A cobertura da apuração eleitoral como ilusionismo
Observatório da Imprensa · Por Ramsés Albertoni
(há 1 hora)
Publicado originalmente em Observatório da Imprensa ↗ · Uso: Reprodução total ou parcial permitida com menção da fonte e do endereço do site; o rodapé cita CC BY 4.0


(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil)
Com o encerramento da votação nas urnas eletrônicas, o resultado de uma eleição está fixado nos boletins, restando o trânsito desses números até o conhecimento público, intervalo que a imprensa preenche com um vocabulário emprestado do esporte: virada, reação, disputa voto a voto, distância que diminui. Broh (1980) estudou sob o rótulo horse-race journalism a cobertura de pesquisas na eleição presidencial dos Estados Unidos, em 1976, e Banducci e Hanretty (2014) definem o termo como a cobertura que remete explícita ou implicitamente a pesquisas de opinião. Patterson (1993) e a revisão de Aalberg, Strömbäck e de Vreese (2012) trabalham com um conceito mais largo, o do enquadramento da política como jogo estratégico. A narrativa da apuração ocupa uma zona vizinha a essas definições, o placar é verdadeiro, a pesquisa se torna dispensável e a gramática do jogo segue em uso.
A ordem de chegada dos boletins obedece a geografia, conectividade, densidade populacional e modalidade de voto. No Brasil, todas as seções encerram no mesmo horário, e as diferenças decorrem da transmissão e da totalização. Um gráfico do UOL, que compara a evolução da apuração nos primeiros turnos de 2022 e 2026 em função do percentual de urnas apuradas, torna essa ordem visível.

Link: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/apuracao/
Pela leitura da imagem, Bolsonaro abriu a contagem de 2022 com cerca de 49% dos votos e foi ultrapassado por Lula em torno de 70% das urnas apuradas; o petista terminou com cerca de 48%, e o então presidente, com cerca de 43%. A curva de 2026 tem formato semelhante e um desfecho distinto: Flávio Bolsonaro chegou a cerca de 51% nas primeiras fases e desceu de forma contínua até cerca de 47%, enquanto Lula, que oscilava em torno de 41%, subiu até cerca de 45%, de modo que as curvas se aproximaram sem se cruzar. Segundo o G1, o candidato do PL superou 50% dos votos nas primeiras horas e voltou a ficar abaixo desse patamar por volta das 19h15, com 64% das urnas apuradas e cerca de 5 milhões de votos de vantagem sobre Lula, diferença que recuou para cerca de 2,3 milhões nos momentos finais.
Nos Estados Unidos, Foley e Stewart III (2020) estimam que a parcela de votos contada depois do dia da eleição cresce desde 1992 e chegou a cerca de 10% em 2016. Zonas eleitorais do condado de Orange, na Califórnia, foram analisadas por Li, Hyun e Alvarez (2021), que constataram que as variações posteriores à eleição acompanham a composição dos distritos e a sequência de processamento das cédulas. Em 2020, Donald Trump transformou uma vantagem provisória em alegação de vitória e a inversão posterior em indício de adulteração.
A afirmação de que o resultado “já estava determinado” descreve o estado dos boletins, porém, quem acompanha a contagem vive outra situação, uma vez que a incerteza existe e produz consequências. Mercados oscilam, campanhas preparam discursos em versões alternativas, militantes se mobilizam ou se recolhem. Um agravante merece registro, tribunais, institutos e redações dispõem de estimativas do peso de cada região, e a suposta virada já consta das planilhas quando é anunciada com ar de suspense. A surpresa exibida na tela reproduz, em boa parte, um dado previsto. Semelhante ao ilusionismo, em que a atenção da plateia é conduzida à mão que se agita enquanto o mecanismo opera fora de vista, a cobertura da apuração dirige o olhar à curva que sobe e desce e deixa na penumbra a ordem de chegada dos boletins, de modo que a virada, prevista nas planilhas, chega ao público como prodígio. O limite de 50% dos votos válidos, que define a vitória, empresta peso institucional a esses números, a superação provisória do patamar nas primeiras horas de 2026 sugeriu um desfecho que a contagem completa não confirmou, e a decisão da eleição ficou para o dia 25 de outubro.
Parte da força dessa gramática vem de fora das redações. Bruner (1991) sustenta que a experiência e a memória dos acontecimentos humanos se organizam sobretudo em forma de narrativa, versão da realidade cuja aceitabilidade é regida por convenção e por “necessidade narrativa”, critérios distintos da verificação empírica. Heider e Simmel (1944) mostraram que observadores atribuem intenções e conflitos a figuras geométricas em movimento. Aplicada à apuração, essa disposição transforma boletins que chegam em sequência num drama de ultrapassagem, com início, conflito, reação e desfecho; aplicada ao mercado financeiro, faz da oscilação de um índice a história de uma bolsa que “reagiu com otimismo” a uma declaração. A narrativa também oferece conforto, pois promete que os acontecimentos obedecem a um enredo que pode ser decifrado e antecipado. O custo aparece quando o enredo ocupa o lugar da explicação sistêmica, cujas forças burocráticas, estatísticas e logísticas, que operam sem protagonista, rendem menos atenção do que uma disputa com adversários e reviravoltas. Existem histórias possíveis sobre a contagem, com o boletim, a seção e o percurso dos dados como personagens, que dispensam o candidato que reage.
Coutinho (2003) descreveu o telejornal como uma narrativa dramática organizada em torno de conflito, fontes e personagens, e a noite eleitoral oferece material abundante a essa estrutura. Os plantões da Rede Globo nos segundos turnos de 2018 e 2022 foram examinados por Loraschi e Pereira (2024), que identificaram posicionamentos dos apresentadores ao longo das transmissões. A cena resultante comporta protagonistas, adjetivos e juízos, composição bastante distante da imagem de um simples descarregamento de arquivo. A transmissão ao vivo exige horas de preenchimento, e a contagem fornece números em movimento diante de um placar permanente. Responsabilizar jornalistas isolados por essa dramatização seria ingenuidade, pois a forma é institucional. As instituições, no entanto, tomam decisões. Mapas coloridos destacam a vantagem parcial, e verbos como disparou, virou e encostou completam o quadro. Existem alternativas, tais como, exibir, junto ao percentual apurado, o mapa do que ainda falta e informar quais regiões costumam chegar mais tarde. O gráfico do UOL e o relato do G1 sobre a apuração de 2026 caminham nessa direção ao relacionar a vantagem de cada momento ao percentual de urnas apuradas. Cada alternativa traz consequências. Uma curva que sobe e desce também conta uma história, e a escolha dos eixos participa dela, a escala vertical do gráfico do UOL vai de 35% a 55%, recorte que amplia visualmente movimentos de poucos pontos percentuais.
Os efeitos dessa gramática seguem em disputa na literatura. Experimentos conduzidos por Cappella e Jamieson (1996) associaram enquadramentos estratégicos à ativação do “cinismo político”, e a revisão de Aalberg, Strömbäck e de Vreese (2012) descreve evidências conflitantes sobre tais efeitos. O lado da demanda também pesa, indícios de que o público procura esse tipo de notícia foram apontados por Iyengar, Norpoth e Hahn (2004), o que dificulta atribuir a corrida de cavalos a uma imposição das redações. Em 160 veículos de 27 países europeus, Banducci e Hanretty (2014) observaram mais cobertura de corrida de cavalos onde havia maior profissionalismo jornalístico, sistemas partidários polarizados e disputas apertadas, e propuseram que ela não seja lida como notícia de baixa qualidade. O enquadramento de jogo predominou ainda nos jornais estadunidenses que cobriram a eleição brasileira de 2022, e a corrida eleitoral apareceu em cerca de 70% dos textos analisados por Petric e Sternadori (2025). Reunidos, esses achados desencorajam receitas simples, pois o recurso cresce com o profissionalismo das redações, encontra procura entre o público e vem associado ao cinismo político.
Projeções estatísticas e pesquisas de boca de urna bem calibradas reduzem o espaço da virada, e também trazem dificuldades. As pesquisas estadunidenses de 2016 e 2020 erraram de forma sistemática. No Brasil de 2026, institutos como Datafolha, Quaest e BTG/Nexus colocaram Lula à frente no primeiro turno em levantamentos dos meses anteriores, e a contagem exibiu por horas um quadro oposto, o que fez da noite eleitoral uma sucessão de dois placares com narrativas distintas, conforme analisei em outro artigo. A legislação de vários países, inclusive a brasileira, restringe a divulgação de resultados antes do encerramento da votação, por receio de que a antecipação afete quem ainda vai votar. Uma projeção precoce pode, além disso, reduzir a apuração a formalidade e esvaziar a função simbólica da contagem pública, momento em que o resultado se torna fato social reconhecido por vencedores e vencidos. Quando a contagem é tratada como rotina técnica, o ritual se empobrece, quando é narrada como corrida, ele é explorado sem cuidado.
A desconfiança nas urnas eletrônicas foi cultivada no Brasil, durante anos, por lideranças políticas e redes digitais, antes de qualquer noite de apuração, e a virada oferece enredo a uma suspeita já formada. Uma frase como “estava ganhando e perdeu no final” circula nas mídias sociais sem o contexto que a explicaria, e a imprensa que a pronuncia entrega o roteiro pronto a quem procura indícios de manipulação. A descrença tem causas múltiplas, e cada narrativa jornalística acrescenta material à sua construção. As implicações dos achados sobre a contagem para as preocupações públicas com a integridade eleitoral são discutidas pelos próprios Li, Hyun e Alvarez (2021).
A dificuldade pedagógica talvez seja a mais complexa, porquanto, na própria noite da eleição e apuração, explicar a ordem de totalização equivale a pedir paciência a um público em busca do desfecho, dentro de um formato que depende de mantê-lo à espera. A explicação rende mais quando antecede a votação em semanas, com reportagens sobre a logística da contagem, o peso das regiões e o calendário provável dos boletins. Essa prática existe e segue pouco difundida, pois o interesse do público pelo funcionamento do sistema costuma despertar com o sistema já em ação. A pesquisa acadêmica reproduz a assimetria, e a contagem como objeto de investigação do jornalismo permanece pouco explorada, ao menos na bibliografia consultada para este artigo. O segundo turno, marcado para 25 de outubro, oferecerá nova ocasião para observar como a contagem será narrada. O resultado final existe desde que a última urna foi lacrada, o modo de entregá-lo a quem espera continua sendo decidido, a cada eleição, por quem define o que aparece primeiro na tela.
Referências
AALBERG, T.; STRÖMBÄCK, J.; DE VREESE, C. H. The framing of politics as strategy and game. Journalism, 13(2), 2012, p. 162-178. DOI: https://doi.org/10.1177/1464884911427799
BANDUCCI S.; HANRETTY, C. Comparative determinants of horse-race coverage. European Political Science Review. 6(4), 2014, p. 621-640. DOI: https://doi.org/10.1017/S1755773913000271.
BROH, C. A. Horse-race journalism. The Public Opinion Quarterly, 44(4), 1980, p. 514-529. DOI: http://www.jstor.org/stable/2748469.
BRUNER, J. The narrative construction of reality. Critical Inquiry, v. 18, n. 1, p. 1-21, 1991. DOI: https://doi.org/10.1086/448619.
CAPPELLA, J. N.; JAMIESON, K. H. News frames, political cynicism, and media cynicism. The ANNALS of the American Academy of Political and Social Science, v. 546(1), p. 71-84, 1996. DOI: https://doi.org/10.1177/0002716296546001007.
COUTINHO, I. Dramaturgia do telejornalismo brasileiro. Tese (Doutorado em Comunicação Social). São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2003.
FOLEY E.; STEWART III, C. Explaining the blue shift in election canvassing. Journal of Political Institutions and Political Economy, vol. 1(2), 2020, p. 239-265. DOI: https://doi.org/10.1561/113.00000010.
HEIDER, F.; SIMMEL, M. An experimental study of apparent behavior. The American Journal of Psychology, 57(2), 1944, p. 243-259. DOI: https://doi.org/10.2307/1416950.
IYENGAR, S.; NORPOTH, H.; HAHN, K. S. Consumer Demand for Election News. Journal of Politics, 66, 2004, p. 157-175. DOI: https://doi.org/10.1046/j.1468-2508.2004.00146.x
LI, Y.; HYUN, M.; ALVAREZ, R. M. Why do election results change after election day?. APSA Preprints. DOI: https://doi.org/10.33774/apsa-2020-s43xx-v2.
LORASCHI, E. N. S.; PEREIRA, A. C. Isenção, neutralidade e imparcialidade. Anais do 23º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul (Intercom Sul), Frederico Westphalen, 2024.
PATTERSON, T. E. Out of order. New York: Knopf, 1993.
PETRIC, M.; STERNADORI, M. Framing of Brazil’s 2022 presidential elections in U.S. newspapers coverage. Brazilian Journalism Research, v. 21(2), 2025. DOI: https://doi.org/10.25200/BJR.v21n2.2025.1744.
***
Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).
O post A cobertura da apuração eleitoral como ilusionismo apareceu primeiro em Observatório da Imprensa.