Anomalia rara no palato de bulldog francês pode passar despercebida em exames de rotina
Agência Bori
(ontem)
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Uma alteração congênita rara no céu da boca de um bulldog francês de nove meses foi descoberta por pesquisadores brasileiros durante uma cirurgia para tratar dificuldades respiratórias características de cães de focinho curto. O caso mostra que algumas malformações podem permanecer silenciosas e passar despercebidas em avaliações veterinárias.
O estudo, publicado na sexta (2) na revista Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, relata uma hipoplasia unilateral do palato mole – condição na qual parte dessa estrutura localizada no fundo da boca apresenta desenvolvimento incompleto. A descoberta ocorreu durante uma cirurgia para correção da síndrome obstrutiva das vias aéreas dos braquicefálicos, conhecida pela sigla BOAS.
“Observamos uma anomalia incomum no palato mole, compatível com hipoplasia unilateral. Dada a raridade, decidimos relatá-la para contribuir com a comunidade científica veterinária”, explica a médica-veterinária Paula Priscila Correia Costa, mestre em Ciências Fisiológicas, doutora em Farmacologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e primeira autora do artigo. O estudo surgiu a partir de um projeto maior, o Focinho Curto, do qual participam médicos veterinários da Universidade Federal de Pelotas e cujo objetivo é entender, diagnosticar, tratar e divulgar a síndrome braquicefálica.
O palato mole é a região muscular localizada na parte posterior do céu da boca e tem papel importante na separação entre as vias oral e nasal. Na hipoplasia, essa estrutura não se desenvolve completamente. Dependendo da extensão, a alteração pode favorecer problemas como dificuldade para engolir, tosse, regurgitação nasal, ruídos respiratórios e até pneumonia por aspiração.
No animal analisado, foi observado um encurtamento da porção direita do palato mole. A alteração chamou a atenção porque se trata de um defeito congênito pouco documentado em cães e havia passado despercebido até mesmo em intubações realizadas anteriormente.
A equipe levanta ainda a possibilidade da alteração estar associada a uma fenda palatina submucosa, outro defeito que não necessariamente pode ser identificado apenas pela inspeção visual. A hipótese, porém, não pôde ser confirmada ainda porque não foram realizados os exames complementares necessários.
A bulldog já havia sido diagnosticada com BOAS, com possibilidade de desenvolver alterações como narinas estreitas, palato mole alongado, alterações na traqueia e língua proporcionalmente aumentada. Essas características podem dificultar a passagem do ar pelas vias respiratórias.
“O problema é que sinais de dificuldade respiratória ainda podem ser interpretados pelos tutores como características comuns dessas raças. Ronco, respiração ruidosa, maior esforço para respirar, intolerância ao exercício, tosse, espirro reverso e falta de ar estão entre os sintomas que merecem atenção veterinária. Os cães braquicefálicos, por causa de sua anatomia craniofacial, são predispostos a anomalias do trato respiratório e a variações no desenvolvimento estrutural. Nosso estudo reforça a importância dessas avaliações diante dessa predisposição congênita”, esclarece Costa.
Para os pesquisadores, uma das principais contribuições do caso é chamar a atenção dos médicos-veterinários para alterações que podem coexistir com problemas respiratórios mais conhecidos e, justamente por serem discretas, permanecer sem diagnóstico.
A recomendação é que a avaliação da cavidade oral seja realizada cuidadosamente desde os primeiros exames do animal, procurando alterações no formato e no desenvolvimento do palato mesmo quando não há sintomas evidentes.
O estudo foi conduzido no âmbito do projeto de pesquisa Focinho Curto, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). As autoras contaram com bolsas e apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

(A) Imagem original
mostrando anomalias na cavidade oral.

(B) Mesma imagem destacando uma anormalidade do
palato mole na borda caudal direita, compatível com hipoplasia unilateral do palato mole (estrela amarela) e eversão das tonsilas palatinas (setas pretas).

(C) Imagem pós-operatória
do cão mostrando o palato corrigido.
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