Pular para o conteúdo

Sábado, 24 de outubro de 2026Anuncie

Brasília 21°C Parcialmente nublado · ↑32° ↓21°
Brasil360O Brasil por todos os ângulos
Brasil

A manha de virar figurinha

Agência Pública · Por Patrícia Vieira

(há 3 horas)

Publicado originalmente em Agência Pública ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0

Imagem: Agência Pública

Bafão, a arte de virar figurinhas, é o hit atual na escola dos meus filhos. Desde a Copa do Mundo, a prática se mantém forte. Ninguém mais pensa em álbum, o que importa é a brincadeira. O mais velho, que tem 8 anos, usa quase todo seu tempo em casa para treinar. Muitas vezes, eu disputo com ele. Não é moleza, mas é divertido.

Ele me dá dicas. O primeiro passo é observar as figurinhas que se pretende virar: estão gastas, carcomidas, já meio envergadas e engruvinhadas com outras? Ou estão novinhas em folha, repousando retamente neoliberais no chão, autônomas entre outras figurinhas? Ou, quem sabe, estão indecisas entre uma postura e outra. Depois, é necessária uma avaliação das condições do momento: estão úmidas ou secas? Tensas de tapas recentes ou relaxadas? A pesquisa tátil é pura aula de Física. 

Aí vem o cálculo decisivo sobre a abordagem, que exige autoconsciência: sou mais forte ou mais veloz? Minhas mãos são úmidas e quentes, o que gera maior adesão, ou mais secas, que exigem maior vedação? Será um tapão franco, vigoroso e vertical, com uma ou duas mãos em concha? Ou uma palma lateral, suave, mas precisa, veloz, cheia de energia vital, como um golpe de Bruce Lee?

Está em jogo todo um dinamismo aéreo de que são capazes as mãos no corpo a corpo com os papeizinhos desejados. O que vira mais: sopro brando ou vendaval? De um jeito ou de outro, imprescindível é o movimento. Sem movimento não se vira figurinha. Movimento modulado pela manha, que se desenvolve com a prática. 

Há os que jogam na fúria e se frustram intensamente: ganham bolos inteiros numa jogada e perdem tudo em seguida. Há os mais matreiros, que vão na maciota, de figurinha em figurinha, com palminhas para as quais, olhando de longe, não se dá nada. Mãozinhas pequenas podem se comportar como excelentes ventosas e, inesperadamente, virar um monte inteiro. De todo modo, é bonito ver um pátio cheio de crianças dedicadas à viração e figurinhas inertes descobrindo sonhos de voo. Pobres figurinhas coladas no álbum, prisioneiras de uma moda.

Os sons ritmados das mãos batendo somados aos saltos das figurinhas — como ideias e afetos se libertando da apatia — é bonito de ver, pura alegria pululante. Durante a Copa do Mundo, a ganância regia os encontros. O que importava para meu filho era rapelar o outro; o troféu era a quantidade. Neste momento, triunfo é produzir giro, é a beleza do gesto, criação de fluxos de vento eficientes. Os valores se modificaram. A graça está no vaivém, convívio animado que faz pendular o espírito dos participantes entre angústia e entusiasmo. 

O esteio para as fervorosas disputas é o cultivo do espaço comum. Qualquer lugar é lugar de inofensivos embates, pode ser calçada, pátio, quadra, mesa da cantina, sofá de casa, banco de trás do carro. A batalha pode ser a dois ou em grupos, cabem meninos, meninas, menines, mais velhos e mais novos — todos são iguais nas possibilidades de virar figurinha. Basta disponibilidade para se voltar ao chão e nele fazer história. Colocar a culpa no tipo de terreno é coisa de covarde. Lamber a mão é roubo grave, equivalente a Big Tech meter a mão na eleição. 

— Vamos embora, filho, já tá tarde. 

— Só mais uma, mãe, é rapidinho. 

Eu aguardo. Basta um último instante, um piscar de olhos, o gesto certeiro e um bolo de figurinhas é virado. 

Ler no site da fonte: Agência Pública ↗