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Como IA ajuda bilionários a terem uma vida sem impedimentos

Núcleo Jornalismo · Por Cory Doctorow

(há 2 horas)

Publicado originalmente em Núcleo Jornalismo ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0 (programa de republicação para veículos de jornalismo)

Imagem: Núcleo Jornalismo

Artigo publicado originalmente no site Pluralistic, em inglês. Traduzido e republicado pelo Núcleo sob licenca Creative Commons (link original). O texto manteve sua formatação original.

Como IA ajuda bilionários a terem uma vida sem impedimentos

Existem muitas maneiras pelas quais todo bilionário é resultado de uma falha de políticas públicas, mas a mais corrosiva e destrutiva é esta: os bilionários, apesar de não serem eleitos nem prestarem contas a ninguém, têm o poder de controlar (e arruinar) a vida de milhões de pessoas.

Apesar do que a Teologia da Prosperidade e a Hipótese dos Mercados Eficientes querem que você acredite, ter bilhões de dólares não é de forma alguma um indicador confiável de que você também tem a sabedoria necessária pra decidir sozinho como milhares ou milhões de outras pessoas devem viver. E esse poder ditatorial é o efeito mais tangível de ser bilionário.

O bilionarismo é muitas coisas, mas, acima de tudo, é o poder de fazer o que você quer fazer, às custas do que os outros querem fazer. Ser bilionário é viver uma vida sem impedimentos, pairando acima do poder dos seus funcionários, vizinhos ou do seu governo e das leis. É o direito de se chapar com seu próprio produto. É o direito de viver uma vida em que ninguém nunca te cobra pelas merdas que vocês faz.

Os bilionários aspiram viver uma fantasia libertária de mão única, na qual eles têm o direito ilimitado de fazer o que quiserem, e você tem o direito de fazer o que eles mandarem.

Sempre existiu um grupo de pessoas que se recusa a admitir que os outros têm motivos perfeitamente válidos para ir atrás de seus próprios objetivos, em vez de perseguir o que elas querem. Chamamos a maioria dessas pessoas de “crianças”, e dedicamos um esforço social considerável para ajudá-las a superar essa crença. Os bilionários, no entanto, controlam recursos que os permitem dedicar esforço considerável para fazer os outros admitirem que são eles (o bilionários) quem têm que nos dizer o que fazer.

É por isso que bilionários amam a economia neoclássica, com sua doutrina das “preferências reveladas”, segundo a qual a única forma verdadeira de entender as preferências de alguém é ignorar o que a pessoa diz e prestar atenção só no que ela faz. É uma crença que só pode ser adotada por quem sofre de lesão neurológica autoinfligida adquirida ao cursar economia, que torna a vítima incapaz de perceber ou raciocinar sobre o poder. Acreditar em “preferências reveladas” é olhar pra alguém que vendeu um rim pra pagar o aluguel e se maravilhar com essa pessoa, cuja preferência revelada por ter um rim só:

>> pluralistic.net/2026/03/30/players-of-games/?ref=nucleo.jor.br#know-when-to-fold-em

“Preferências reveladas” é a versão de economista sobre o valentão que agarra seu braço e começa a te bater com a sua própria mão, gritando “para de se bater!”. A função ideológica das “preferências reveladas” é permitir que bilionários vivam sem ser impedidos de fazer nada. É uma vida em que eles podem impedir todo mundo, mas ainda se dizem defensores da “liberdade”.

Foi isso que Peter Thiel quis dizer quando escreveu que “a democracia é incompatível com a liberdade”. Numa democracia, as pessoas sobre quem você exerce poder coercitivo podem se unir pra criar instituições públicas que funcionam como um freio sobre seu poder. Pra maximizar a própria liberdade (como fazer coisas como espionar pessoas e esmagar veículos de jornalismo), Thiel precisa impedir que todos nós votemos, pra gente não votar para tirar essas liberdades tão queridas dele:

>> www.cato-unbound.org/2009/04/13/peter-thiel/education-libertarian/?ref=nucleo.jor.br

Dizem que nós, meros mortais, devemos nos submeter inevitavelmente à “morte e aos impostos”. Os bilionários já corromperam há tempos o nosso sistema político a ponto de não precisarem mais pagar impostos:

>> press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/S/bo256019296.html

Eles têm (na prática) riqueza infinita, o que significa que têm (na prática) poder infinito, incluindo o poder de barrar qualquer tentativa democrática de limitar a riqueza deles (e, assim, o poder):

>> www.hamiltonnolan.com/p/the-war-against-accumulated-capital

Depois de vencer a batalha dos impostos, os ultrarricos agora estão empenhados em derrotar a morte também, o que os torna alvos fáceis para os cultistas e golpistas mais esquisitos do mundo, que prometem a eles uma mistura de imortalidade física e digital:

>> www.youtube.com/watch?v=0oVSnaINJ30

O fato de os bilionários serem tão otários, tantas vezes, é o argumento mais forte contra o bilionarismo. Bilionários não são só poderosos, são também falíveis. Todos nós somos falíveis, claro, mas só os bilionários conseguem impor suas ideias imbecis sobre tantas outras pessoas, as quais não ganham um voto sobre o assunto.

Henry Ford achava que era tão rico que podia construir moradias pra trabalhadores brasileiros com as janelas voltadas à mesma direção das moradias que tinha construído em Dearborn, Michigan. Ele achava, literalmente, que ser rico significava poder ignorar o conceito de inclinação do eixo da Terra (ele estava errado):

>> memex.craphound.com/2010/06/02/fordlandia-novelistic-history-of-henry-fords-doomed-midwestern-town-in-the-amazon-jungle/

Claro que essa foi a menor das loucuras de Ford. Ele também acreditava numa conspiração judaica secreta pra controlar a humanidade:

>> www.pbs.org/wgbh/americanexperience/features/henryford-antisemitism/

E, apesar de Ford se mostrar tantas vezes, e de forma comprovada, tão burro quanto uma porta, ninguém conseguiu impedi-lo de contratar soldados pra literalmente massacrar quem tentasse limitar sua capacidade de dizer aos outros como viver:

>> en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_the_Overpass

Ford não é exceção. Elon Musk acredita no mesmo lixo racista que Henry Ford… mas também acredita que, se você for rico o bastante, pode simplesmente fazer a geometria e a física desaparecerem se quiser:

>> pluralistic.net/2025/07/24/geometry-hates-cars/#dogshit-unit-economics

Mais do que qualquer outro, Musk ilustra como o isolamento em relação a quem pode te impedir leva à ruína absoluta. Quaisquer péssimas ideias que Musk tenha, ele pode colocar em prática. Isso gera um monte de impacto negativo, inclusive a possibilidade bem real de que um dia a sua casa seja esmagada por destroços em chamas de seus foguetes:

>> www.vice.com/en/article/texas-residents-are-suing-spacex-over-terrestrial-bombardment/

Isso, no entanto, parece um problema pequeno se comparado ao que fez no DOGE do governo dos EUA: as ideias erradas de Musk, somadas à impunidade de bilionário, também permitiram que ele matasse centenas de milhares de crianças entre as mais pobres do mundo:

>> https://hsph.harvard.edu/news/usaid-shutdown-has-led-to-hundreds-of-thousands-of-deaths/

O bilionarismo é terrível. Por definição, quem causa o tipo de dano necessário pra acumular bilhões de dólares em busca de impunidade total é alguém que vai usar essa impunidade pra machucar ainda mais gente. Qualquer um que não consiga superar a insistência de uma criancinha em subordinar os outros à própria vontade não deveria poder subordinar ninguém à própria vontade.

Diletantes bilionários não são como diletantes comuns. Qualquer um pode ser maluco, mas malucos bilionários têm o multiplicador de força do dinheiro e da impunidade. Isso permite que um bilionário transforme suas ideias grotescas numa força imparável que destrói a educação pública:

>> pluralistic.net/2026/03/09/autocrats-of-trade-2/#witness-the-firepower-of-this-fully-armed-and-operational-battle-station

É esse tipo de coisa que também permite que bilionários (incluindo o bilionário que está arruinando a educação pública) sequestrem e estuprem mais de mil garotas em uma ilha particular:

>> www.pbs.org/newshour/politics/what-to-know-about-bill-gates-relationship-with-jeffrey-epstein-as-he-is-interviewed-in-house-probe

Seja qual for o capricho maluco de um rico, a gente tem que viver com ele. Veja Barre Seid: o bilionário de 94 anos fez fortuna fabricando eletrônicos e depois doou US$ 1,6 bilhão pra financiar a “filantropia de ataque”, com o objetivo de minar a crença nas mudanças climáticas e impedir qualquer ação pra evitá-las:

>> www.propublica.org/article/barre-seid-heartland-institute-hillsdale-college-gmu

Seid é um dos principais motivos de estarmos vivendo o super El Niño. Ele não está apenas entre os 0,1% mais ricos, mas também entre os 0,1% que mais merecem a culpa pela elevação de quase quatro metros no nível do mar que está apagando Long Beach do mapa neste momento:

>> ktla.com/news/local-news/long-beach-boardwalk-collapse-rachel-surf/

Henry Ford não acreditava na inclinação do eixo do planeta. Elon Musk não acredita em geometria.

Barre Seid não acredita em mudança climática. Mas Barre Seid acredita em alguma coisa: Barre Seid acredita em ratos.

Durante três anos, Seid pagou um pequeno exército de capangas pra circular pelo Lincoln Park, em Chicago, espalhando punhados de castanhas de alta qualidade pelo chão, o que atraiu bandos de pombos e enxames de ratos. Ratos estão em todos lugares do parque. Tudo está coberto de cocô de pombo. Seid já foi repetidamente multado, citado e advertido, e mesmo assim continua transformando o bairro num criadouro descontrolado de pragas:

>> gizmodo.com/a-billionaire-is-fueling-a-rat-explosion-in-a-chicago-park-in-the-stupidest-way-possible-2000823641

Se quem mora, trabalha e frequenta o Lincoln Park quer ou não ser invadido por ratos e escorregar em poças grossas de cocô de pombo, isso é irrelevante. Seid pode pagar qualquer multa que a prefeitura aplique (uma multa é um preço, e ele é bilionário), o que significa que não existe nenhum motivo prático pra ele parar. Ele tem a liberdade de agir sem ser contrariado em todos os seus desejos, incluindo o desejo de forrar um bairro inteiro de fezes, de modo que todo mundo perca a liberdade de viver sem cocô de pombo e sem ratos.

Esse é o negócio com os bilionários: como escreveu Peter Thiel, a democracia é incompatível com a liberdade (de ser bilionário). O fato de a vontade de Barre Seid de transformar o Lincoln Park numa lagoa de adubo de cocô de pombo ser bastante impopular entre os moradores de Chicago é irrelevante. Você não pode tirar Barre Seid do cargo pelo voto, porque ninguém o elegeu Czar da Merda de Pombo. Ele assumiu o posto por direito de conquista.

Nossas vidas estão cheias de coisas horríveis e extremamente impopulares que não conseguimos eliminar pelo voto porque bilionários gostam delas. Pegue a decisão de permitir que Larry Ellison e seu filhinho fracassado comprem e matem a Warner Studios. É uma ideia impopular, principalmente na Califórnia, onde ficam Warner, Paramount e os Ellison. Apesar de todos nós odiarmos essa ideia, Ellison pode fazer o que quer, porque ele não pode ser impedido:

>> pluralistic.net/2026/09/22/happy-chudmas/#baloney-in-our-slacks

Alguns dos democratas mais poderosos da Califórnia prometeram barrar a fusão. Em vez disso, entregaram de mãos beijadas o futuro do estado porque concluíram que não tinham poder suficiente pra contrariar um bilionário:

>> prospect.org/2026/10/08/democrats-who-let-trumps-oligarchs-buy-hollywood-warner-bros-david-ellison-gavin-newsom/

O desastre da Warnermount mostra a falha fundamental do libertarianismo. Mesmo que você seja o tipo de libertário enamorado por Musk. que não consegue mais abrir o seu exemplar de Atlas Shrugged porque as páginas estão coladas, e acredita que o único papel do Estado é forçar o cumprimento de contratos, você ainda precisa que o Estado seja capaz de fazer cumprir esses contratos. Se corporações, ou até bilionários individuais, acumulam mais poder do que o Estado, eles sempre podem mandar os fiscais de contrato do Estado à merda.

O juiz tem que ser mais poderoso que os jogadores em campo. Logo, o menor governo possível precisa ser determinado pelo tamanho da maior corporação e pela fortuna do bilionário mais rico que você está disposto a tolerar.

O mundo está em péssimo estado agora, mas não precisaria estar. Como [o prefeito de Nova York] Mamdani nos mostrou, não é tão difícil administrar bem uma civilização tecnológica avançada. Tapar buracos, fazer o transporte funcionar e aplicar regras de moradia não é ciência de foguete nem neurocirurgia. A gente sabe fazer essas coisas – só não fazemos porque os bilionários não querem, e eles são difíceis de impedir:

>> yourlocalepidemiologist.substack.com/p/the-revolutionary-art-of-fixing-the

Deixamos as pessoas mais gananciosas e mais cruéis entre nós irem atrás de seus sonhos de criancinha de terem uma vida sem impedimentos, à custa de qualquer resquício de administração competente, e agora estamos fodidos. É por isso que as pessoas estão tão furiosas com a IA: não há nada de errado com a ideia de automatizar algumas tarefas com técnicas estatísticas avançadas, mas o fato de que tantos recursos escassos foram alocados pra construção da infraestrutura de IA, deixou bilionários com tesão por uma tecnologia que lhes permite deixar a expertise de lado em favor do dinheiro:

>> pluralistic.net/2026/10/06/nonfungible/#theory-free

Afinal, especialistas podem contrariar bilionários. Podem se recusar a aplicar sua expertise em favor da insensatez de um bilionário. O tipo de IA que a indústria persegue hoje se baseia na ideia de que dá pra simplesmente pedir a um computador que produza “inferências sem teoria” capazes de operar uma fábrica, dirigir um carro ou praticar medicina sem saber nada, só extraindo correlações estatísticas de conjuntos de dados inimaginavelmente vastos.

Em algum nível, as pessoas sabem disso. Entendem que IA e bilionarismo estão intimamente ligados, e que o setor caminha pra perder cerca de US$1 trilhão este ano porque, pra bilionários, US$1 trilhão é um preço pequeno por uma vida sem impedimentos.

Este texto foi traduzido do inglês com auxílio de inteligência artificial e integralmente revisado por editores humanos, seguindo nossa política aberta de uso de inteligência artificial.

Ler no site da fonte: Núcleo Jornalismo ↗