Como investigar os algoritmos?
Observatório da Imprensa · Por William Fernandes
(há 2 horas)
Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0


Apesar de avanços na produtividade, dilemas éticos permeiam o uso da tecnologia por parte de procuradores e advogados. (Foto: Rosinei Coutinho/STF | Montagem: CódigoLide)
A inteligência artificial passou a ocupar um espaço cada vez maior nos debates em sala de aula, especialmente nos últimos dois anos. A velocidade de evolução dessas tecnologias trouxe questionamentos sobre seus impactos na nossa própria profissão, mas também despertou a necessidade de compreender como outras instituições da sociedade estão se adaptando a essa transformação.
Foi durante uma reunião de pauta que uma colega mencionou uma iniciativa do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS): o desenvolvimento de um agente de inteligência artificial capaz de auxiliar no atendimento ao público e traduzir termos jurídicos. A partir dessa descoberta, surgiu a pergunta que orientaria nossa apuração: como o Poder Judiciário brasileiro está incorporando a inteligência artificial às suas atividades?
Para respondê-la, buscamos iniciativas nas esferas estadual e federal. Em uma visita ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS), um procurador nos apresentou ferramentas desenvolvidas pelo órgão para automatizar tarefas que, realizadas manualmente, demandariam horas de trabalho. Entre as aplicações estavam a transcrição de documentos e a síntese de casos complexos. Entretanto, nosso objetivo não era apenas apresentar as possibilidades oferecidas por essas tecnologias, mas também questionar os limites de sua utilização.
A complexidade do tema exigiu uma apuração pautada pela pluralidade de vozes. Além de conhecer as iniciativas institucionais, conversamos com especialistas em algoritmos para compreender os riscos associados à utilização dessas ferramentas. Entre os assuntos abordados estava o racismo algorítmico, que demonstra como sistemas tecnológicos podem reproduzir preconceitos e desigualdades existentes na sociedade.
Um dos principais desafios foi traduzir discussões técnicas para uma linguagem acessível, sem simplificar excessivamente o debate. Para isso, buscamos contextualizar os diferentes temas investigados, organizando suas implicações e apresentando perspectivas que permitissem ao leitor compreender os benefícios e os riscos da IA.
A disciplina de Ciberjornalismo II também nos desafiou a pensar a reportagem como um produto multimídia. Incorporamos recursos interativos para explicar termos jurídicos pouco familiares ao público, além de gráficos e vídeos incorporados ao texto.
O resultado foi a reportagem “Em nome da lei: como a inteligência artificial está transformando o Judiciário no Brasil”, publicada em 23 de julho de 2025, com autoria de Ana Carolina Nascimento, Diogo Duarte e Lorenzo Castro. O trabalho conquistou o primeiro lugar em reportagem no 38º Prêmio SET da Indústria Criativa e o segundo lugar na categoria Universitária do Prêmio Themis do TJ-RS.
A experiência reforçou que, diante de tecnologias em constante transformação, o papel do jornalismo vai além de apresentar inovações. É preciso investigar seus impactos, questionar sua utilização e oferecer elementos para que a sociedade participe criticamente desse debate.
***
Willian Fernandes Araujo é professor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (FABICO) e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
O post Como investigar os algoritmos? apareceu primeiro em Observatório da Imprensa.