A quarta vitória de Lula e o perigo de usar a fé contra a democracia
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por João Carvalho*
Quando uma pessoa passa a acreditar que votar em determinado candidato é uma obrigação diante de Deus, sua liberdade de escolha começa a ser ameaçada. A fé pode orientar a vida de cada um, mas não deveria servir para impor posições políticas ou condenar quem pensa diferente. A quarta vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro de 2026, traz de volta uma discussão importante para o Brasil, especialmente depois de anos em que parte das lideranças religiosas se aproximou do bolsonarismo e passou a defender suas posições políticas dentro e fora das igrejas.
A eleição também representa um acontecimento histórico pela trajetória pessoal do presidente reeleito. Em 1945, nascia em Caetés, então distrito de Garanhuns, no Agreste pernambucano, um menino pobre, filho de trabalhadores rurais, numa época em que a pobreza atingia milhões de brasileiros e pesava ainda mais sobre o Nordeste.
Aos sete anos, Lula acompanhou a mãe, dona Lindu, e os irmãos numa viagem de pau de arara rumo a São Paulo. Foram treze dias e treze noites na estrada, alimentando-se basicamente de rapadura e farinha, na esperança de encontrar uma vida melhor. Anos depois, o menino que conheceu a fome e as dificuldades de uma família pobre conseguiria fazer um curso no Senai, trabalhar como metalúrgico e chegar à liderança de um dos mais importantes movimentos sindicais do país.
Aquele trabalhador participaria da fundação de um partido político e se tornaria presidente da República. Agora, conquistou pela quarta vez, pelo voto popular, o cargo mais importante do Brasil. É uma história impressionante, que merece ser reconhecida independentemente das preferências políticas de cada um. Isso não significa deixar de fazer críticas ao seu governo, quando necessárias, mas reconhecer a importância de uma trajetória que começou numa das regiões mais pobres do país e chegou à Presidência da República.
A trajetória de Jair Bolsonaro foi bastante diferente. Nascido no interior de São Paulo, seguiu carreira no Exército e ganhou projeção pública durante conflitos com seus superiores, antes de entrar na política. Eleito vereador do Rio de Janeiro em 1988, chegou à Câmara dos Deputados em 1991 e construiu uma carreira na qual os filhos passaram a ocupar espaço cada vez maior. Enquanto Lula chegou à vida pública por meio dos sindicatos e das lutas dos trabalhadores durante a ditadura militar, Bolsonaro saiu dos quartéis para a política e formou um grupo familiar com forte presença no poder. São caminhos distintos que ajudam a entender a formação política de cada um.
A vitória de 2026 ganha ainda mais importância quando observamos o ambiente em que aconteceu. Lula enfrentou Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, e precisou reverter uma desvantagem no primeiro turno. Flávio recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. Três semanas depois, o resultado mudou, e o presidente foi reeleito com 51,79%, contra 48,21% do chamado “Zero Um” entre os filhos de Bolsonaro, segundo os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral.
O cientista político André Singer, em entrevista à Folha de S.Paulo, apontou fatores que ajudam a entender essa virada. Lula passou a falar mais diretamente dos problemas enfrentados pela população, especialmente das dificuldades econômicas. Ao mesmo tempo, houve uma grande mobilização popular depois do primeiro turno, acompanhada pelo fortalecimento da campanha nas redes sociais, com destaque para o trabalho do deputado André Janones.
Essa mudança ajudou Lula a recuperar terreno numa disputa marcada por ataques às instituições e pela desconfiança alimentada contra o processo eleitoral. O resultado teve, portanto, um significado que foi além da escolha de um presidente, porque ocorreu depois de um período em que as regras da democracia brasileira foram colocadas à prova.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro não significaria, necessariamente, a realização de um novo golpe de Estado. Ele também não pode responder pelos crimes do pai. Mas seria impossível ignorar os riscos ligados ao retorno ao poder de um movimento que já demonstrou disposição para enfrentar as regras democráticas. Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado, entre outros delitos. A condenação se tornou definitiva em novembro de 2025, e o ex-presidente cumpre pena em prisão domiciliar humanitária.
Os sinais do autoritarismo
É nesse ponto que o livro Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, ajuda a entender os perigos que o Brasil enfrentou e ainda enfrenta. Os autores mostram que uma democracia nem sempre acaba por meio de um golpe militar. Muitas vezes, ela começa a perder força pelas mãos de governantes eleitos, que usam seus cargos para atacar as instituições e enfraquecer os mecanismos criados para impedir abusos.
Levitsky e Ziblatt identificam quatro sinais importantes de comportamento autoritário. Eles aparecem quando políticos rejeitam as regras democráticas, deixam de reconhecer os adversários como participantes legítimos da disputa, aceitam ou incentivam a violência e demonstram disposição para limitar direitos e liberdades, inclusive o trabalho da imprensa.
Boa parte desses comportamentos esteve presente no bolsonarismo. Os ataques à confiança nas urnas eletrônicas, as ameaças dirigidas às instituições, a hostilidade contra jornalistas e a maneira como adversários políticos foram tratados mostram que o problema ultrapassou os limites de uma disputa normal entre partidos. O ataque às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, foi uma das demonstrações mais graves desse processo.
A história mostra que movimentos autoritários podem crescer quando o medo, a intolerância e a violência passam a fazer parte da vida política. Foi o que aconteceu, em circunstâncias diferentes, com o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Em A anatomia do fascismo, o historiador Robert O. Paxton explica que, para entender esses movimentos, é preciso observar suas ações, as alianças que estabelecem e a maneira como procuram conquistar e manter o poder.
Bolsonaristas desistem de acompanhar a apuração dos votos
Essa análise permite reconhecer semelhanças com o bolsonarismo, especialmente a valorização quase absoluta de um líder, a ideia de que somente um grupo representa os verdadeiros interesses da nação, a criação de inimigos internos e a tentativa de justificar a violência como resposta aos conflitos políticos. Isso não significa que o bolsonarismo seja uma cópia do fascismo italiano ou do nazismo alemão. Os contextos históricos são diferentes, e o projeto nazista teve no racismo e no extermínio de milhões de pessoas características que não podem ser equiparadas aos acontecimentos brasileiros. Mas essas diferenças não impedem que sejam identificados comportamentos autoritários semelhantes.
Quando a fé vira instrumento político
No Brasil, esse tipo de política ganhou uma dimensão especialmente preocupante quando passou a utilizar a religião para conquistar apoio e desqualificar adversários. Nos últimos anos, algumas lideranças evangélicas, incluindo setores neopentecostais, passaram a defender o bolsonarismo de maneira cada vez mais aberta. Em determinados casos, a preferência por um candidato deixou de ser apresentada como uma opinião política e ganhou o peso de uma orientação religiosa, como se a escolha eleitoral estivesse ligada à fidelidade a Deus.
É um caminho perigoso porque a relação entre um fiel e sua liderança religiosa envolve confiança e questões profundas da vida pessoal. Quando essa confiança é usada para provocar medo, culpa ou rejeição a quem pensa diferente, a religião passa a funcionar também como instrumento de pressão política. O problema não está em pastores, padres ou integrantes de qualquer religião participarem da política, pois todos têm esse direito. O problema aparece quando uma liderança tenta convencer seus seguidores de que existe apenas uma escolha eleitoral aceitável para quem deseja permanecer fiel à sua crença.
Também seria injusto afirmar que todas as igrejas evangélicas agem dessa maneira. O universo evangélico brasileiro é diverso, e muitas comunidades rejeitam a imposição partidária. Um estudo realizado pela More in Common Brasil e pelo grupo Passagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, encontrou propaganda eleitoral em apenas 3,2% das 7.456 celebrações religiosas transmitidas publicamente e analisadas antes do primeiro turno de 2026. A pesquisa não acompanhou conversas privadas nem grupos de mensagens, mas seus resultados mostram por que é preciso evitar generalizações.
A crítica deve se dirigir às lideranças e aos grupos que utilizam a fé para pressionar eleitores, espalhar informações falsas ou transformar adversários em inimigos. Quando isso acontece, a política passa a ser apresentada como uma disputa entre o bem e o mal, na qual discordar pode ser tratado como uma ameaça à própria religião. Essa forma de agir prejudica o debate democrático e também desrespeita a liberdade de consciência dos fiéis.
O Estado laico e a liberdade religiosa
Foi nesse ambiente que uma das passagens mais importantes do discurso de Lula, depois da vitória, ganhou um significado especial. O presidente afirmou que todas as religiões seriam respeitadas em igualdade de condições e que não tinha preferência por nenhuma delas. Em seguida, declarou que “ao Estado laico cabe garantir a liberdade religiosa plena para que as pessoas possam exercitar a sua fé com plenitude”.
A fala recupera um princípio fundamental da Constituição de 1988. O Brasil é um Estado laico, o que significa que o poder público não deve favorecer uma religião nem usar suas decisões para impor crenças à população. Sua responsabilidade é garantir que todas as pessoas tenham liberdade para seguir a religião que desejarem ou simplesmente não seguir nenhuma.
Um Estado laico não é um Estado contrário à religião. É a separação entre o poder político e as instituições religiosas que ajuda a proteger a liberdade de cada cidadão. Num país com tantas crenças diferentes, essa garantia é essencial para que católicos, evangélicos, espíritas, seguidores das religiões de matriz africana e pessoas sem religião possam viver com os mesmos direitos.
O próprio Lula, naquele mesmo discurso, agradeceu a Deus e falou da importância da fé em sua trajetória. Não existe contradição obrigatória entre essa manifestação pessoal e a defesa da laicidade. O presidente tem direito às suas crenças, assim como qualquer cidadão, mas precisa governar sem transformar sua religião em uma regra para toda a sociedade. E esse compromisso deve valer para qualquer pessoa que ocupe a Presidência da Brasil.
Levitsky e Ziblatt também lembram que a democracia depende do respeito aos adversários e do compromisso de não usar o poder para enfraquecer as instituições. Isso significa que os quase 60 milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro não podem ser tratados como um grupo único de extremistas. Entre esses eleitores existem pessoas com opiniões e preocupações diferentes, incluindo muitas que não apoiam tentativas de golpe ou ataques às instituições.
Mas é inaceitável e inacreditável que se vote em alguém com uma trajetória marcada pelo alinhamento com o fascismo e a intolerância (destacando a religiosa). Vindo de um base familiar com histórico de homofobia, racismo, autoritarismo, conhecidos como violentos, reacionários, ultraconservadores, militaristas, armamentistas, antipluralistas, misóginos, homofóbicos, racistas, capacitistas e intolerantes.
Lula terá pela frente um país dividido e um Congresso conservador. Seu desafio será governar para todos, inclusive para quem não votou nele, sem abrir mão da defesa das instituições e dos direitos democráticos. A vitória nas urnas lhe dá a responsabilidade de buscar caminhos para diminuir os conflitos e reconstruir a confiança de uma sociedade que passou anos convivendo com a intolerância política.
A quarta vitória do pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva será lembrada como um acontecimento histórico, tanto pela trajetória do menino pobre que saiu do Nordeste quanto pelo resultado de uma eleição marcada por fortes conflitos políticos. Mas seu significado não deve ficar restrito à conquista de mais um mandato. Existe também a oportunidade de fortalecer uma democracia que enfrentou ameaças graves e ainda precisa aprender a conviver melhor com as diferenças.
O Brasil terá dado um passo importante quando nenhum cidadão precisar escolher entre respeitar sua religião e exercer livremente seu direito de voto. A história daquele menino que deixou o Agreste pernambucano ao lado da mãe mostra o quanto um país pode mudar. Que essa nova etapa também ajude o Brasil a compreender que a fé merece respeito, a liberdade não pode ser negociada e a democracia precisa ser protegida por todos, independentemente de quem vence uma eleição.
João Carvalho é jornalista, pesquisador e mestrando em Ciências da Religião.
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