Cientista que enfrentou Bolsonaro teme ‘ruindade ambiental’ se Flávio for eleito
Repórter Brasil · Por Beatriz Souza
(há 2 horas)
Publicado originalmente em Repórter Brasil ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0 (conteúdo jornalístico)

SE VENCER O SEGUNDO TURNO, Flávio Bolsonaro (PL) terá mais apoio no Congresso para promover retrocessos ambientais do que seu pai teve na Presidência, avalia Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
O físico, que enfrentou Jair Bolsonaro em defesa da ciência brasileira no combate ao desmatamento na Amazônia, vê na composição do próximo Legislativo uma das principais razões para sua preocupação. “Se ele quiser fazer ruindade ambiental, ele vai ter muito mais apoio”, afirma.
Em 2019, Jair Bolsonaro chamou de “mentirosos” os dados de devastação do Inpe e insinuou que Galvão estivesse a serviço de alguma ONG internacional. O cientista defendeu o trabalho do instituto e desafiou o então presidente a sustentar as acusações frente a frente. Foi demitido em agosto daquele ano, após três anos à frente do órgão. Naquele dezembro, integrou a lista da revista Nature de dez pessoas que marcaram a ciência em 2019.
Após a saída de Galvão do Inpe, o governo Bolsonaro chegou a rejeitar o uso de imagens produzidas pelo instituto e, em 2020, contratou uma empresa norte-americana para fornecer imagens de satélite semelhantes às da instituição brasileira.
Professor titular aposentado da USP (Universidade de São Paulo), Galvão tem 78 anos e doutorado em física de plasmas pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos Estados Unidos. Presidiu o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) de 2023 a 2025, no governo Lula (PT), e exerceu, como suplente, o mandato de deputado federal por São Paulo entre outubro de 2025 e março de 2026. Voltou a disputar uma vaga na Câmara pelo PSB no domingo (4), mas não se elegeu e ficou novamente como suplente.
Na entrevista à Repórter Brasil, concedida na terça-feira (6), Galvão afirma que a resposta de Flávio sobre o aquecimento global na sabatina da TV Globo o deixou “extremamente preocupado e assustado”. Na ocasião, em 28 de agosto, o candidato atribuiu os eventos climáticos extremos a ciclos e relativizou a influência humana sobre eles. O físico também critica a ausência de referências ao aquecimento global no plano de governo do senador.
A preocupação de Galvão com o novo Congresso e uma eventual Presidência de Flávio passa também pela Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovada em 2025. A legislação ampliou hipóteses de licenciamento simplificado e acelerado, por mera declaração do empreendedor, além de ter dispensado determinadas atividades agrícolas e pecuárias do licenciamento. Para o cientista, esse enfraquecimento da legislação e dos órgãos ambientais compromete a promessa de proteger os biomas.
Do outro lado, Galvão avalia positivamente a redução do desmatamento no governo Lula, mas pede mais cuidado com a pesquisa de petróleo na foz do rio Amazonas e com a pavimentação da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Reconhece a necessidade de transporte da população local e cobra maior participação dos pesquisadores nas precauções ambientais.
Sobre a Ferrogrão, projeto de ferrovia de 933 quilômetros previsto para ligar Sinop (MT) e Miritituba, distrito de Itaituba (PA), o cientista defende o respeito às populações indígenas e a comparação dos impactos provocados pelas diferentes alternativas de transporte.
Para conversar com quem se afastou das urnas ou votou em Flávio, Galvão faz uma crítica aos progressistas por não ouvir o outro lado. “Ás vezes, já vamos tentando levar uma ideologia. A primeira coisa que temos que fazer é entender o problema do cidadão”.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista:
O que podemos esperar de um governo Flávio Bolsonaro em comparação com o de Jair Bolsonaro?
Reconheço no Flávio Bolsonaro um preparo intelectual superior ao do pai. A própria maneira de falar mostra isso. No entanto, ele participa de grupos grandes, com muitos interesses. Não vou dizer que Jair Bolsonaro não tinha isso, mas ele me dava a impressão de ser uma pessoa mais individualizada. Flávio, não.
Ele vai ter um Congresso muito mais favorável. Essa eleição nos assustou fortemente. A bancada ruralista cresceu muito e tanto a Câmara como o Senado estão muito mais fortes do que estavam no governo de Jair Bolsonaro. Se ele quiser fazer ruindade ambiental, vai ter muito mais apoio. Essa é uma preocupação que eu tenho.
Flávio promete usar imagens de satélite, inteligência artificial e dados em tempo real contra o desmatamento, mas não menciona aquecimento global no plano de governo. Como o senhor avalia essas propostas?
A resposta dele na sabatina da Globo sobre aquecimento global e mudança climática me deixou extremamente preocupado e assustado. Ele falou que não existe nem isso, que é normal, que são coisas cíclicas que ocorrem, aquece um pouco e depois volta, que não tem nada de efeito humano.
Li o plano dos dois candidatos. O do Flávio é assustador, é temeroso para sociedade. Ele diz que trata o meio ambiente como um ativo estratégico, não como um obstáculo ao desenvolvimento. O que está por trás dessa afirmação é extremamente preocupante. Também fala que quem produzir respeitando a legislação deve ser tratado como parceiro na questão ambiental.
Ele fala que vai reduzir o desmatamento ilegal, mas aí tem um truque que talvez os eleitores não saibam: a aprovação da Lei 15.190, de 2025 [a nova Lei Geral de Licenciamento Ambiental]. Por exemplo, eles têm a LAC, que é a Licença por Adesão e Compromisso. A pessoa vai simplesmente dizer que se compromete e, sem nenhum controle, sem nenhuma aprovação do Ibama, vai poder começar a desmatar [legalmente].
Ele fala que o licenciamento agrícola e pecuário não vai ser necessário para quem tem CAR [Cadastro Ambiental Rural, uma espécie de CPF da terra]. Eu tenho CAR. Sabe como foi feito? Simplesmente autodeclaratório. Eu declarei o que tem de mata. Tenho o CAR há dez anos e não teve inspeção até hoje.
Tudo o que ele coloca no plano está baseado numa lei que vai destruir a regulamentação ambiental do Brasil. Outro problema é a fragmentação territorial: estados e municípios vão poder definir quais obras licenciam ou não. Tirou todo o controle federal. Ao dizer que vai respeitar a lei, é essa lei que ele está falando.
Eu estava na Câmara quando lutaram fortemente para aprovar essa lei. Foi uma das sessões em que fiquei com lágrimas nos olhos, de ver toda a legislação ambiental brasileira, tão respeitada internacionalmente, sendo destruída. É essa lei que ele fala que vai respeitar, e isso vai significar uma devastação ampliada de todos os nossos biomas, sem dúvida.
(Nota da redação: apesar de já estar em vigor, a Lei 15.190/2025 pode ser considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal, que analisa diversas ações sobre a norma).
O governo Jair Bolsonaro tinha uma divergência técnica com o Inpe ou uma divergência política?
Era uma divergência ideológica. Não sei se era não acreditar no efeito dos gases de estufa para o aquecimento ou se era intencionalmente falar contra isso. Antes mesmo de assumir, Bolsonaro já declarava que os dados do Inpe não eram exatos. Também julgava que essas ações iam contra o agronegócio. O Inpe provia os dados de forma completamente autônoma, e isso incomodava muito o governo.
Ao longo de um semestre, o Inpe sofreu vários ataques, que eu respondi. Naquela entrevista em que o Dom Phillips perguntou se os dados do Inpe eram errados, o presidente disse que eram definitivamente mentirosos. Esse tipo de atitude é que preocupa.
Em junho de 2019, antes do embate com Bolsonaro, chegamos a dar cerca de 15 alertas por dia de desmatamento acima de 15 hectares numa área do Pará. Nada foi feito pelo Ibama. O que tememos agora é o que houve no passado: Ricardo Salles (então ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro) desmontou o Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) e parou o Fundo Amazônia. O fundo foi importantíssimo, inclusive para mim como diretor, para fazer várias ações. O pessoal do Ibama que ia fiscalizar foi demitido ou colocado atrás de escrivaninhas. Foi toda uma atitude para simplesmente cobrir a questão do desmatamento.
(Nota da redação: Dom Phillips era um jornalista britânico que cobria a Amazônia e foi assassinado em junho de 2022 no Vale do Javari, junto com o indigenista Bruno Pereira. O episódio citado ocorreu em 19 de julho de 2019, durante coletiva de Bolsonaro com jornalistas estrangeiros, disponível aqui).
Que efeito têm os ataques de um presidente a informações técnicas e científicas?
O letramento científico da nossa população não é tão alto. As redes sociais despertaram uma ansiedade muito grande por notícias rápidas, pouco profundas e não complexas. Isso é muito explorado pelos negacionistas.
Por que cidades da fronteira agrícola na Amazônia, como Novo Progresso (PA), onde Flávio teve 84% dos votos válidos, se identificam tanto com o discurso bolsonarista?
Não critico o agronegócio como um todo. Como presidente do CNPq, visitei Rio Verde, em Goiás, onde há um agronegócio muito forte, integrando agricultura, floresta e criação de gado, no que hoje se chama agricultura regenerativa. Mas, quando vamos subindo e chegando à Amazônia, temos um agronegócio completamente predador. Esse pessoal quer ter Bolsonaro para continuar explorando.
É difícil dialogar com um bolsonarista sobre a defesa do meio ambiente?
Esse pessoal movido pelo ganho rápido tem uma visão muito curta de ganhar dinheiro. Não sabe que toda a nossa umidade vem da Amazônia, dos nossos rios voadores. Ou não quer acreditar. Ou talvez acredite. Eu não sei exatamente o que passa pela cabeça dessas pessoas.

Como o senhor avalia as contradições do governo Lula em grandes obras, como a pavimentação da BR-319?
Com o asfaltamento, pode crescer muito mais a questão biológica de organismos que podem afetar a nossa saúde.
Isso tem que ser estudado, na minha opinião, com cuidado. Falta ao governo olhar com mais cuidado e chamar os cientistas para discutir medidas para precaver ou diminuir os danos o máximo possível. Tem um trabalho muito bem feito por cientistas do Inpa [Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia].
Já estive na BR-319 várias vezes e entendo a demanda da população local por melhor transporte. Mas não vejo as medidas de precaução para evitar os danos terem sido tomadas, porque envolvem investimentos mais altos.
A própria Lei 15.190 tem essa definição de obras aprovadas pelo Conselho de Governo como estratégicas. Elas passam mais fácil. Essa é a grande preocupação que tenho.

E no caso da Ferrogrão?
Primeiro, há a aprovação das populações indígenas. Isso tem que ser articulado onde a ferrovia vai passar e respeitado, mesmo que tenha desvio. É um dos problemas complicados.
Aquela região produz a soja que exportamos. É preciso comparar se é muito melhor fazer esse escoamento para o norte ou continuar transportando de caminhão. Alguma perda vai ter.
Muitas medidas teriam que ser tomadas para ver se faz essa Ferrogrão ou não. Também há o problema da navegação no rio Tapajós, que é bastante sério. Essas questões têm que ser olhadas muito detalhadamente e é preciso chamar os especialistas. Às vezes, a discussão é levada só para a questão ideológica, não técnica.
Como funcionam o Prodes e o Deter e por que esse monitoramento por satélite é importante para proteger a floresta?
Esse sistema foi criado pelo Inpe no final da década de 1980 e começou monitorando por satélite o desmatamento da Amazônia. Foi criado inteiramente no Brasil, pelo pessoal do Inpe. Começou com o Prodes, que dava o desmatamento total ocorrido no ano.
Em 2004, houve um pico de desmatamento no governo Lula. Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente, pediu ao diretor do Inpe que criasse um novo sistema que desse alertas de desmatamento. O pessoal técnico avisou que esse sistema não teria uma precisão tão grande como o Prodes. Mas, para alertas, não tem problema.
O sistema de alertas foi um grande êxito. O Prodes dá o resultado integrado do desmatamento com precisão muito maior. O sistema do Inpe é muito respeitado e tem colaboração com a Nasa, principalmente com professores da Universidade de Maryland, que fazem uma checagem cruzada dos resultados, e também com a Agência Espacial Europeia. A série foi estendida para o Pantanal, para o Cerrado e para todos os seis biomas brasileiros.
A eficácia desse monitoramento depende da integração com os órgãos de fiscalização e de vontade política?
O Inpe não faz a fiscalização, só provê os dados. A fiscalização cabe ao Ibama e ao ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]. Uma vez detectado o desmatamento, o Ibama tem acesso imediato ao alerta.
O Inpe preserva os dados por um período antes de colocá-los em sua página. Na minha época como diretor, acho que era da ordem de duas semanas. Agora não sei quanto. A razão era evitar que os desmatadores soubessem que tinham sido detectados. Foi uma solicitação do próprio Ibama.
Depois desse período, os dados são disponibilizados livremente na página do Inpe. Qualquer pessoa pode acessar. Aí deu o grande embate com o presidente (Jair Bolsonaro), que disse que estávamos dando dados sem informá-lo. Mas os dados estão na página.
Considerando que o senhor fez parte da base do presidente Lula no Congresso, como faz para conversar sobre a eleição com quem anulou o voto, votou em branco, não compareceu ou votou em Flávio Bolsonaro?
Tenho a experiência de ter sido professor por 52 anos. Você olha no olho do aluno e sabe qual é o questionamento dele. A primeira coisa é não chegar com a atitude de que estou trazendo uma coisa nova, que eu sei, e vou explicar. É preciso entender a indagação da pessoa, seu nível de conhecimento e sua ansiedade, e adaptar a discussão. Às vezes, não se consegue chegar a uma explicação técnica muito profunda.
A questão de votar ou não tem sido a mais difícil. Você encontra um cidadão que não é politizado, não é de direita nem de esquerda. Está preocupado com o negócio dele, se vai vender, se vai estar asfaltado. Faço um mea-culpa: nós, mais progressistas, às vezes já vamos tentando levar uma ideologia. A primeira coisa que temos que fazer é entender o problema do cidadão.
Tenho procurado mostrar firmemente a importância de o cidadão se manifestar. O argumento é: se o senhor não votar, alguém vai decidir pelo senhor. Às vezes, as pessoas entendem. Mas temos que reconhecer que há muito desencanto com a política na população brasileira.
Nessa polarização que tivemos na eleição, nada profundo sobre o futuro do país foi discutido, nem de um lado nem de outro. Vamos ser bastante honestos. Espero que agora, no segundo turno, esse espaço apareça.
Há algo que o senhor gostaria de acrescentar?
Independentemente da sua ideologia política, nós corremos sério risco nessas eleições se os cidadãos votarem em pessoas negacionistas. Não vou dizer nome, mas não é só a questão da Presidência em geral. Estamos atravessando um período muito difícil da humanidade.
A inteligência artificial, por exemplo, traz grandes possibilidades de ganhos, mas também desafios enormes que podem afetar empregos. Se não tivermos governantes e membros do Legislativo que saibam elaborar políticas públicas corretas e tenham o conhecimento necessário, nossa sociedade corre enorme risco.
25 anos investigando para mudar.
A Repórter Brasil já ajudou a impulsionar leis, fortalecer direitos e combater o trabalho escravo.
Em 2026, fazemos 25 anos — e vem muito mais por aí!
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