98% dos ataques contra candidatas no X seguem no ar após primeiro turno das eleições
Núcleo Jornalismo · Por Jeniffer Mendonça
(há 1 hora)
Publicado originalmente em Núcleo Jornalismo ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0 (programa de republicação para veículos de jornalismo)


No X, ainda estão no ar 98% dos 1.101 ataques contra 143 mulheres que disputavam cargos nas eleições deste ano. De acordo com o plano de conformidade eleitoral entregue ao TSE, a plataforma se comprometeu a moderar os conteúdos ofensivos, como aplicar medidas de redução de visibilidade e alcance e, a depender da gravidade, remover os posts.
Em relação aos ataques que não estavam disponíveis, não foi possível identificar se houve medidas de moderação ou restrição de visibilidade pelo X ou verificar se esses conteúdos foram denunciados ou notificados à plataforma.
O MonitorA fez uma análise automatizada dos links dos comentários que foram coletados e classificados como agressivos desde 16.ago.2026, início da campanha, e verificou que apenas 18 deles não estavam mais disponíveis na rede social até 15.out.2026. O levantamento considerou tanto os comentários em texto quanto os que utilizavam algum recurso visual direcionados aos perfis das candidatas.
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MonitorA é o observatório de violência política de gênero nas redes sociais durante as eleições, uma parceria entre InternetLab, Núcleo e Instituto Democracia em Xeque. Esta é a quarta edição do projeto, fundado em 2020 com a participação do Instituto AzMina.
Dentre os conteúdos indisponíveis, o levantamento identificou 10 comentários provenientes de seis perfis diferentes que estão suspensos. Desses, cinco eram ataques transfóbicos contra a deputada federal Erika Hilton e dois de teor gordofóbico contra a deputada federal Sâmia Bonfim, ambas reeleitas pelo PSOL de São Paulo, dois envolviam desumanização contra a deputada federal Marina Silva (Rede-SP), que disputou uma vaga ao Senado, e um comentário misógino contra Maria Marighella, eleita deputada federal pelo PT na Bahia.
Entre os 27 postulantes homens monitorados, apenas seis ataques não estavam mais disponíveis em relação aos 169 comentários ofensivos localizados no mesmo período.
Como o MonitorA analisa comentários
Para a avaliação da disponibilidade, o MonitorA checou 1.270 comentários classificados como ataques e direcionados aos perfis de candidatos monitorados (143 mulheres e 27 homens) no X que já haviam sido coletados desde 16.ago.2026 para as análises anteriores. O levantamento considera tanto textos quanto imagens porque os conteúdos já tinham sido avaliados e classificados anteriormente.
Esses comentários foram submetidos a uma verificação automatizada por meio de código, que consultou os links dos conteúdos para identificar se permaneciam disponíveis até 15.out.2026.
A análise dos comentários agressivos no primeiro turno seguiu a metodologia descrita nas reportagens anteriores: a amostra dos perfis se deu em relação àqueles que receberam mais de 100 comentários e que traziam termos potencialmente ofensivos no X, no TikTok, no YouTube e no Instagram, de 143 candidatas, entre 1 e 4.out.2026. Já no caso das candidatas a governadoras que avançaram para o segundo turno, o período abarcou de 17.ago.2026 a 5.out.2026.
Para isso, foi coletada uma amostra de 30% dos comentários deixados nas postagens monitoradas. Após a coleta, o conteúdo foi filtrado com base no léxico do MonitorA, uma lista de termos e palavras potencialmente ofensivas construída e aprimorada pela equipe do projeto ao longo de suas diferentes edições. Nesta etapa, o léxico reúne 321 termos.
Não foram incluídos os perfis de presidenciáveis devido ao volume maior de comentários. Nesta avaliação do primeiro turno e das candidatas a governadoras também não incluímos imagens.
Além disso, a metodologia adota uma amostra específica de candidaturas, o que significa que algumas candidatas que ganharam destaque ao longo do processo eleitoral não foram contempladas na análise.
Historicamente, o MonitorA prioriza a representatividade nacional e a diversidade dos perfis monitorados, buscando construir um panorama mais abrangente e fidedigno da violência política de gênero nas campanhas eleitorais. Para isso, monitoramos o mesmo número de candidaturas em cada estado e adotamos critérios de diversidade que consideram raça, orientação sexual e identidade de gênero. Essa escolha metodológica, embora garanta a diversidade da amostra e permita uma análise mais equilibrada do cenário nacional, implica que nem todas as candidaturas de grande relevância ou alcance no ambiente digital serão necessariamente incluídas no monitoramento.
Neste ano, por exemplo, candidatas como Ana Elisa (PT-MG) e Eduarda Campopiano (PL-SP) ganharam destaque especial ao longo da campanha, mas não faziam parte do escopo inicial da pesquisa e não foram analisadas.
O observatório separa os comentários negativos em duas categorias:
- insultos: conteúdos que utilizam linguagem hostil e mais dura do que uma simples crítica, mas que não mobilizam diretamente desigualdades relacionadas a gênero, raça, região, religião ou sexualidade. São ofensas que, em princípio, podem ser direcionadas de forma semelhante a diferentes grupos e, por isso, não são consideradas pelo MonitorA como conteúdos que necessariamente deveriam ser removidos pelas plataformas.
- ataques: caracterizam-se pela tentativa de inferiorizar candidatas e candidatos com base em características associadas a grupos historicamente marginalizados. Nesses casos, as ofensas mobilizam marcadores como gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência, religião ou outros elementos utilizados para deslegitimar e desmoralizar determinados grupos. Por seu caráter discriminatório, consideramos que esses conteúdos deveriam ser removidos pelas plataformas.
A análise manual, tanto dos comentários em texto quanto das imagens, avaliou: (i) se o conteúdo era negativo; (ii) a quem era adicionado; (iii) caso fosse negativo, se era ofensivo contra a candidata; (iv) se fosse ofensivo, se era insulto ou ataque; e (v) caso fosse ataque, qual tipo. Um mesmo comentário poderia conter mais de uma ofensa.
Ao todo, os 24 comentários contendo ataques não indicavam o motivo de estarem indisponíveis, sendo retratados apenas como "postagem não encontrada".
Ou seja, não é possível saber: 1) se a plataforma removeu o conteúdo após a notificação de algum usuário; 2) se a plataforma identificou proativamente de que se tratavam de ofensas direcionadas a candidatas e candidatos e excluiu o post; 3) se a rede social aplicou medidas de restrição de visibilidade e de alcance; 4) se o próprio autor apagou o tweet ofensivo e 5) qual a justificativa da conta autora do ataque ter sido suspensa e, consequentemente, todas as postagens da sua autoria ficarem indisponíveis.
Para a coordenadora do InternetLab, Catharina Vilela, a permanência desse conteúdo revela uma "negligência" do X em combater a violência contra a mulher, sobretudo a violência política de gênero. "É uma violência que já é conhecida, que já é regulada e que inclusive também aparece coberta pela política da própria plataforma", critica.
Isso porque, além das obrigações previstas na legislação brasileira, as plataformas digitais, entre elas o X, entregaram planos de conformidade ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em que descrevem como pretendem prevenir e combater a desinformação e a violência nas eleições deste ano.
O que diz a legislação brasileira
Em 2025, o Supremo Tribunal Federal declarou parcialmente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet e estabeleceu novos parâmetros para a responsabilização das plataformas por conteúdos publicados por terceiros. Entre as mudanças está a introdução do dever de cuidado em situações de falha sistêmica relacionadas a determinados conteúdos ilícitos graves, incluindo crimes de ódio e violência de gênero.
Em 2026, esse processo ganhou um novo capítulo com o decreto nº 12.976, publicado em maio e em vigor desde 20 de julho, que estabelece diretrizes específicas para a proteção das mulheres na internet e para o enfrentamento da violência contra as mulheres no ambiente digital. A norma detalha os deveres das plataformas relacionados à prevenção, identificação e indisponibilização de conteúdos ilícitos contra mulheres e estabelece parâmetros para sua responsabilização em casos de falha sistêmica.
Em resolução publicada em mar.2026, o TSE proibiu a veiculação de postagens que proliferem violência política contra a mulher durante nas eleições. Ainda que o uso de deepfakes já fosse vedado na resolução de 2024, o tribunal passou a deixar claro que isso também inclui a criação de deepfakes sexuais e de nudez de candidatos e candidatas e de peças de publicidade geradas por IA que promovam violência política contra a mulher.
O Núcleo já havia revelado, em 29.jul.2026, que a empresa, além do Telegram e da Meta, têm clausulas de isenção de responsabilidade caso elas não cumpram as obrigações que elas mesmas propuseram no âmbito de enfrentamento à desinformação, embora ainda estejam sujeitas às obrigações da legislação brasileira.
A pesquisadora ressalta que, apesar de o X classificar no seu plano a violência política de gênero como risco alto e prioridade número 1, a rede social considera como um risco residual baixo, ou seja, com pouca probabilidade de acontecer. "No plano, o X entende que já continha ferramentas suficientes para garantir que isso não acontecesse, por isso seria de baixo risco, mas não é o que a gente tem visto pela nossa análise. Esse tipo de violência acontece muito e não está sendo moderado", afirma.
A rede social indica que a violência política de gênero se enquadra nas medidas previstas nas suas políticas de Conteúdo Violento, de Conduta de Propagação de Ódio e de Abuso e Assédio, o que envolve desde remoção de conteúdos gráficos de violência sexual e discurso de ódio a restrição de visibilidade e de alcance (não necessariamente exclusão) com base na gravidade e probabilidade do dano.
Além disso, Vilela sinaliza para uma dificuldade de se avaliar como a moderação está ou não ocorrendo devido à falta de transparência da plataforma e também o fato de que o discurso de ódio e a violência política de gênero estarem sujeitas à interpretação em vista de a legislação brasileira não estabelecer definições fechadas.
Nas classificações do MonitorA, por exemplo, os insultos são os conteúdos que não necessariamente deveriam ser excluídos porque as ofensas não se utilizam de marcadores como gênero, raça, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência, religião ou outros elementos utilizados para deslegitimar e desmoralizar determinados grupos. Já os ataques, por mobilizarem esses marcadores, deveriam ser removidos na avaliação do projeto.
O levantamento também tem alertado sobre a utilização de termos, imagens e expressões que precisam ser avaliadas dentro de um contexto pois, isolados, não representam conteúdos considerados violentos e podem fugir da análise de uma moderação mais automatizada.
Ataques no primeiro turno
O MonitorA também fez uma análise de 2.202 comentários direcionados aos perfis de 143 candidatas no Instagram, no YouTube, no X e no TikTok entre 1 e 4.out.2026, data do primeiro turno. Cerca de 31% desse total representou conteúdo ofensivo, com 257 ataques e 421 insultos.
O X foi a rede social que mais concentrou comentários agressivos em relação às demais, com 557 ocorrências, sendo 226 ataques e 331 insultos. Em seguida, aparece o YouTube, com 115 ocorrências, das quais 31 foram classificadas como ataques e 84 como insultos. Já no TikTok, foram identificados apenas seis comentários ofensivos, todos classificados como insultos. Tanto no X quanto no YouTube, os insultos foram mais frequentes do que os ataques.
Como o MonitorA vem apontando, isso não significa que uma plataforma é mais ou menos segura do que a outra, mas que existem dinâmicas de interação e de moderação diferentes.
Quatro candidatas representaram juntas 79% dos comentários agressivos, sendo três delas postulantes ao Senado, reforçando uma tendência que já havia sido identificada na primeira reportagem. Simone Tebet (PSB-SP) liderou o levantamento, com 221 ocorrências, seguida por Erika Hilton (110), Soraya Thronicke (105), do mesmo partido de Tebet, pelo Mato Grosso do Sul, e Marina Silva (103).
Já com a filtragem apenas dos ataques, sem considerar os insultos, Erika Hilton sobe para o primeiro lugar, com 73 comentários, e na sequência estão Marina Silva (63) e Simone Tebet (55).
A transfobia representou 82% dos conteúdos ofensivos direcionados à Erika Hilton, com uso de pronomes masculinos, menção ao nome morto e expressões que negam sua identidade de gênero, como "tu é homem" e "homem é homem".
Para Catharina Vilela, esse diagnóstico está associado ao destaque a pautas antitrans nas campanhas, como a de Nikolas Ferreira (PL-MG) e a de Lucas Pavanato (PL-SP), que foram os dois candidatos a deputado federal mais votados, com mais de 3 milhões de votos cada. Erika Hilton, por sua vez, foi a terceira candidata mais votada para a Câmara dos Deputados, com aproximadamente 1,6 milhão de votos, registrando a maior votação de uma mulher para o cargo na história do país.
Com relação à Marina Silva, o etarismo (36,5%), a desumanização (25%) e a inferiorização (14%) foram os principais tipos de ataques, sobretudo atrelados às suas características físicas, para desqualificar e questionar sua capacidade de permanecer na vida política. Uso de xingamentos como "múmia", "carniça véia" e "dinossauro da pré-história" ilustram esse cenário que já vinha sendo identificado no início da campanha.
A misoginia respondeu por mais da metade (54,5%) dos ataques contra Simone Tebet, seguida de inferiorização (13%) e manifestações de nojo e desumanização (11% cada). Expressões como "traidora vagabunda" e "se prostituindo por cargo" ilustram o uso de referências sexualizadas e depreciativas nos comentários dirigidos à ela para questionar suas escolhas políticas, como a participação como ministra no governo federal.
Ela e Marina Silva também costumam aparecer juntas em parte dos conteúdos agressivos pelo uso da hashtag #ElasNão, originalmente utilizada como #EleNão durante a mobilização de mulheres contra a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência em 2018.
Esse mesmo tipo de apropriação de bordões políticos também apareceu nas ofensas direcionadas à senadora Soraya Thronicke, que não conseguiu um novo mandato. Expressões como "tchau, querida", popularizada durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, em 2016, e "traidora" foram utilizadas para celebrar a derrota eleitoral.
Misoginia (40%), inferiorização (24%) e etarismo (12%) foram as principais formas de ataque à candidata.
Candidatas que disputam o segundo turno
Com exceção de Raquel Lyra (PSD) que se reelegeu no primeiro turno em Pernambuco, quatro mulheres disputam cargo de governadora neste domingo (25.out): Celina Leão (PP), no Distrito Federal, Mailza Assis (PP), no Acre, Professora Dorinha Seabra (União Brasil), no Tocantins, e Professora Maria do Carmo (PL), no Amazonas – todas pertencentes a partidos de direita ou centro-direita e que declararam apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).
O MonitorA avaliou os comentários dirigidos aos perfis no X, no TikTok, no YouTube e no Instagram dessas quatro candidatas, entre 17.ago e 5.out. Do total de 662 comentários direcionados às candidatas, 281 foram identificados como ataques e insultos.
Celina Leão concentrou a maior parcela, com 70% das ocorrências, seguida pela Professora Dorinha Seabra, com 13%, Mailza Assis, com 9%, e Professora Maria do Carmo, com 8%.
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Nem todas as candidatas tiveram comentários analisados nas quatro plataformas devido à ausência de atuação da candidata em determinada rede social ou o não atendimento aos critérios metodológicos de coleta, que exigiam que as publicações tivessem recebido pelo menos 100 comentários e apresentassem comentários contendo termos potencialmente ofensivos.
Dessa forma, a análise de Celina Leão contemplou Instagram e X; a de Mailza Assis, apenas Instagram; a de Professora Dorinha Seabra, Instagram e TikTok; e a de Professora Maria do Carmo, Instagram, TikTok e YouTube.
A misoginia (72%) respondeu pela maioria dos conteúdos agressivos contra Leão. Aparecem xingamentos como "vagabunda", "prostituta", "piranha" e variações de "cadela do Vorcaro" ou "puta do Master", em referência à suposta participação dela em tratativas para a compra do Banco Master, de Daniel Vorcaro, pelo Banco de Brasília (BRB), que foi barrada pelo Banco Central quando ela ainda ocupava o cargo de vice-governadora do DF.
Essa relação veio à tona no mês passado após serem tornadas públicas as trocas de mensagens entre o ex-banqueiro e o publicitário Thiago Miranda, que datam de 2025. A candidata declarou publicamente que não integrou a operação e, segundo o site Poder360, não há mensagens suas no celular de Vorcaro.
Outra hipótese que pode ter contribuído para o destaque de Leão entre as demais é o fato de ser a única candidata em que foi possível analisar conteúdos no X. O MonitorA vem apontando que a rede social, por ter uma dinâmica que permite uma interação mais direta dos usuários, tem apresentado um número maior de comentários coletados.
IA é usada em 25% das imagens ofensivas contra candidatas no X
Análise do MonitorA revela que ferramenta auxilia a criação de montagens e charges para atacar especialmente características físicas; uso é proibido pelo TSE para disseminar violência política de gênero
Marina Silva é o principal alvo de ofensas contra candidatas no X
Levantamento do MonitorA revela que 63% dos ataques e insultos foram feitos contra candidatas ao Senado; disputa por cargo considerado estratégico nas eleições deste ano mobilizou comentários ofensivos contra mulheres
Arte Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico