A democracia sob ataque dos que pretendem governá-la
Observatório da Imprensa · Por Armando Medeiros de Faria
(há 1 hora)
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(Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)
A democracia convive com um paradoxo cada vez mais frequente. Lideranças políticas conquistam votos, mandatos e acesso às estruturas do Estado alimentando a desconfiança nas próprias instituições que pretendem ocupar.
O discurso “antissistema” tem demonstrado inegável força eleitoral. No artigo “O Candidato Coach”, as pesquisadoras Aline Cristina Camargo e Liliane de Lucena Ito identificaram elementos centrais nas estratégias discursivas de Pablo Marçal (PRTB) nas eleições municipais de 2024, em São Paulo: ataques à mídia, discurso religioso-moralista, crítica agressiva à esquerda, imagem de liderança independente, uso intensivo das redes sociais e geração de conteúdos nas zonas cinzentas da desinformação. Uma identidade de outsider, construída pela visibilidade digital e pela negação das formas tradicionais de atuação política. A derrota de Pablo Marçal não contradiz a força eleitoral do discurso antissistema. Mas revela seus limites.
As eleições de 2026 oferecem outros exemplos. Em agosto, ao lançar sua candidatura presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) anunciou que o Brasil olhava com nojo para Brasília e que ele iria enfrentar o “sistema”. Em outubro, após o primeiro turno, Lula (PT) compreendeu o impacto da narrativa e apontou seu adversário como “a cara do sistema”. Reivindicou para si a condição de candidato antissistema, ao mesmo tempo que lamentava carregar o desgaste institucional do Supremo Tribunal Federal.
A retórica antissistema revela uma competitividade eleitoral cada vez menos dependente de trajetórias partidárias tradicionais. As plataformas digitais oferecem oportunidades de expressão e mobilização a indivíduos e grupos que dificilmente alcançariam tamanha visibilidade pelos caminhos convencionais da política. Cristalizam-se micropoderes capazes de se transformar em vereadores ou até presidentes. Observado apenas pelo prisma de suas deficiências, o Estado se transforma no inimigo número um. A estratégia é rasa, mas nem sempre o eleitor percebe as armadilhas retóricas.
A circulação veloz de conteúdos marcados pela simplificação, indignação e conflito oferece terreno fértil ao discurso antissistema. Atacar partidos, Parlamento, Judiciário, imprensa ou o próprio Estado rende visibilidade e dividendos eleitorais. Episódios isolados, informações descontextualizadas e meias verdades bastam para produzir novas ondas de indignação. A exatidão dos fatos perde importância diante da capacidade de provocar reações.
O Estado deve viver sob permanente escrutínio, mas não é disso que se trata. Há, nesse comportamento, algo da fábula do “lobo em pele de cordeiro”. Apresenta-se como inimigo dos privilégios e das engrenagens do poder, mas, uma vez eleito, passa a usufruir das estruturas que dizia desprezar. No entanto, para preservar a audiência, mantém acesa a indignação, alimentando conflitos que rendem cliques e seguidores. A provocação pode se transformar em estratégia permanente para conservar o mandato. O risco é organizar a atividade parlamentar em torno de confrontos, polêmicas e crises artificiais destinadas a produzir engajamento.
A chegada ao poder do representante “antissistema” é povoada de contradições. Quem construiu sua popularidade atacando o Parlamento passa a depender de suas prerrogativas, recursos e mecanismos de decisão. Quem desacreditava a política institucional deverá negociar, legislar, fiscalizar e responder pelos resultados do mandato. Poderá continuar explorando a desconfiança ou substituir o discurso de contestação em entregas concretas à sociedade.
O problema se estende ao Executivo. Prefeitos, governadores e presidentes podem transformar decisões administrativas em peças de confronto político, privilegiando suas bases de apoio. Entretanto, governar exige responsabilidades que ultrapassam a mobilização de seguidores. Políticas públicas precisam alcançar também cidadãos que não compartilham das preferências dos governantes. Precisam, ainda, de resultados.
Outra contradição está no contraste entre a lógica das plataformas e os princípios da comunicação pública. A primeira privilegia a visibilidade, personalização, velocidade e engajamento. A segunda exige, com urgência, impessoalidade, pois a autoridade faz o que deve ser feito com dinheiro público, nada mais. Contempla ainda direito à informação, transparência, pluralismo, prestação de contas e diálogo — não performance.
A narrativa antissistema aprofunda o desgaste de instituições desafiadas a demonstrar legitimidade e conquistar confiança em um ambiente conturbado. Não basta lamentar a desinformação ou produzir campanhas de valorização das entregas aos cidadãos. O discurso antissistema encontra espaço também nas falhas reais do Estado: burocracia, privilégios, serviços precários, decisões pouco compreensíveis e dificuldades de acesso à informação e ao atendimento.
Não cabe à comunicação pública competir com influenciadores na produção de conteúdos estridentes. Mas a disputa pela atenção pressiona a gestão pública a se reinventar. Relatórios extensos, números sem contexto e decisões sem explicação pouco aproximam as instituições da sociedade. Tratar falhas recorrentes como pontuais ou naturalizar o mau atendimento aos cidadãos são posturas que dilapidam a confiança nas instituições públicas.
Em tempos de discurso antissistema, as instituições republicanas precisam tornar compreensíveis sua existência, seu funcionamento e sua utilidade para a sociedade. Enfrentar as razões do descrédito, corrigir práticas e demonstrar valor público. Tornar visíveis direitos protegidos, serviços prestados, decisões tomadas e resultados alcançados. E, diante das falhas, reconhecer suas causas e prestar contas das providências adotadas.
Nenhuma estratégia de comunicação pública substitui a obrigação de entregar resultados, corrigir erros e respeitar direitos. Sem uma comunicação capaz de tornar visível o valor público das instituições, amplia-se a distância entre aquilo que elas efetivamente fazem, aquilo que os mercadores de ilusões propagam e aquilo que os cidadãos conseguem reconhecer.
A metáfora do lobo em pele de cordeiro não é gratuita. Certos políticos antissistema disfarçam suas ambições sob o discurso de combate aos privilégios. Manipulam a indignação dos eleitores e corroem irresponsavelmente a confiança nas instituições. A ironia é que, uma vez no poder, terão de conviver com a desconfiança que ajudaram a disseminar. Ou talvez nem se importem. A democracia e a institucionalidade já se tornaram secundárias quando a dissimulação se transforma em método de conquista do poder.
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Armando Medeiros de Faria, vice-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública, ex-diretor de comunicação e marketing do Banco do Brasil, professor da pós-graduação da PUC-MG, coordenador do Projeto Legado de Brumadinho e diretor da LCM Conexão Pública.
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