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Benefícios que Flávio sugere cortar movimenta a economia de pequenas cidades

Marco Zero Conteúdo · Por Inês Campelo

(há 1 hora)

Publicado originalmente em Marco Zero Conteúdo ↗ · Uso: CC BY-ND 3.0 BR

Imagem: Marco Zero Conteúdo

A proposta de uma transição de dois anos no Bolsa Família, anunciada na segunda-feira (19) por Daniella Marques, coordenadora do plano de governo de Flávio Bolsonaro, acrescentou um novo elemento ao debate sobre as ameaças ao futuro dos benefícios sociais em uma eventual gestão do candidato. Em entrevista à CBN Bahia, ela defendeu o prazo para beneficiários que consigam emprego formal ou abram um negócio, com retorno ao programa caso não consigam se manter. A declaração ocorre em meio a claros sinais sobre mudanças que um governo bolsonarista faria para reduzir o dinheiro destinado a milhões de brasileiros.

E não é só o Bolsa Família que está ameaçado. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, interlocutores da campanha de Flávio discutem desvincular os reajustes das aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) dos ganhos reais do salário mínimo, dentro de um pacote de ajuste estimado em R$ 250 bilhões. A medida limitaria o crescimento desses pagamentos.

O alcance de um eventual “tesouraço”, como o próprio Flávio tem chamado a sua proposta de cortes no orçamento, ultrapassa as famílias que recebem os benefícios. Nas pequenas cidades, esse dinheiro ajuda a pagar alimentos, remédios, roupas e contas domésticas. Ao chegar aos caixas de mercados, farmácias e outros estabelecimentos, transforma-se em receita para comerciantes e ajuda a sustentar compras de fornecedores e empregos. Uma restrição à renda das famílias pode, assim, atingir também quem nunca recebeu um benefício.

Para entender o que está em jogo, a Marco Zero foi a Casinhas, no Agreste pernambucano. Com população estimada em 13.447 habitantes em 2026, o município se destacou em um levantamento exploratório sobre o peso dos pagamentos diante do tamanho das economias locais. Em julho, seus moradores receberam R$ 6,81 milhões em Bolsa Família, aposentadorias do INSS e BPC.

Se projetarmos esse valor mensal em um ano, a soma equivaleria a cerca 65% do PIB municipal. Por esse critério, Casinhas aparece em primeiro lugar em Pernambuco e em décimo no país entre os 4.955 municípios com informações disponíveis para os três benefícios e o PIB. A comparação usa períodos diferentes e não mede a contribuição dos benefícios ao PIB, mas ajuda a dimensionar os pagamentos e orientou a escolha da cidade para a reportagem.

Os dois lados do balcão

Maria Vitória Rodrigues, 22 anos, conhece a importância do Bolsa Família dos dois lados do balcão. Com o marido, abriu há três meses um mercadinho em uma das ruas mais movimentadas de Casinhas. No negócio, percebe a diferença quando o dinheiro dos benefícios chega aos clientes. Em casa, usa o pagamento que também recebe para atender às necessidades da filha, Maria Helena, de 5 anos.

“As pessoas aqui vivem do Bolsa Família. Dia de pagamento melhora muito o movimento”, conta. Sobre o dinheiro destinado à própria família, diz: “Ajuda muito. Posso comprar as coisinhas dela. É mais do que um complemento de renda. Faria muita falta se acabasse”.

Sua experiência mostra que abrir um negócio e precisar do benefício podem fazer parte da mesma realidade. Uma redução nos pagamentos atingiria Maria Vitória em duas frentes: no orçamento da casa e nas vendas do mercadinho.

Um olho na caderneta e outro no calendário

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

No Mercadinho Leal, o calendário de pagamento dos benefícios é conhecido de cor. Ann Mary Barbosa Leal, 73 anos, nasceu e cresceu em Casinhas e administra o negócio fundado pelo pai, com a ajuda do filho e de dois funcionários. O estabelecimento fica em frente à Igreja de Nossa Senhora das Dores, padroeira da cidade, e a cerca de 100 metros da lotérica onde moradores recebem o Bolsa Família. “Dia de pagamento aumenta as vendas”, afirma.

Ann Mary preserva uma velha prática do pai. Até hoje, ela mantém uma caderneta na qual anota as compras dos clientes mais fiéis, que acertam as contas mensalmente. O dinheiro que entra nas casas também importa para quem vende a prazo. “Uma redução das aposentadorias pesaria muito”, diz a comerciante.

Isso não significa que todo o dinheiro recebido pelos moradores permaneça em Casinhas. Segundo Ann Mary, o movimento do mercadinho já foi melhor. Parte dos clientes está fazendo compras nos atacarejos de Surubim, cidade-polo situada a cerca de 13 quilômetros dali. A renda dos benefícios pode, assim, movimentar negócios para além dos limites do município de residência.

Já Evalda da Silva Melo, 45 anos, relata outro percurso. Ela faz suas compras no próprio município. Quando a equipe da Marco Zero a encontrou, ela atualizava o Cadastro Único na coordenação local do Bolsa Família. “Esse dinheiro ajuda bastante. Eu uso para fazer compras básicas. Seria muito ruim se diminuísse”, conta Evalda, que também está preocupada com uma redução no valor real das aposentadorias rurais, que afetaria diretamente seus pais.

Para ela, o pagamento tem uma importância que vai além do que pode comprar. “Diminui a dependência do marido. Não dependo dele para comprar minhas coisinhas.”

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

A renda que atravessa gerações

Na zona rural de Casinhas, Maria de Fátima Lima de Santana, 66 anos, acompanha essa realidade como aposentada e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Conhecida como Fátima do Sindicato, mora desde que nasceu no Sítio Catolé de Napoleão e atua no atendimento a centenas de aposentados e aposentadas. “No tempo dos meus pais, dos meus avós, a gente sofria. Hoje melhorou muito para as pessoas”, afirma.

Fátima atribui a mudança às políticas públicas e ao dinheiro que passou a chegar às famílias com os benefícios. “Vejo as mulheres muito felizes com suas carteirinhas do Bolsa Família podendo comprar um remédio, alimentos, roupas para seus filhos.” Em seu relato, o efeito aparece também para quem vende. “Você vai nos supermercados, nas farmácias, no comércio e ver. Todo mundo tá crescendo. E a cidade cresce junto.”

O receio de Fátima diante de uma redução ou mesmo o fim dos benefícios sociais é expresso sem rodeios. “Se cortarem [os benefícios], volta tudo para a miséria. Acaba o comércio daqui. Prefeito nenhum vai aguentar”, acrescenta, referindo-se ao papel dos benefícios e dos empregos na prefeitura para manter recursos circulando no município.

Crédito: Inês Campelo/Marco Zero

O efeito sobre quem não recebe

A relação entre transferências de renda e atividade econômica, que fica clara ao circular pelo comércio de Casinhas, também encontra base na academia. Um exemplo é a pesquisa feita por François Gerard, da University College London, Joana Naritomi, da London School of Economics, e Joana Silva, da Católica Lisbon e do Banco Mundial. O estudo Cash Transfers and the Local Economy: Evidence from Brazil foi divulgado pelo Institute for Fiscal Studies em 2024.

Os autores acompanharam 5.076 municípios entre 2007 e 2011 para investigar os efeitos de uma expansão do Bolsa Família em 2009. A escolha desse período permitiu explorar uma mudança nas regras de distribuição de vagas que atingiu as localidades com intensidades diferentes, ajudando a distinguir os efeitos da ampliação do programa de outras mudanças na economia.

Nos municípios mais afetados pela expansão, os pesquisadores estimaram aumento médio de 2% a 3% nos empregos formais do setor privado. Cerca de dois terços do aumento ocorreram entre trabalhadores que nunca foram beneficiários durante o período analisado. Os efeitos se concentraram em atividades voltadas ao mercado local, resultado compatível com o aumento da demanda provocado pelas compras das famílias.

Benefícios pagos aos moradores  (julho de 2026) Valor
Bolsa Família R$ 2,36 milhões
Aposentadorias do INSS R$ 3,68 milhões
BPC R$ 760 mil
Total mensal R$ 6,81 milhões
Projeção de 12 meses com o mesmo pagamento R$ 81,66 milhões
PIB municipal de 2023 R$ 125,63 milhões
Projeção dos benefícios em relação ao PIB 65%
Composição da economia  (valor adicionado de 2021) Participação
Administração, saúde e educação públicas e seguridade social 69,6%
Serviços, incluindo comércio e excluindo os serviços públicos acima 20,4%
Agropecuária 7,3%
Indústria 2,7%

Fontes: CGU, INSS e IBGE. Elaboração: Marco Zero.

Como ler: os 65% comparam uma projeção dos pagamentos de julho de 2026 multiplicados por 12 com o PIB de 2023, sem ajuste de inflação. Não representam a contribuição dos benefícios ao PIB nem pagamentos anuais efetivamente realizados. Os percentuais setoriais são de 2021 e se referem ao valor adicionado, que não inclui os impostos líquidos sobre produtos. Dados dos benefícios provisórios, sujeitos à conferência final.

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