. Vale para qualquer município do país, e o link compartilhado abre no ponto exato.

Em Guarulhos, são 141 bairros. Na mesma cidade, o Centro deu 23,8 pontos de vantagem a um candidato a presidente, e o Conjunto Marcos Freire deu 10,2 ao outro. O resultado da cidade, sozinho, apaga essa diferença. O do bairro mostra onde ela mora.

Como cada bairro votou, no Guarulhos Todo Dia: o leitor troca de cargo, procura o bairro pelo nome ou pelo CEP e busca qualquer candidato. (Imagem: Reprodução)

Como cada bairro votou, no Guarulhos Todo Dia: o leitor troca de cargo, procura o bairro pelo nome ou pelo CEP e busca qualquer candidato.O painel avisa o que é e o que não é. A soma por bairro não é um resultado divulgado pelo TSE, e o eleitor vota onde está inscrito, quase sempre perto de casa, mas nem sempre. Com essa ressalva dita na tela, o leitor tem nas mãos um mapa que costuma ficar na gaveta das campanhas.

O que isso diz sobre o jornalismo local

O Atlas da Notícia de 2025 contou 2.504 municípios sem nenhum veículo de jornalismo local, quase metade do país, onde vivem mais de 20 milhões de pessoas. Costuma-se explicar o deserto pela falta de dinheiro e falta. Mas a noite da eleição mostrou um gargalo mais concreto. Os 18 jornais do laboratório sabiam contar a eleição das suas cidades. O que nenhum deles tinha era a estrutura para pegar o arquivo bruto do TSE e transformar em resultado legível, ao vivo, no celular do leitor.

Quando essa estrutura é dividida, o jornal pequeno joga em outro campeonato. Luiz Felipe, publisher da Agência Primaz, de Mariana (MG), resumiu assim:

“Querendo ou não, a gente competiu ontem com a grande imprensa, com site do TSE e etc. Como era eleição nacional, não tinha um motivo muito especial que convencesse as pessoas a seguir a apuração com a gente. Por isso, em uma eleição municipal, vai ser ainda melhor. Só o jornalismo local está preocupado com o local.” Luiz Felipe, publisher da Agência Primaz.

Ele tem razão no ponto que mais importa. O dado do TSE é público e chega igual para todos. O que muda é quem sabe ler. Saber que um deputado eleito teve metade dos votos numa única cidade, que um prefeito apostou num candidato que naufragou ali, que a região mandou ou deixou de mandar alguém para Brasília: isso exige quem conhece o território e fiscaliza o poder local o ano inteiro. Esse conhecimento sempre existiu nas pequenas redações. Faltava a ferramenta que fizesse ele chegar ao leitor na noite em que o leitor mais precisa.

Há também uma lição sobre cooperação. Os 18 jornais não concorrem entre si, porque cobrem cidades diferentes. Dividir código, servidor e painel não tirou a cara de nenhum deles. Cada um publicou as próprias matérias, com a própria marca, para o próprio leitor. A rede fez o trabalho que ninguém faria sozinho, e o jornalismo continuou sendo de cada um.

Agora, a eleição da cidade

Esta foi uma eleição nacional, e mesmo assim o leitor puxou o assunto para perto de casa. Em 2028, a eleição inteira acontece na cidade: prefeito e vereador, decididos bairro a bairro. O mapa para contar isso já está no ar. A meta do MPJ é chegar lá com cerca de 800 veículos regionais apurando juntos. O que fizemos em 4 de outubro foi o ensaio. Na noite da eleição, o leitor respondeu à pergunta antes de a gente terminar de fazê-la. Ele quer saber como votou a sua cidade. E só quem cobre a cidade todo dia sabe contar o que esse voto muda na vida dela.

Os 18 painéis continuam no ar e podem ser vistos em mpj.site/hub-eleicoes-2026.

***

Fernanda Lara é cofundadora do Mais Pelo Jornalismo (MPJ) e CEO da I’Max, empresa que mantém o MPJ.

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