A reconstrução do debate público
Observatório da Imprensa · Por Patricia Blanco
(há 2 horas)
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(Foto: DS stories/Pexels)
O Brasil sai das eleições de 2026 com tarefas urgentes: reconstruir o diálogo público, estabelecer pactos sociais e recuperar um ambiente informacional íntegro, saudável e seguro. Esse movimento passa pela sustentabilidade do jornalismo profissional, plural e ético e pela defesa das liberdades de imprensa e de expressão, sem carta branca para ataques criminosos, preconceitos ou estímulo ao ódio e à divisão social.
A reconstrução desse ambiente exige reconhecer a importância da informação para o exercício da cidadania. O acesso a fatos verificados permite acompanhar decisões de governo, avaliar propostas, fiscalizar o uso de recursos públicos e participar da vida política. A liberdade de expressão garante a manifestação de opiniões e divergências, enquanto a liberdade de imprensa assegura à sociedade o direito de receber informações de interesse público. São direitos complementares, cuja proteção exige responsabilidade de todos os setores da sociedade.
O período eleitoral expôs a deterioração do acesso à informação, das liberdades de imprensa e de expressão e do debate político. Projetos e propostas partidárias cederam espaço à espetacularização, seguindo a dinâmica das redes sociais que visam o engajamento acima de tudo. A mobilização dos eleitores no segundo turno, entretanto, mostrou disposição para participar da política e discutir o futuro do país. E talvez seja preciso rever a interpretação da polarização política, reduzida a dois campos irreconciliáveis que podem resultar na morte da democracia.
Essa participação revela uma oportunidade para ampliar o diálogo. O interesse pela política não precisa se traduzir em hostilidade contra aqueles que defendem outras posições. A democracia pressupõe divergências, disputas eleitorais e alternância de poder, mas também exige respeito às instituições, às regras constitucionais e aos direitos fundamentais. A disposição para participar da política pode contribuir para fortalecer esses princípios, desde que encontre espaços de discussão baseados em informações confiáveis.
O resultado do último domingo revelou um Brasil mais diverso do que a oposição entre “lulismo” e “bolsonarismo” sugere. Direita, liberais, conservadores, democratas de centro, sociais-democratas e correntes de esquerda podem divergir e, ao mesmo tempo, compartilhar o compromisso democrático.
Reconhecer essa diversidade é fundamental para evitar que diferenças políticas legítimas sejam confundidas com ameaças à democracia. Há espaço para discordar sobre economia, políticas sociais, segurança pública e prioridades de governo sem abandonar o compromisso com a Constituição. O jornalismo tem responsabilidade na apresentação dessas diferenças, oferecendo ao público condições para compreender propostas, interesses e consequências das decisões políticas.
O debate público, porém, continua refém das redes sociais, onde manipulação, desinformação, bolhas informacionais e ataques pessoais têm mais espaço do que fatos e argumentos. Algoritmos e vieses de confirmação estimulam a intolerância e a divisão social.
A circulação de informações nesse ambiente também depende de mecanismos pouco conhecidos pelo público. A seleção dos conteúdos, as recomendações personalizadas e os sistemas de publicidade influenciam aquilo que cada pessoa recebe. Muitas vezes, informações falsas ou distorcidas alcançam grandes audiências antes que possam ser verificadas. A repetição dessas mensagens reforça convicções, dificulta o reconhecimento de erros e reduz a disposição para considerar argumentos diferentes.
A verdade factual perde importância diante daquilo em que cada grupo deseja acreditar, e o diálogo é substituído pelo confronto. Os dois últimos debates presidenciais mostraram como a moderação jornalística faz diferença. Na Band, a autonomia concedida aos candidatos, dentro de uma tendência global, resultou em uma rinha de galos, abrindo espaço para a espetacularização dos ataques. Na Globo, a mediação abriu mais espaço às propostas, embora ainda insuficiente. As experiências reforçaram ainda a necessidade da checagem de fatos em tempo real nos debates, que deve permanecer em discussão até as eleições de 2028.
A incorporação dessas verificações exige critérios editoriais claros, equipes preparadas e acesso a documentos e bases de dados confiáveis. Também é necessário distinguir afirmações comprovadamente falsas de interpretações controversas, imprecisões e promessas políticas. A checagem precisa oferecer informações ao eleitor sem interferir indevidamente na disputa. Regras conhecidas pelos candidatos e tratamento igualitário são condições para preservar a credibilidade do processo e a confiança na mediação jornalística.
Novamente, a violência contra a imprensa marcou as eleições, mostrando a falta de entendimento sobre o papel do jornalismo. A Coalizão em Defesa do Jornalismo registrou mais de 20 mil ataques digitais entre o primeiro turno e parte do segundo. As mulheres foram as vítimas em 80% dos casos.
Os ataques atingem profissionais e veículos, mas seus efeitos alcançam toda a sociedade. Ameaças, intimidação, exposição de informações pessoais e campanhas de difamação podem dificultar investigações e limitar a circulação de notícias. No caso das mulheres jornalistas, as agressões frequentemente incluem manifestações de misoginia e violência sexual. A proteção desses profissionais exige investigação, responsabilização dos agressores e medidas capazes de assegurar o exercício da atividade jornalística.
Outra ameaça é o assédio judicial. O período eleitoral registrou dezenas de ações que precisam ser examinadas e classificadas para avaliar seus efeitos sobre a liberdade de imprensa, incluindo autocensura.
Processos repetidos, pedidos de indenização desproporcionais e tentativas de retirada de reportagens podem impor custos elevados às redações, especialmente às pequenas empresas jornalísticas e aos profissionais independentes. O direito de recorrer à Justiça deve ser preservado, assim como a possibilidade de contestar erros e abusos da imprensa. O problema surge quando instrumentos judiciais são utilizados para intimidar jornalistas, dificultar investigações ou impedir a divulgação de informações de interesse público.
O jornalismo precisa fazer sua autocrítica e rever prioridades e práticas editoriais. Enquanto testemunhas registram os acontecimentos à sua volta, o jornalismo vai além.
A velocidade das redes sociais mudou a maneira como as pessoas acompanham os acontecimentos. Imagens, vídeos e relatos circulam antes mesmo da chegada de uma equipe de reportagem. Esse material pode contribuir para a cobertura jornalística, mas exige verificação de origem, contexto e autenticidade. O registro imediato de um acontecimento não substitui a investigação de suas causas, consequências e responsabilidades.
Jornalistas e veículos investigam, verificam, contextualizam e acompanham os fatos. Produzir informação original, confiável e relevante, com método e respeitando princípios éticos da atividade é o que distingue o jornalismo profissional e sustenta seu valor para a sociedade e para o público disposto a financiá-lo.
Esse trabalho depende de investimento em profissionais, equipes especializadas e coberturas de longo prazo. Investigar contratos públicos, acompanhar políticas sociais, fiscalizar governos e empresas e ouvir diferentes setores da sociedade exige tempo e recursos. A sustentabilidade econômica das redações é, portanto, uma condição para preservar a independência editorial e ampliar a oferta de informação de qualidade. Também exige transparência sobre erros, disposição para corrigi-los e respeito ao público.
O mesmo vale para as big techs, que precisam rever a sua atuação e a sua responsabilidade em períodos eleitorais. É necessário ter mais transparência nas decisões de moderação e restrições de alcance, além do respeito à legislação brasileira e da remuneração justa pelo uso de conteúdos jornalísticos.
A expansão dos sistemas de inteligência artificial acrescenta desafios a essa discussão. Conteúdos produzidos por redações são utilizados por ferramentas digitais capazes de apresentar respostas e resumos sem necessariamente conduzir o público às fontes originais. A proteção dos direitos editoriais, a identificação das fontes e a remuneração pelo uso desse material fazem parte do debate sobre o futuro do jornalismo. As plataformas também precisam explicar os critérios que orientam a distribuição de informações e a aplicação de suas próprias regras.
A educação midiática é outra frente decisiva. Deve alcançar crianças, jovens e adultos, nas escolas, universidades, famílias e comunidades. Temos de oferecer ferramentas para verificar fontes, reconhecer manipulações, compreender algoritmos e distinguir reportagem, opinião e propaganda. E atuar de fato na formação de uma audiência crítica, capaz de entender o papel fundamental do jornalismo como bem público e para a manutenção do ambiente democrático.
O jornalismo não pode se limitar a denunciar a degradação do debate público, nem se valer da espetacularização da informação. Precisa assumir a responsabilidade de transformá-lo, recuperando seu papel de mediação, confrontando falsidades com dados e provas, cobrando propostas, investigando os poderosos e dando voz à cidadania.
Essa formação também precisa considerar as mudanças provocadas pela inteligência artificial na produção e circulação de conteúdos. Imagens, áudios e vídeos manipulados ampliam as dificuldades para identificar informações confiáveis. Conhecer essas tecnologias, compreender seus limites e desenvolver o hábito de consultar fontes são habilidades necessárias para a participação na vida pública. Escolas, universidades, famílias, empresas de comunicação e organizações da sociedade civil têm responsabilidades nesse processo.
A reconstrução do debate público depende ainda da capacidade de ouvir diferentes setores da sociedade e recuperar a confiança na informação. O jornalismo pode contribuir oferecendo espaço à pluralidade de ideias, cobrando respostas dos responsáveis por decisões públicas e acompanhando seus resultados. Essa responsabilidade exige independência, compromisso com os fatos e disposição para reconhecer as próprias falhas.
Jornalistas e veículos têm uma contribuição decisiva a oferecer à reconstrução do debate público e não há mais tempo a perder.
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Patricia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta.
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