12% dos jovens admitem ter criado deepfake sexual, diz SaferNet
Núcleo Jornalismo · Por Jeniffer Mendonça
(há 1 hora)
Publicado originalmente em Núcleo Jornalismo ↗ · Uso: CC BY-ND 4.0 (programa de republicação para veículos de jornalismo)


12,4% dos rapazes entre 16 e 21 anos admitiram que já criaram uma deepfake sexual, ou seja, manipularam fotografias com uso de inteligência artificial para forjar cenas de sexo ou nudificar o corpo de uma pessoa.
O dado faz parte da pesquisa "Rostos fabricados, danos reais", que ainda será lançada pela SaferNet e foi apresentado durante o 11º Simpósio Crianças e Adolescentes na Internet, nesta sexta-feira (30.out.2026).
A ONG ouviu 679 jovens, entre ago.2025 e fev.2026, sobre como a violência sexual mediada por IA é percebida pelo público. A maioria dos respondentes é do gênero masculino (501). Entre as meninas, nenhuma disse já ter criado uma deepfake sexual.
"Essa é uma tecnologia que é usada como uma arma para praticar violência contra meninas e mulheres", destaca Juliana Cunha, diretora de projetos da SaferNet.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define como crime, em seu artigo 241-C, a simulação de cenas de sexo ou cenas pornográficas com crianças e adolescentes. Contudo, 9,4% dos meninos que responderam a pesquisa acreditam categoricamente que criar deepfake sexual não é uma infração.
Além disso, os jovens responderam que o Telegram é a principal plataforma (42,6%) onde esses materiais são criados, seguido de buscadores, como Google, (33,9%) e aplicativos de nudificação (27,1%).
Para Cunha, o desafio é promover conscientização especialmente ao meninos e rapazes e que reduzir a maioridade penal não resolve o problema na raiz. "A abordagem tem que ser no sentido de fortalecer a educação, educação nas escolas, a educação digital e a midiática. Defender que haja também uma educação no sentido de discutir temas como consentimento, relações entre gênero, questões que a gente sabe que estão na base dessas violências", explica.
Isso não significa que não deva existir responsabilização, ressalta. "No contexto de medidas socioeducativas, a justiça e as instituições podem também repensar suas estratégias de, por exemplo, mediação de conflitos. Você tem hoje metodologias que são aplicadas nas escolas para esses contextos, ou mesmo uma justiça mais restaurativa, no sentido de ressocializar, reeducar. E a gente sabe que, por serem adolescentes, eles ainda estão em desenvolvimento."
Para ela, a comunidade escolar também tem que estar envolvida, já que, em relação aos casos que ocorrem na escola, apenas um em cada cinco jovens acha que a instituição de ensino está preparada para lidar com o assunto. 40% acreditam que a escola culparia a vítima ou não entenderia a tecnologia.
A pesquisadora ressalta que as escolas precisam criar protocolos para não causar revitimização. "Apenas transferir o adolescente infrator de escola não é suficiente e só transfere o problema de lugar", aponta.
Meninas e mulheres são 100% das vítimas
A SaferNet também coletou ocorrências de deepfakes sexuais em escolas que foram noticiadas pela imprensa no mesmo período. Foram 17 episódios, em 11 estados com 222 vítimas. Em 100% dos casos, as vítimas eram do gênero feminino, sendo meninas de 12 a 17 anos e, em alguns casos, professoras.
O levantamento contabilizou 61 infratores, todos do gênero masculino e com preponderância de adolescentes. É o equivalente a quatro vítimas por agressor. O intuito, em geral, é gerar humilhação e controle dos corpos das meninas e, no caso das professoras, também contestar sua autoridade pedagógica.
A SaferNet também identificou um ecossistema de comercialização dessas imagens que favorece a exploração sexual infantojuvenil, especialmente por meio de canais privados no Telegram, sites de conteúdo adulto e fóruns e comunidades na darkweb que trocam informações sobre como criar as imagens manipuladas por IA.
Segundo Juliana Cunha, as ações começam em ambientes virtuais abertos e migram para grupos mais restritos, onde os infratores produzem essas imagens manipuladas para chantagear as vítimas em troca de dinheiro ou de mais imagens da vítima. No caso do Telegram, a falta de moderação colabora a perpetuação dessas práticas. "A gente também precisa olhar para esse ecossistema e entender em que medida eles também favorecem a prática de crimes."
Caso você ou uma pessoa com menos de 18 anos seja vítima de deepfake sexual, a SaferNet recomenda um acolhimento sem julgamento da vítima, preservação das evidências e busca pelas autoridades competentes. Registro de boletim de ocorrência, acionamento da família, da direção da escola, do Conselho Tutelar e as plataformas digitais.
A ONG também recebe denúncias e presta atendimento a vítimas pelo link: denuncie.org.br
Reportagem Jeniffer MendonçaArte Aleksandra Ramos
Edição Alexandre Orrico
